Capítulo 4 – O Rei das Ínsuas

Como era tradição, na altura do Natal, eu, a minha mulher e a minha filha passámos uma semana de férias em casa dos meus avós, em Viana do Castelo. Algumas das entradas no diário que encontrara passavam-se em ou perto dessa cidade, pelo que aproveitei a oportunidade para as investigar. 

Uma noite, depois do jantar, desculpando-me dizendo que ia falar com alguns velhos amigos, saí e dirigi-me até à margem do rio Lima. A desculpa até nem era uma absoluta mentira. Durante a tarde, havia telefonado a um amigo de infância para ele me emprestar um barco, e ainda conversámos durante uma meia hora antes de eu entrar a bordo e começar a remar.

Estava ali para investigar umas sombras e silhuetas peculiares, e estranhos movimentos nos juncos que o autor do diário havia visto nas ínsuas próximas da foz do rio. Como habitual, o meu antecessor não havia investigado a questão a fundo, nem sequer saíra da margem, mas eu estava determinado a descobrir o que havia ali.

Como tal, remei até à maior das ínsuas, popularmente conhecida como Camalhão, que se situava a pouco mais de uma centena de metros do ancoradouro onde o meu amigo tinha o barco. 

Mal cheguei à ínsua, desembarquei, prendi a âncora a um dos enormes torrões e adentrei-me por uma regueira próxima. Como a maré estava em baixo, as margens desta, mais os longos juncos, erguiam-se acima da minha cabeça, pelo que não conseguia ver nada em volta. Porém, tendo passado uma parte da minha infância naquelas ínsuas, sabia que aquela regueira me levaria ao coração do Camalhão de forma mais rápida do que atravessando os juncos.

Logo após a primeira curva, deparei-me com um mau presságio. De uma poça na quase seca regueira, a cabeça decepada de um homem olhava para mim. Estava inchada e mostrava sinais de putrefação e de ataques de animais. De facto, a parte ainda submersa estava, naquele momento, a servir de alimento a vários camarões do rio.

Após o susto e choque iniciais, cheguei à conclusão que não devia ter razão para me preocupar. Não era invulgar encontrar corpos e partes de corpos no rio, vítimas de naufrágios trazidas e depositadas pela maré alta. Aquela cabeça não devia ter nenhuma relação com as silhuetas que eu tinha ido ali investigar.

Continuei a avançar, tomando uma nota mental para mais tarde avisar as autoridades quanto à cabeça.

Tinha percorrido poucas dezenas de metros, quando um diminuto vulto negro saltou sobre a regueira mesmo à minha frente. De imediato, subi a margem. Quando cheguei ao topo, não o vi, mas os movimentos dos juncos denunciavam-no, e consegui segui-lo.

Corri atrás dele durante várias centenas de metros, as pontas dos juncos atravessando-me as calças e ferindo-me as pernas.

Finalmente, chegámos a uma área mais limpa, coberta apenas por erva baixa, situada debaixo da chamada Ponte Nova. Foi só então que vi o que estava a perseguir: um pequeno ser humanoide, com pouco mais de dez centímetros de altura. Este desapareceu atrás de um enorme monte de ramos de árvore e embalagens de plástico, lixo certamente trazido pela corrente e pelas marés.

Continuei a segui-lo, contudo, assim que cheguei aos detritos, ouvi uma voz grave e pausada vinda de uma regueira próxima. 

– Quem és tu? O que fazes no meu reino e porque persegues um dos meus súbditos? 

Eu ia responder, mas a criatura que falara levantou-se e deixou-me sem palavras. Tratava-se de um enorme ser com quase o dobro do meu tamanho.  Não podia ser apelidado de gordo, embora não fosse propriamente magro, e, sob o luar, parecia ter uma pele pálida como marfim. Sobre a cabeça levava uma coroa feita de juncos entrelaçados, o que, juntamente com o facto de se ter referido, pouco antes, aos seus súbditos, levou-me a concluir que ele era o rei das criaturas cujas silhuetas o meu antecessor vira.

O enorme ser saiu da regueira e aproximou-se do monte de detritos. Afastei-me para lhe dar passagem, mas não me atrevi a tentar fugir. Para minha surpresa, ele sentou-se sobre o lixo, e só então percebi que se tratava de um tosco trono.

