Capítulo 21 – A Guerra dos Mortos

Depois de uma noite em claro a pensar no que ia fazer a seguir quanto aos ataques das Bruxas da Noite, acabei por decidir tentar avisar os espíritos dos mortos no Gerês. De facto, não sabia onde encontrar mais ninguém que estivesse na mira delas.

Eu sabia que os mortos só se juntavam na sua cidade depois da meia-noite, ainda assim, queria chegar lá cedo. Não queria que o meu aviso fosse novamente tardio. Como tal, embora tivesse muito trabalho, tirei a tarde de férias sem dizer à minha mulher e dirigi-me ao Gerês.

Deixei o carro num espaço de terra junto à estrada, acima da mesma aldeia em ruínas que na minha visita anterior. Desci até aldeia e, de lá, encaminhei-me para a única entrada que conhecia da cidade dos mortos. Apesar da promessa do fantasma a que os dois guardas que me deixaram entrar da última vez chamaram de presidente, ainda estava no mesmo sítio.

Antes de entrar, porém, telefonei à minha mulher para lhe dizer que ia trabalhar até tarde. Não queria ter outra discussão com ela.

Finalmente, desci pelo buraco no chão até ao túnel que levava à cidade propriamente dita. Ainda faltava muito para a meia noite, pelo que, como esperava, não havia nenhum guarda.

Com a ajuda da pequena lanterna que andava sempre comigo, naveguei pelas passagens até chegar ao largo e ao profundo poço onde a cidade se erguia. Que ainda não se encontrasse lá nenhum espírito, não me surpreendeu, mas confesso que foi com algum espanto que me apercebi que os etéreos edifícios que tinha visto na minha última visita também não se estavam lá.

Sentei-me num rochedo, encostado à parede, e esperei.

O meu relógio devia estar atrasado, pois, uns três minutos antes da meia noite, os edifícios começaram a surgir nas saliências ao longo da parede do túnel. De casas circulares castrejas a torres de apartamentos com vários andares, estavam ali casas de todos os tipos e épocas.

Então, levantei-me. Tomei aquilo como um sinal de que os espíritos dos mortos estavam a deixar as suas tumbas e a formar as procissões que todas as noites se dirigiam para ali.

Os primeiros fantasmas chegaram uns dez minutos depois. Como da outra vez, a minha presença não passou desapercebida. Todos que passavam olhavam fixamente para mim. Contudo, nenhum me dirigiu a palavra, apenas continuaram em frente, flutuando para as suas moradas etéreas.

Então, surgiu um que eu conhecia, aquele chamado de presidente. Assim que me viu, aproximou-se e disse:

– Eu não te disse para não voltares cá?

Expliquei-lhe, então, porque ali estava e contei-lhe sobre os anteriores ataques das Bruxas da Noite. Ele não pareceu muito surpreendido.

– O ataque delas já está aqui – respondeu. – Alguns dos nossos viram o seu exército ao vir para aqui. Só viemos buscar armas.

Olhei de novo para o poço e vi que vários fantasmas já regressavam das casas empunhando armas brancas etéreas. Como os edifícios, estas vinham de todas as eras históricas da humanidade. Vi espadas, martelos de guerra e maças; clavas de madeira e machados com cabeça de pedra; facas de mato e até soqueiras.

O presidente deixou-me e foi ele próprio buscar as suas armas, enquanto eu segui a coluna dos fantasmas já armados para o exterior. Tive alguma dificuldade a subir pela entrada, mas acabei por conseguir chegar ao vale acima.

A noite já havia caído, no entanto, o céu estava limpo, e a Lua e as estrelas irradiavam luz suficiente para eu poder ver o que me rodeava. Os fantasmas alinhavam não muito longe da entrada, formando blocos semelhantes aos usados pelos exércitos da Antiguidade e da Idade Média.

A princípio, não vi os seus oponentes, mas uma linha escura prontamente surgiu junto ao horizonte. Aos poucos, aproximou-se, até que consegui ver uns pontos escuros a voar sobre ela, provavelmente as Bruxas da Noite.