– Diz-me lá o que estás aqui a fazer – insistiu a criatura.

Contei-lhe sobre as silhuetas e como fui até ali para descobrir o que eram.

– Parece que alguns dos meus súbditos precisam de começar a ter mais cuidado – respondeu ele, no fim. – Especialmente agora. 

– Especialmente agora porquê? 

– Os meus súbditos andam a desaparecer. Não sabemos como nem porquê. O que me leva a desconfiar de ti. Como é que eu sei que não és tu o raptor. Eu vi-te a perseguir um dos nossos.

Tentei justificar a minha curiosidade. Até lhe contei sobre as minhas idas à cidade dos mortos e ao bar das fadas.

Enquanto eu falava, uma bizarra criatura emergiu dos juncos. Andava em quatro patas, embora o seu corpo fosse esguio e se contorcionasse como o de uma serpente, mas tinha uma face vagamente humana. Ele aproximou-se do rei, ergueu-se nas pernas de trás e sussurrou-lhe algo ao ouvido. Depois, desapareceu outra vez nos juncos.

O rei deixou-me terminar a minha explicação. 

– Acho que acredito em ti – disse, por fim. – Se fosses o responsável pelos desaparecimentos, não tinhas deixado as minhas sentinelas ver-te.

Apontou com a cabeça para o ponto por onde a criatura serpentiforme desaparecera.

Mais calmo, ocorreu-me que os desaparecimentos nas ínsuas talvez estivessem relacionados com os dos mortos e contei ao rei o que descobrira no Gerês. 

– Curioso – respondeu ele. – Agora preciso que vás embora. Estou a juntar o meu povo aqui e vou precisar de falar com ele. 

Não esperei que me dissesse uma segunda vez. Entrei nos juncos e dirigi-me ao barco. Conforme atravessava o Camalhão, avistei várias pequenas sombras no meio do rio, no espaço entre as ínsuas. Após olhar mais atentamente, percebi que se tratavam de troncos e até de pequenas folhas de árvore carregando várias das criaturas que eu agora sabia viverem ali.

Ainda vi as primeiras desembarcar no Camalhão, mas logo retomei a caminhada até ao barco, temendo que o Rei das Ínsuas me expulsasse. Ou pior. 

Remei de volta à margem e, depois de devolver o barco, regressei a casa dos meus avós. Enquanto conduzia, não conseguia deixar de pensar nos desaparecimentos. Haveria realmente uma relação entre os das ínsuas e os dos mortos? Ainda não sabia o suficiente sobre aquele mundo paralelo para responder a essas perguntas, mas ia continuar a investigar. A minha curiosidade nunca me deixaria parar.

Capítulo 3 – A Procissão das Almas

Após a minha descoberta do Bar das Fadas, e ter confirmado que o relato no diário que havia encontrado não era apenas ficção, não conseguia deixar de pensar nisso. A minha mulher, os meus amigos, até os meus colegas de trabalho, repararam que eu andava mais distraído. Porém, eu tinha decidido não contar nada a ninguém. Naquela altura, não tinha a certeza como aquele conhecimento nos podia afetar e, além disso, temia que os pudesse por em perigo. 

Como tal, tive de esperar algum tempo até ter uma oportunidade de embarcar noutra exploração sem levantar suspeitas. Esta surgiu quando a minha sogra ficou doente e a minha mulher, juntamente com a nossa filha, foi tomar conta dela.

Depois do encontro com Alice, quis deixar passar algum tempo antes de voltar ao Bar das Fadas, pelo que decidi explorar outro local. Após reler mais uma vez algumas das entradas do diário, decidi viajar até ao Gerês e visitar uma aldeia abandonada na serra onde, supostamente, durante a noite, os mortos se levantam do cemitério e partem numa procissão pelas encostas e vales.

Saí de casa ainda de dia, porém, quando entrei na estrada que subia a montanha, o Sol já se havia posto. Apesar de as encostas mais elevadas do Gerês não terem muitas árvores, a escuridão tornava difícil encontrar a aldeia, mesmo com a ajuda de um GPS. Finalmente, decidi parar num pequeno espaço na berma da estrada, junto ao ponto onde a aldeia supostamente ficava.