Ainda demorou uma meia hora até eu conseguir ver claramente os soldados que a constituíam. Para minha surpresa, eram todos da mesma raça de criaturas, uma que eu nunca tinha visto antes. Apoiavam-se em quatro patas, mas havia inteligência nos seus olhos. Pelo cobria-lhes o corpo, e uma longa e esguia cauda agitava-se atrás e acima deles. Porém, o seu focinho era a característica que mais se destacava. Comprido e afunilado, assemelhava-se ao de um papa-formigas, mas era mais longo e terminava numa boca muito maior.

O exército continuou a avançar, mas as Bruxas da Noite ficaram para trás. Perguntava-me o que aquelas criaturas poderiam fazer aos incorpóreos fantasmas a meu lado, especialmente sem a ajuda dos feitiços das suas mestras.

Eventualmente, os dois exércitos encontraram-se frente a frente. Os espíritos alinhavam-se em blocos bem formados. Os seus inimigos, por seu lado, assemelhavam-se menos a um exército e mais a uma matilha pronta a abater-se sobre as suas presas assim que as suas mestras dessem a ordem.

– Sai daqui – disse-me o presidente, aproximando-se. – Procura um abrigo.

– Eu quero ajudar – protestei.

– Olha em volta. Achas que mais um homem vai fazer alguma diferença? Esconde-te. Se formos derrotados, pelo menos alguém fica com a memória do que aconteceu.

Não discuti com ele. Realmente, entre aquelas centenas de fantasmas, a minha ajuda dificilmente se iria fazer sentir. Se me mantivesse afastado e sobrevivesse, pelo menos podia continuar a combater as Bruxas da Noite (se bem que na altura não sabia bem como).

Afastei-me algumas centenas de metros dos dois exércitos e escondi-me atrás de um dos muitos penedos da região.

Pouco depois, sem aviso, as criaturas carregaram contra os fantasmas. Estes, sem saber exatamente do que os seus inimigos eram capazes, decidiram esperar. Apenas alguns batedores voluntários, avançaram contra as criaturas.

Segundos depois, as duas forças encontraram-se. Foi então que os novos soldados das Bruxas da Noite revelaram a sua terrível habilidade. Cerca de um metro antes de os fantasmas os terem ao alcance das armas, eles abriram as bocas. De imediato, com uma força irresistível, os espíritos foram sugados para o estômago dos seus oponentes.

Estavam, assim, explicados os desaparecimentos de que os mortos me haviam falado durante a minha primeira visita.

A reação que aquela visão provocou no exército dos mortos tornou-se imediatamente visível. Os fantasmas, seres que pensavam nunca mais vir a precisar temer nada, entraram em pânico. Alguns tentaram fugir, enquanto outros baixaram os braços e simplesmente esperaram. Até mesmo o presidente parecia não saber o que fazer.

Passados meros segundos, os blocos organizados do exército dos mortos já não existiam. Quando as criaturas das Bruxas da Noite chegaram à principal concentração de fantasmas, já não pareciam estar a travar uma batalha, mas a caçar presas impotentes.

Vi espíritos serem sugados às dezenas. Os estômagos dos seus algozes eram, aparentemente, impossíveis de encher.

Os mortos tentavam fugir desesperadamente, alguns de volta às campas, outros de regresso à cidade subterrânea, mas nenhum chegou ao seu objetivo. As criaturas das Bruxas da Noite eram demasiado rápidas.

Aos poucos, os fantasmas foram desaparecendo do campo de batalha. Os poucos que restavam tentaram, em desespero, enfrentar o inimigo, mas foram sugados muito antes de conseguirem usar as suas armas.

Por fim, as Bruxas da Noite aproximaram-se, sobrevoando o seu vitorioso exército. Dos mortos já não havia nem rasto. Era como se nunca tivessem ali estado.

Eu permaneci no meu esconderijo. Não sabia o que as Bruxas da Noite me poderiam fazer se me encontrassem. Felizmente, não permaneceram no campo de batalha durante muito tempo. Com uma rapidez surpreendente, reorganizaram o seu exército e desapareceram pela mesma direção que tinham vindo.

O vale estava, agora, completamente vazio. Não havia corpos nem sangue. Até a erva parecia quase intocada. Fosse aquele o meu primeiro contacto com o mundo escondido paralelo ao nosso, poderia ter pensado que tudo se tinha tratado de um sonho ou de uma alucinação. Contudo, eu sabia bem que não era o caso. E as Bruxas da Noite tinham obtido mais uma vitória. Ainda não estava mais próximo de descobrir o seu objetivo do que quando comecei a investigá-las, mas, a julgar pelos métodos que usavam, só podia ser algo nefasto.

Já não havia nenhuma razão para ali estar, pelo que voltei ao carro e conduzi de regresso a casa. Cheguei quase às quatro da manhã. A minha mulher e a minha filha já estavam, obviamente, a dormir.

Eu deitei-me, mas não consegui adormecer. Aquela vitória tinha eliminado os últimos inimigos das Bruxas da Noite que conhecia, ou, pelo menos, que sabia onde encontrar. Que iria fazer agora na minha tentativa de as deter e fazer responder pelas mortes que já haviam causado?

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Capítulo 20 – A Batalha das Ínsuas

Depois de passar uma noite em claro a pensar quem iria avisar em seguida sobre os ataques das Bruxas da Noite e do seu exército, decidi ir falar com o rei das Ínsuas. Na nossa última (e única) conversa, ele contou-me que os seus súbditos estavam a desaparecer, o que eu agora suspeito ter sido uma tentativa das Bruxas da Noite de os enfraquecer antes do ataque final. Além disso, podia sempre dizer à minha mulher que ia visitar os meus avós, em Viana do Castelo, sem aumentar ainda mais as suas suspeitas.

No dia seguinte à minha descoberta da macabra cena nos túneis debaixo de Braga avisei a minha mulher de que ia jantar a casa de meus avós e, depois do trabalho, dirigi-me a Viana.

Na realidade, não menti, pois, de facto, visitei os meus avós, e a minha avó obrigou-me a ficar para jantar. Logo depois, porém, deixei a sua casa e contactei um velho amigo para que, mais uma vez, me emprestasse o seu barco.

Encontrámo-nos junto ao rio, no sítio do costume, e, após uma curta conversa sobre o que havia de novo nas nossas vidas (e eu inventar uma resposta para a pergunta “Porque precisas tantas vezes do barco à noite?”), entrei no barco e comecei a remar em direção ao Camalhão, a maior das ínsuas do rio Lima e o local onde se situava o trono do Rei das Ínsuas.

Estava a meio caminho quando, na parcamente iluminada e desabitada margem norte do rio, vi um enorme vulto. Parei. Olhei com mais atenção e apercebi-me de que se tratava de uma criatura humanoide, provavelmente um dos gigantes ao serviço das Bruxas da Noite. Graças ao seu prodigioso tamanho, atravessou o rio a vau, a água dando-lhe pouco acima do joelho, e chegou ao Camalhão em meros segundos.

Recomecei a remar. Tinha de tentar avisar os habitantes das ínsuas. Então, vi ainda mais vultos na margem, estes de variados tamanhos. Os maiores entraram na água, puxando cordas amarradas, no outro extremo, ao que pareciam ser jangadas, onde seguiam os mais pequenas.

Ao mesmo tempo, comecei a ouvir ruídos no Camalhão. Os habitantes estavam atentos e tinham detetado o inimigo assim que este surgira. O primeiro gigante parecia estar a ser alvo de uma verdadeira chuva de diminutos projéteis, ao mesmo tempo que os juncos em volta dos seus pés se moviam, provavelmente agitados por pequenas criaturas das ínsuas a atacar corpo-a-corpo. Contudo, o atacante não caía, e os seus companheiros prontamente chegaram ao Camalhão.