Saí do carro e comecei a procurar a pé. Com a ajuda da lanterna mais poderosa que tinha, encontrei as ruínas que procurava, situadas um pouco abaixo de onde havia estacionado. 

Os telhados já haviam ruído, assim como muitas paredes e soalhos de madeira. Por todo o lado, vigas tombadas erguiam-se no céu noturno, como costelas de gigantescos animais.

Com a ajuda da lanterna, procurei a melhor maneira de descer. Não havia propriamente um trilho, mas, entre os penedos e as moitas de silvas, consegui encontrar uma passagem. 

Após vários tropeções e escorregadelas, evitando, por pouco, algumas quedas aparatosas, cheguei à aldeia abandonada. As suas ruas de terra batida, já de si estreitas e obstruídas com rochedos, estavam cobertas de escombros, silvedos e erva, tornando o avanço bastante difícil. O silêncio da noite era apenas quebrado pelo som de animais a rastejarem para longe e o pio das corujas que se refugiavam nas ruínas. 

Finalmente, cheguei ao que restava da igreja local. O topo da torre sineira já havia caído, assim como o telhado, contudo, a fachada parecia intacta, embora um nicho vazio sobre a porta me fizesse suspeitar que tivesse ali existido a estátua de um santo, agora desaparecida. Teria sido, certamente, roubada por alguém para depois vender.

Ao lado da igreja, rodeado por uma baixa parede de pedras soltas, encontrei o lugar que procurava: o cemitério. Segundo o diário, era dali que os espíritos dos mortos partiam na sua procissão noturna.

Lápides de pedra partidas e gastas, ocupavam o local, juntamente com pedaços de madeira apodrecida que, em tempos, teriam sido cruzes. 

Sentei-me do lado de fora, encostado ao muro, e esperei pela meia-noite, a hora a que o meu antecessor registou ter começado a ver os fantasmas. Estávamos no fim do Outono, pelo que o frio já apertava nas montanhas. Em parte, ainda bem, pois foi apenas graças a ele que não adormeci. 

Quando a hora, finalmente, chegou, não fiquei desapontado. No preciso instante em que o relógio do meu telemóvel marcou meia-noite, olhei para as campas. Sobre estas, começaram a formar-se vultos. A princípio, eram praticamente invisíveis, mas, aos poucos, começaram a tomar uma forma branca e translúcida. Tratavam-se de pessoas envergando versões fantasmagóricas das roupas, chapéus e lenços típicos daquela região até muito recentemente.

Conforme iam tomando as suas formas finais, os espíritos deixavam o cemitério e começavam a descer a encosta, enquanto, sobre as campas, novos vultos se formavam. Deixei que todos se juntassem à procissão, antes de começar a segui-los. 

Desci a encosta por um carreiro, atravessei uma velha ponte de pedra e até caminhei por uma geira romana. Os fantasmas percorreram quilómetros de terreno, durante quase duas horas. 

De súbito, a norte, avistei uma fila branca que descia outra encosta como uma gigantesca serpente albina. Não tardei a aperceber-me de que que se tratava de outra procissão de almas.

Mais três surgiram pouco depois, saídas de vales e montanhas, e, uma a uma, juntaram-se, continuando a avançar para este. Mais do que a uma procissão, agora assemelhavam-se a uma coluna militar. 

Então, para minha surpresa, os mortos começaram a voltar ao solo. Pouco a pouco, foram desaparecendo para debaixo de terra, até nenhum se encontrar à superfície. Estava novamente sozinho, na escuridão das montanhas, com a minha lanterna. 

Aproximei-me do sítio onde os fantasmas tinham desaparecido e procurei, sem grande esperança, por alguma maneira de os seguir. Após quase meia hora, encontrei um buraco no chão, grande o suficiente para eu conseguir passar. Apontei a lanterna lá para dentro. Não era particularmente fundo, tinha apenas uns cinco metros, e pareceu-me ver uma caverna que partia dele em direção a oeste. 

Não tinha comigo equipamento de escalada, mas a parede do buraco tinha apoios suficientes para eu conseguir descer sem grandes dificuldades. Em poucos minutos, cheguei ao fundo e confirmei que, realmente, havia uma caverna. Apontei a lanterna para o seu interior e vi que se alongava por uma centena de metros, até chegar a uma curva e mudar de direção. 

Cuidadosamente, pois não sabia como os mortos iam reagir caso me encontrassem ali, adentrei-me na caverna. Cheguei à curva sem qualquer percalço, porém assim que a dobrei, dei de caras com dois fantasmas. Apesar do meu cuidado, eles avistaram-me imediatamente. Afinal, sem a luz da lanterna, não conseguia ver nada ali, mas esta denunciava-me claramente. 

Olhei para trás, pensando em fugir, mas nunca conseguiria subir até à superfície antes de eles me alcançarem.

Os fantasmas aproximaram-se lentamente e com cuidado, como se não me quisessem assustar. Embora estivesse desconfiado, esperei por eles. Não pareciam agressivos.

Um deles segurava uma vela, que estendeu na minha direção quando chegou junto a mim. A medo, peguei nela. No instante em que a agarrei, transformou-se numa tíbia humana. Surpreso, larguei-a e recuei alguns passos. 

Os dois fantasmas começaram a rir às gargalhadas. 

– A cara dele – disse um dos espíritos.

Durante alguns instantes, fiquei a olhar para eles, atónito. 

– Desculpa lá, amigo, mas não resisti – disse-me o fantasma que me dera a vela. 

– Quem são vocês? – perguntei.

– Os espíritos dos mortos, claro. Nem todos temos a sorte de descansar em paz. 

Pareciam amistosos, pelo que decidi continuar a fazer perguntas:

– Porque vêm para aqui? Porque não ficam junto dos vossos cemitérios? 

– Porque, no fundo deste túnel, fica a nossa cidade. Nós só ficámos para trás porque te vimos a seguir-nos e decidimos divertir-nos um bocado – disse o fantasma da vela, sorrindo.

– Cidade?! – disse eu, admirado. – Os mortos têm uma cidade? 

– Claro – respondeu o outro fantasma. – Vamos andar por aqui para sempre. Precisamos de um sítio onde afastar a pasmaceira. Anda, nós mostramos-te, como compensação pelo susto.

Segui-os através do túnel durante uns quinhentos metros, passando por diversas curvas. Por fim, chegámos a uma caverna gigantesca, maior do que qualquer outra que eu tinha visto antes. 

Encontrávamo-nos numa saliência em uma das paredes, mas a caverna prolongava-se várias centenas de metros para baixo, o seu fundo sendo apenas visível graças à pálida luminosidade emitida pelos fantasmas.

Havia muitas mais saliências nas paredes para além daquela onde me encontrava. Nas maiores, erguiam-se edifícios de todos os períodos históricos de Portugal. Assombrado, avistei casas circulares castrenses, vilas romanas, casebres medievais, casas de campo, prédios pombalinos e, até, um grande condomínio de múltiplos andares, entre outros. Nada ligava as saliências umas às outras, pois os fantasmas flutuavam entre elas. 

Ao contrário do que acontecera no Bar das Fadas, a minha presença na Cidade dos Mortos não passou desapercebida. Todos os fantasmas que passavam olhavam para mim com um misto de curiosidade e surpresa. 

– Já há muito que não vinha aqui um vivo – disse a criatura que me dera a vela. 

– Nunca ouvi falar que já tivesse acontecido antes – comentou o outro. 

De súbito, do fundo da caverna, surgiu um outro espírito, com ar zangado. 

– O que é que vocês, seus idiotas, fizeram? Trazem um vivo para aqui, ainda por cima agora, com estes desaparecimentos todos? 

– Desculpe Sr. Presidente – disseram os dois fantasmas em uníssono, olhando para o chão, como duas crianças admoestadas. 

– Desaparecimentos? – perguntei eu, curioso. 

– Sim, nos últimos meses têm desaparecido alguns fantasmas – disse o espírito que me dera a vela. 

– Nunca aconteceu antes – comentou o outro. – Os mortos sempre aumentaram, nunca diminuíram. 

– Vocês são capazes de estar calados! – gritou o presidente.

Virou-se, então, para mim. 

– E quanto a ti, sai daqui enquanto podes. E nem penses em voltar. Vamos mudar a entrada de sítio. 