A batalha tinha começado. Já não havia ninguém a quem avisar. Ainda pensei em juntar-me aos habitantes das ínsuas e lutar, mas que podia eu fazer? Não tinha armas e, mesmo que tivesse, não saberia lutar contra aqueles inimigos. Acabei por simplesmente lançar âncora e ficar a ver.

Apesar de não conseguir ver as diminutas criaturas das ínsuas, via os seus projéteis, os movimentos dos juncos e a reação do inimigo. Pareciam estar a lutar bem. Vi vários dos monstros mais pequenos ao serviço das Bruxas da Noite cair, e o primeiro gigante a chegar ao Camalhão obrigado a ajoelhar-se, embora continuasse a lutar.

Contudo, apesar de todo este esforço, os invasores continuavam a avançar. Não conseguia ver as baixas que provocavam, mas tinha de assumir que eram significativas.

Embora lenta, a sua vitória parecia certa, até que os juncos à sua volta se começaram a mexer. Em questão de segundos, cresceram e enrolaram-se, formando cordas e redes que prenderam os invasores.

Logo em seguida, uma forma com uns quatro metros de altura surgiu mais acima no Camalhão, provavelmente saída de uma das muitas regueiras que atravessavam a ínsua. Armado com uma enorme clava, atacou o gigante ajoelhado, esmagando-lhe a cabeça. Só podia tratar-se do Rei das Ínsuas.

Com o inimigo paralisado e o seu monarca a seu lado, os habitantes das ínsuas redobraram os seus esforços, e muitos dos invasores caíram. Mais continuavam a chegar da margem, mas, mal punham os pés no Camalhão, eram imediatamente presos pelos juncos. A vitória dos habitantes das ínsuas começava a parecer não só uma possibilidade como quase uma certeza.

Então, algo passou a voar sobre mim. Olhei para o céu e vi cinco figuras encapuçadas abaterem-se sobre o Camalhão. O vento trazia as suas vozes até mim, entoando os cânticos que invocavam os seus feitiços. O primeiro fez com que os juncos na área do combate e à sua volta apodrecessem e se desfizessem, libertando os soldados das Bruxas da Noite, enquanto os seguintes fizeram cair uma verdadeira torrente de bolas de chamas sobre o Rei das Ínsuas.

Este usou os seus próprios feitiços para se defender, erguendo barreiras invisíveis para bloquear os ataques inimigos. No entanto, atacado de várias direções, não conseguiu aguentar durante muito tempo. Ao fim de poucos minutos, vi-o cair. Depois disso, as criaturas atacantes rapidamente se espalharam por todo o Camalhão.

Pequenos barcos, carregando grupos das diminutas criaturas que ali habitavam, começaram a deixar a ínsua, tentando fugir para uma das outras. Porém, não eram muitos, e dificilmente poderiam montar uma resistência caso as Bruxas da Noite decidissem conquistar o resto do seu reino. Para todos os efeitos, a batalha estava terminada.

Remei de volta à margem. Em alguns pontos desta, assim como na ponte que atravessava o rio e passava sobre o Camalhão, vi algumas pessoas a tentar perceber o que estava a acontecer na ilha. Duvido que tivessem percebido exatamente o que estavam a ver e, mesmo que percebessem, não eram suficientes para revelar aquele mundo escondido do nosso. Ainda assim, certamente que Almeida e o resto da Organização não iam ficar felizes.

Na viagem de regresso a casa, não conseguia deixar de pensar que as Bruxas da Noite tinham obtido outra vitória. Qualquer que fosse o seu objetivo, estavam mais perto de alcançá-lo.

E eu, mais uma vez, tinha chegado tarde para avisar as suas vítimas.

Capítulo 19 – O Primeiro Ataque

Como devem imaginar, após o meu encontro com as Bruxas da Noite nos jardins do Mosteiro de Tibães e de ver o exército que estavam a reunir, fiquei ansioso por discuti-lo com alguém. Como não queria que a minha família e amigos fossem expostos à existência daquele mundo paralelo ao nosso e aos perigos que daí pudessem advir, a primeira pessoa que me veio à cabeça foi Alice. Afinal, os da sua raça pareciam ser uns dos alvos das Bruxas da Noite.