O tom do presidente não deixava espaço a discussão, e fiz o que ele disse.

No caminho de regresso ao carro e, depois, enquanto conduzia para casa, uma pergunta não me saía da cabeça: como podiam os mortos estar a desaparecer? Depois da minha visita ao Bar das Fadas e de uma leitura mais atenta do diário que encontrei, a existência de fantasmas, ou, até, da sua incrível cidade, não me surpreenderam particularmente, mas essa questão fazia com que arrepios me subissem pela espinha. Na altura, não percebia bem porquê, contudo, acabaria por descobrir. 

Capítulo 2 – O Bar das Fadas

No dia a seguir a ter encontrado o diário, as histórias que este continha não me saíam da cabeça.

Depois de sair do trabalho, a minha curiosidade levou-me a melhor, como habitual, e decidi visitar um lugar chamado no livro de Bar das Fadas, que não ficava muito longe do meu escritório. Segundo o que eu lera, este situava-se junto ao Arco da Porta Nova, em Braga, debaixo de uma loja que já albergara vários negócios e que era agora uma pastelaria. 

À primeira vista, era semelhante a todos os outros negócios do seu tipo, com uma pequena esplanada na rua, uma vitrine cheia de bolos e outras doçarias e um balcão com uma máquina de café e outra parafernália que se encontrava em qualquer snack bar.

Entrei, sentei-me numa das mesas, entre outros três clientes, e pedi um chá e um bolo. Queria ganhar tempo para estudar o local mais atentamente e ver se havia um fundo de verdade no que lera no diário. De facto, a porta que supostamente dava acesso ao Bar das Fadas estava no sítio esperado, mas podia ter sido apenas uma coincidência ou inspiração.

Durante o tempo que estive ali sentado, não aconteceu nada de extraordinário. Pareceu-me, em tudo, uma pastelaria normal. Por fim, impaciente, paguei e dirigi-me à casa de banho, que ficava pouco depois da porta misteriosa. Porém, ao passar junto desta, ignorei a placa vermelha que dizia “Acesso Restrito” e abri-a. Do outro lado, encontrei uma escadaria que descia até se perder na escuridão.

Não entrei de imediato. Estava à espera que alguém me chamasse à atenção, que me dissesse que não podia estar ali. Contudo, ninguém o fez, e comecei a descer. 

Uns dez degraus depois, a porta fechou-se atrás de mim, deixando-me às escuras. Não tinha planeado aquela visita, pelo que não tinha comigo a minha fiel lanterna. Tive de recorrer à do telemóvel.

Desci durante o que me pareceram longos minutos. Finalmente, cheguei ao fundo, onde encontrei uma segunda porta. Esta em pouco diferia da primeira. Até tinha uma placa vermelha a dizer “Acesso Restrito”. Mais uma vez, ignorei-a e abri a porta. Esse instante foi o mais importante de toda a minha vida. Na altura não o sabia, mas o meu mundo, o meu universo, nunca mais seria o mesmo, pois foi então que percebi que tudo o que estava no caderno que havia encontrado era verdade. 

Do outro lado da porta, havia um bar, como tinha lido. A decoração era moderna, com cadeiras e mesas de metal e vidro e paredes brancas, lisas e limpas. Contudo, era aí que terminavam as semelhanças com os bares da superfície.

A sua clientela era formada por estranhos seres, alguns dos quais nem nos meus sonhos mais estranhos havia imaginado.

Muitos eram humanoides, embora os mais baixos nem me chegassem aos joelhos e os mais altos tivessem o dobro da minha altura, com tons de pele que variavam do branco mais alvo ao negro mais escuro, passando pelo cinzento e o roxo. Garras, chifres e espigões também eram comuns. 

Depois havia aqueles que eram quase impossíveis de descrever. Massas de tentáculos com um pequeno corpo esférico entre eles; misturas de diversos animais; corpos longos com múltiplas pernas. 

Em grupos, os clientes conversavam e consumiam o conteúdo de copos em forma de lágrima, que consistia, exclusivamente, num líquido límpido como a água.

O nome Bar das Fadas devia ter sido um nome criado pelo autor do diário, pois a maioria daquelas criaturas não se adaptava à imagem popular das fadas (embora houvesse ali alguns seres humanoides diminutos com asas de inseto). 

Pelo que havia lido, o meu predecessor não ficara muito tempo no bar nem tentara conversar com os clientes. A minha curiosidade, porém, era mais forte do que a dele. 

A medo, atravessei o bar até ao balcão. Como o resto da mobília, este era feito de metal e vidro, porém, atrás dele, não haviam prateleiras com filas de garrafas, como estava habituado a ver. De facto, a bebida parecia ter uma só origem: do teto, jorrava um fio de água que caía numa conduta de pedra, sobre o balcão, e a levava até junto do empregado.

Sentei-me num banco alto e olhei de novo em volta. Ninguém parecia ter reparado em mim, ou, pelo menos, não me deram importância.

O empregado pousou um copo à minha frente, cheio da estranha água. Não disse nada, nem sequer perguntou o que eu queria. Não que houvesse grande escolha.

Embora fosse uma criatura intimidante, com pequenos chifres que lhe coroavam a cabeça e incisivos que não lhe cabiam totalmente na boca, tentei meter conversa:

– Isto costuma estar sempre assim tão cheio?

Não me respondeu. Simplesmente virou costas e foi servir outro cliente.

– O Miguel não é muito falador – disse uma voz feminina ao meu lado. 

Virei-me e vi uma mulher muito pálida, com cabelos brancos e várias argolas prateadas nas orelhas e na cara. Tinha um pescoço longo, com o dobro ou o triplo do tamanho do de um humano, decorado com um torque de ouro. Os seu olhos eram grandes e felinos, mas possuía um nariz pequeno e discreto. 

– Miguel? – perguntei. – É assim que ele se chama? 

– Que esperavas? – respondeu ela. – Gorash ou um desses nomes ridículos que vocês dão aos das nossas raças nas vossas histórias? 

Confesso que não sabia o que responder. Senti-me, até, um pouco envergonhado. Felizmente, ela mudou de assunto.

– Não se veem muitos da tua raça por aqui. 

-Não sabia. É a primeira vez que aqui venho. 

Ela pousou uma mão no meu antebraço. 

– Sabes, sempre senti curiosidade pela tua raça.

– E eu tenho curiosidade nas vossas. 

– Posso responder a qualquer pergunta que tenhas – ronronou-me ao ouvido.

As intenções dela eram claras, contudo, não conseguia deixar escapar aquela oportunidade para começar perceber aquele mundo que eu acabara de descobrir.

– Chamo-me Alice, já agora. 

Disse-lhe o meu nome. 

– Acho curioso que ninguém tenha estranhado a minha presença, se não aparecem muitos da minha raça por aqui.

Ela sorriu.

– Não aparecem muitos, mas aparecem alguns. Pelo menos, nós vemos mais de vocês, do que vocês de nós.

– Por quê? Qual é a razão para vocês se esconderem de nós? Porque não vivem abertamente connosco? 

– Para ser honesta, não faço ideia. Acho que é uma coisa cultural. Sempre nos mantivemos afastados dos humanos. E aquela vossa Organização também não ajuda. 

– Organização? 

– Sim. Sempre que um de nós aparece no vosso mundo, por acidente ou não, ou sempre que um humano que nos conhece tenta revelar a nossa existência, a Organização aparece para ocultar e encobrir tudo. Juro que, às vezes, parece que eles têm mais medo que os humanos descubram a nossa existência do que nós.

Foi uma revelação curiosa. Havia uma organização dedicada a evitar que o público em geral tomasse conhecimento daquele mundo que eu acabara de descobrir. Contudo, a sua existência revelava que havia mais intersecções entre os dois mundos e mais humanos a saberem destas criaturas do que eu, a princípio, imaginara.

– Não bebes? – perguntou-me ela, apontando para o copo cheio da estranha água à minha frente. 

Com a conversa, tinha-me esquecido completamente da minha bebida. A medo, bebi um gole. Não me pareceu particularmente boa. Sabia a água, mais leve do que estava habituado a beber, mas, ainda assim, água. Temendo que me estivesse a escapar algo, bebi o resto do copo, mas o sabor continuava o mesmo, e não senti nenhum efeito adicional. 

Alice notou o meu desapontamento. 