Apesar de ser uma época de muito trabalho, no dia seguinte saí mal chegou o final do expediente e dirigi-me ao Bar das Fadas. O que tinha descoberto parecia-me demasiado importante para esperar.

Para minha surpresa, quando cheguei à pastelaria que servia de ligação entre o mundo à superfície e o bar subterrâneo, descobri que estava fechada. Espreitei para o interior e não havia sinais de que tivesse aberto nesse dia, até porque o correio estava amontoado atrás da porta. Ainda tentei bater à porta, mas ninguém respondeu.

A principal entrada para o mundo que existia debaixo de Braga estava fechada. Depois do que vira na noite anterior, comecei a ficar preocupado. Tentei acalmar-me dizendo a mim mesmo que a pastelaria podia estar fechada por diversas razões mais mundanas.

Felizmente, eu conhecia uma outra entrada. Não precisava de ficar a imaginar o que teria acontecido.

Fui para o carro, estacionado junto do meu escritório, e dirigi-me para o monte do Bom Jesus. Ao aproximar-me do meu destino, comecei a sentir alguma trepidação. A outra entrada ficava junto da Vila Marta, a casa dos Cerqueira. Não sabia até que ponto Henrique Cerqueira sabia do meu envolvimento na fuga dos trasgos que usava como escravos no vinhedo da família, mas não queria ser visto.

Felizmente, cheguei à moita que ocultava a segunda entrada sem encontrar ninguém.

Embrenhando-me na vegetação, cheguei à exígua caverna que dava acesso ao mundo oculto debaixo de Braga. Após alguns metros, onde a passagem começava a alargar, esperava encontrar um guarda, como na minha última visita, porém, não estava lá ninguém.

Confesso que achei aquilo estranho, até alarmante, mas continuei em frente , se bem que com mais cuidado. Teriam as Bruxas da Noite e as suas forças chegado ali?

Encaminhei-me para a estação mais próxima do “metro” que ligava as diferentes partes daquela cidade subterrânea. Quando lá cheguei, mais uma vez, não vi ninguém. Esperei.

Durante mais de meia hora, ali fiquei, na plataforma, mas não vi nem sinal de outros passageiros ou da criatura que fazia o papel de transporte. Comecei a pensar em ir a pé até ao Bar das Fadas, porém, não conhecia o caminho através dos túneis pedonais, pelo que continuei a esperar.

Passados mais vinte minutos em que não vi sinais de movimento, decidi arriscar e tomar o único caminho que conhecia: o túnel do comboio vivo.

Com a ajuda da pequena lanterna que andava sempre comigo, pois a enorme passagem não tinha qualquer fonte de luz, encaminhei-me para noroeste. Conforme avançava, mantive-me atento a qualquer ruído, não fosse o “comboio” passar e atropelar-me.

Durante mais de uma hora, ao longo da qual passei por várias outras estações, não vi nem ouvi nada de nota. O meu receio de que as Bruxas da Noite e o seu exército já ali tinham chegado aumentava, mas não havia qualquer sinal disso. Parecia que as criaturas que habitavam aqueles túneis tinham simplesmente desaparecido.

Finalmente, a lanterna iluminou algo que bloqueava o túnel. Aproximei-me com cuidado. Pouco depois, vi a sua cor castanha avermelhada e logo percebi que não se tratava de uma derrocada. Só quando cheguei junto do bloqueio é que descobri do que se tratava: a criatura que servia de “comboio”, morta. As suas centenas de delgadas pernas encontravam-se dobradas junto ao corpo, e a sua enorme e quase humana face ficara congelada numa expressão de terror e dor. À sua volta, jaziam pedaços de madeira e vidro partidos, destroços das cabines que levava às costas em lugar de carruagens.