– Acho que tens de ser um de nós para sentir o efeito da água. Vem de uma fonte muito antiga, com propriedades especiais. Um gole basta-nos para nos sentirmos mais calmos e desinibidos. É por isso que me podes encontrar aqui todos os dias. Se quiseres. 

Mais uma vez, tocou-me no braço. 

– E se fôssemos para um sítio mais privado esclarecer as minhas curiosidades sobre a tua raça? Não moro muito longe. 

Confesso que me senti tentado, mas não pelas razões mais óbvias. Queria saber mais sobre aqueles seres e a sociedade em que viviam. Além disso, durante a conversa, tinha reparado em várias outras portas além daquela por onde entrara, e cada uma parecia dar acesso a um túnel. Devia ser neles que aquelas criaturas viviam, e o explorador urbano em mim queria desesperadamente explorá-los.

Contudo, tinha de pensar que era um homem casado e com uma filha. Era melhor não me pôr no caminho da tentação. Além disso, já tinha descoberto tanto naquele dia que não sabia se aguentava mais emoções. Deixar os meus sentimentos quanto à descoberta daquele mundo assentarem e depois voltar pareceu-me melhor ideia. Afinal, o simples facto de eu estar ali rodeado por seres que não deviam existir era suficiente para me fazer questionar tudo o que acreditava e sabia sobre o Mundo e a vida.

Para surpresa de Alice, desculpei-me que se estava a fazer tarde e que tinha a minha mulher à espera. A princípio, insistiu para que fosse com ela, mas acabou por me deixar ir. Voltei para a pastelaria à superfície e para as ruas de Braga. 

Não fui imediatamente para casa. Estava demasiado entusiasmado com o que acabara de descobrir. Durante mais de uma hora, deambulei pela cidade pensando naquele novo mundo, em todas as questões que a sua existência levantava e em futuras explorações a outros sítios mencionados no caderno. Hoje, lamento não me ter conseguido controlar, não ter simplesmente esquecido o que havia visto e continuado com a minha vida normal.

Capítulo 1 – O Livro

A história de como conheci as Bruxas da Noite é longa e atribulada. Contá-la de forma a que todos entendam implica explicar o mundo paralelo ao nosso, que a maior parte das pessoas não sabe que existe. Como tal, vou começar pelo que, para mim, foi o início: o evento que me deu a conhecer esse mundo.

Desde novo que tenho interesse pela exploração urbana. Aos treze anos, juntei-me ao grupo de Braga e, durante os anos que se seguiram, explorei as ruínas de solares, fábricas, mosteiros e muitos outros edifícios interessantes. Porém, só quando já estava na casa dos trinta é que me atrevi a fazer uma exploração sozinho.

Foi a uma casa na freguesia de Palmeira, nos arredores de Braga, que eu havia descoberto durante uma das muitas visitas ao Palácio da Dona Chica que o grupo organizara. Apesar de eu ter chamado atenção para ela, mais ninguém mostrou interesse em explorá-la. Era uma casa pequena, só com rés-do-chão, e com nada que a distinguisse daquelas que a rodeavam. Mas algo nela me chamava. Talvez por me fazer lembrar da casa da minha bisavó, ou porque era antiga que chegue para conter testemunhos da vida de outrora, que não se encontram em nenhuma casa moderna.

Fosse porque fosse, numa tarde de domingo morrinhosa, quando a minha mulher foi visitar os pais com a nossa filha, conduzi até à velha casa. Tendo cuidado para os vizinhos não me verem, entrei por uma janela cujos vidros e persiana haviam sido partidos por vândalos.

Do outro lado, encontrei o que seria de esperar: uma sala cheia de vidros partidos, seringas e mobília destruída. Tudo o que teria algum valor, já havia há muito sido saqueado. Ainda assim, não me detive. Cuidadosamente, temendo encontrar alguma pessoa menos recomendável, continuei a explorar a casa.