Tinha agora a certeza de que algo acontecera, certamente o ataque das Bruxas da Noite que eu temia. Tinha chegado demasiado tarde para avisar os habitantes daqueles túneis. Mas talvez pudesse ainda prestar alguma ajuda. De qualquer maneira, não iria voltar para trás.

A criatura ocupava toda largura do túnel e mais de metade da altura, pelo que tive de trepar pelo seu corpo para chegar ao outro lado.

Assim que os meus pés voltaram a tocar o chão, iluminei a nova secção de túnel. O cenário era completamente diferente daquele que tinha visto até então. Corpos de criaturas de vários tamanhos e formas pejavam o chão, a maioria pertencente a raças que eu já tinha visto no Bar das Fadas. Alguns tinham marcas de queimaduras, mostrando que haviam sido mortos por chamas ou feitiços, mas a maioria parecia ter sido abatida por armas contundentes.

Perante aquela visão, considerei deixar os túneis, porém, achei que talvez ainda pudesse ajudar alguém e continuei em frente.

A cena repetiu-se ao longo do túnel, até que cheguei à estação seguinte. Aí, apareceram os primeiros corpos de ogres, duendes, ogrons e outras criaturas que eu sabia estarem ao serviço das Bruxas da Noite, embora em muito menor número do que os dos habitantes. Parecia que estes últimos tinham ficado encurralados no túnel devido ao corpo do “comboio” e sido massacrados.

Aquela era a estação que eu conhecia mais próxima do Bar das Fadas, pelo que deixei a vala onde o “comboio” em tempos circulara, subi para a plataforma e entrei nos túneis pedonais.

Nas passagens, não havia muitos corpos, mas todas as casas, salas e túneis sem saída tinham o chão coberto de habitantes locais mortos.

Finalmente, cheguei ao Bar das Fadas. A porta estava caída no chão, pelo que o que encontrei no interior não foi surpresa. Havia corpos por todo o lado, misturados com mesas, cadeiras e copos partidos. O balcão havia sido destruído e, com ele, a conduta que canalizava a água que os clientes costumavam beber. Como tal, esta agora escorria do teto diretamente para o chão, encharcando-o. O bar só não se encontrava inundado porque a água escoava por um buraco na base de uma das paredes.

Admiravelmente, a porta que dava acesso à pastelaria acima e, através desta, ao mundo da superfície, estava fechada. Apesar de estarem encurralados e perante uma morte certa, os clientes do bar não revelaram a sua existência ao mundo exterior.

Procurei entre os corpos por alguém que conhecesse. Duas das pessoas que me ajudaram a libertar os trasgos da quinta dos Cerqueira estavam entre as vítimas, mas Alice, o meu principal contacto e a pessoa daquele mundo que eu conhecia melhor, não. Tinha esperança de que se tivesse salvo, embora o mais provável fosse estar morta noutro canto qualquer daquele subterrâneo.

Ainda pensei em explorar mais um pouco, procurar sobreviventes ou até as Bruxas da Noite e os seus soldados, mas prontamente desisti dessa ideia. Nada do que vi indicava que houvesse sobreviventes naqueles túneis e, se os houvesse, estariam escondidos onde um simples visitante como eu nunca os encontraria. Por outro lado, as mortes pareciam já ter ocorrido há algum tempo e não vi nem ouvi nenhum sinal de que os assassinos ainda ali estivessem.

Fiz o caminho de volta para o exterior e para o carro. Só esperava que houvessem sobreviventes para sepultar os mortos.

Quando cheguei a casa, tive uma enorme discussão com a minha mulher. Tinha-me esquecido de avisar que ia chegar tarde para jantar e, como nos túneis não tinha rede, ela não me conseguiu contactar. Tive de inventar uma desculpa, pois não a queria expor ao estranho mundo que andava a explorar. Não ficou muito convencida, mas, pelo menos, acalmou-se.