Entrei no corredor, que dava acesso a mais duas divisões. Passando por cima dos restos partidos de portas, entrei no quarto, onde o cenário não era muito melhor do que na sala. Na janela, agitados pelo vento, dançavam os farrapos que restavam de umas cortinas em croché. Roupa cobria quase todo o chão, de vestidos negros a chapéus de feltro, claramente arrancada do armário apodrecido e descartada por não ter qualquer valor. Curiosamente, e apesar do interesse que os antiquários costumam ter em tais peças, uma cama de ferro, cuja pintura branca já tinha sido quase inteiramente substituída por ferrugem, ainda se encontrava na divisão, mas virada e atirada para um canto. O colchão havia sido retirado e posto no chão, encostado à parede. Estava coberto de manchas vermelhas, amarelas e brancas, e senti um arrepio ao pensar em tudo o que podia ter ali acontecido.

Passei, então, para a divisão que restava, a cozinha. O chão estava pejado de loiça partida, e os armários, escancarados e vazios. Tudo o resto havia sido levado.

Desanimado, preparei-me para voltar para casa. Infelizmente, não havia ali nada de interesse. Os outros do grupo de exploradores urbanos tinham razão.

Ia deixar a cozinha, quando um brilho metálico chamou a minha atenção para a diminuta dispensa. Lá, por entre prateleiras partidas e restos nauseabundos de comida apodrecida, encontrei uma porta. O brilho pertencia a uma primitiva fechadura de trinco, que abri imediatamente. Do outro lado, encontrei uma escadaria de pedra que descia para a escuridão. Como era meu hábito quando explorava uma estrutura, tinha levado uma lanterna comigo. A sua luz revelou uma cave no fundo das escadas, aparentemente intocada pelos vândalos. Talvez a falta de luz natural os tivesse mantido afastados.

Degrau a degrau, pois não sabia o que me esperava nem tinha certezas quanto à robustez das escadas, desci. No fundo, encontrei uma verdadeira cápsula do tempo do Portugal do meio do século passado.

Num canto, vi uma antiga máquina de costura manual, ainda com o pedal e a correia que transmitia o movimento até à agulha. Numa mesa mesmo ao lado, ainda repousava um ferro de engomar a carvão. Quase que ainda conseguia ver o fumo a sair da sua pequena chaminé.

No outro lado da cave, junto a um sofá de tecido apodrecido e esburacado, encontrei um armário contendo um rádio de válvulas, o plástico amarelado testamento da sua antiguidade.

Em cima de todas as superfícies, havia testemunhos de tempos passados: candeeiros de petróleo, lajes de lousa, frascos de tinta, canetas de embeber, etc. Contudo, o meu olhar recaiu principalmente num baú de madeira bichada pousado no chão ao lado das escadas. Curioso, abri-o. Não estava trancado. Lá dentro, encontrei álbuns com fotografias, algumas certamente com mais de cem anos. Era triste ver aquelas fotos de grupos animados, de casais a dançar, de jantaradas e pensar que a maioria daquelas pessoas, se não todas, já haviam partido.

No meio dos álbuns, contudo, encontrei um pequeno caderno. Abri-o e verifiquei que se tratava de um diário. Normalmente, nunca tiro nada dos lugares que exploro, nem acho que algum explorador urbano o devia fazer, mas ter nas mãos o relato de uma vida nos tempos de outrora era demasiado tentador, e a minha curiosidade levou-me a melhor, como sempre.

Saí da casa com o livro no bolso. A minha vontade era lê-lo logo ali no carro, mas a hora de jantar aproximava-se.

Quando cheguei a casa, pousei o livro e fui preparar a refeição com o resto da família. Apesar de estar algo curioso sobre o seu conteúdo, jantei com calma e ainda ajudei a minha filha com os trabalhos de casa.

Então, sentei-me à secretária e comecei a ler. As histórias no diário eram, de facto, interessantes, fantásticas, até, mas de uma forma que nunca esperara. Mencionavam lugares escondidos em cidades, montanhas e até no fundo do mar, e encontros com fadas, vampiros, bruxas, trasgos e inúmeros outros seres mitológicos e imaginários.

Seria aquilo uma obra de ficção, ou os devaneios de um louco? Na altura, não conseguia considerar outra hipótese. Contudo, também não conseguia parar de ler, até porque muitas das histórias se passavam em, ou perto, de sítios que conhecia.

Quando finalmente fui para a cama, já eram quase duas da manhã, e só me deitei porque tinha de trabalhar no dia seguinte. Ainda assim, só com muito esforço consegui afastar o livro da minha mente por tempo suficiente para adormecer.