Depois de jantar o meu já frio jantar e de ajudar a minha filha com os trabalhos de casa, fui para a cama. Essa noite pouco dormi. Não conseguia deixar de pensar que outros sítios as Bruxas da Noite iriam atacar e o que poderia fazer sem aumentar as suspeitas da minha mulher.

Capítulo 18 – A Cabra de Tibães

Há quem diga que as coisas só aparecem quando não estamos à procura delas. Embora eu nunca tenha acreditado muito nisso, não quer dizer que, por vezes, não seja verdade.

Tudo começou quando, numa tarde de Inverno, li num jornal local que uma cabra andava a aterrorizar os moradores de Mire de Tibães. O caso era notavelmente semelhante às histórias contadas sobre a cabra de Cabanelas, passada nos anos trinta, referida frequentemente em livros sobre lendas do norte de Portugal.

Contava a notícia que uma cabra negra andava a aparecer, ao anoitecer, sobre o cemitério de Mire de Tibães e que, miando como um gato, fazia voos rasantes sobre todos os visitantes até expulsá-los de lá.

Curioso com o reaparecimento da lenda, decidi fazer outra pausa na minha busca pelas Bruxas da Noite e, um dia, depois do trabalho, dirigi-me ao referido cemitério.

Embora os dias já estivessem a ficar maiores, ainda anoitecia cedo, pelo que, quando lá cheguei, o Sol estava prestes a desaparecer atrás do horizonte.

Mal entrei no cemitério, apercebi-me que não era o único ali à espera de ver a cabra. Excetuando duas pessoas, que tentavam apressar-se a colocar flores novas numa campa, ninguém prestava qualquer atenção aos defuntos. Aliás, quase todos os olhares estavam fixos no céu, assim como telemóveis, máquinas fotográficas e de filmar. Encostei-me a uma das paredes e esperei.

Aos poucos, começou a escurecer. As duas pessoas que tratavam da campa deixaram o local quase a correr. Para trás, fiquei apenas eu e mais cerca de uma vintena de espectadores.

Os minutos passaram, e continuou a ficar mais escuro, até que, sobre as nossas cabeças, ouvimos um estranho miar. No cimo do muro oposto àquele onde estava encostado, empoleirava-se uma cabra. Para minha surpresa, tinha um aspeto bastante comum: pelagem castanha e negra de variados tons, dois pequenos chifres no topo da cabeça e barbicha no queixo.

Então, voltou a miar e, com um salto, deixou a parede. Porém, em vez de aterrar no chão, começou a correr em pleno ar.

Flashes dispararam por todo o lado, com os curiosos a tentarem documentar aquele estranho fenómeno. Foi nesse momento que a cabra realizou o seu primeiro voo rasante. Homens e mulheres atiraram-se ao chão, procurando evitar a criatura, que voava pouco acima das cruzes e lápides a uma velocidade incrível.

Apesar de, a princípio, a assistência ter continuado a observar a cabra, esta efetuou voo rasante atrás de voo rasante, até que todos começaram a arrastar-se para a saída. Eu, porém, escondi-me debaixo de um banco de pedra adossado à parede da capela mortuária e esperei.

Poucos minutos depois, só eu ainda me encontrava no cemitério. Os outros curiosos tinham, entretanto, entrado nos seus carros e fugiam para longe. Então, a cabra retirou-se, desaparecendo por detrás da parede norte. Nesse momento, saí do meu esconderijo e segui-a.

Subir a parede não foi fácil, mas apoiando-me na laje de uma campa próxima (na altura não pensei nisso, entusiasmado como estava em seguir a cabra voadora, mas confesso que agora me parece algo desrespeitoso), lá consegui passar para o outro lado.

O cemitério de Tibães fora construído adjacente ao medieval Mosteiro de Tibães, um dos monumentos mais conhecidos do concelho de Braga, pelo que agora me encontrava nos seus extensos jardins.

Avistei a cabra esvoaçando por cima das colheitas, assim que toquei o chão, pelo que comecei imediatamente a segui-la. O percurso não foi fácil, pois o caminho era de terra batida e entretanto a noite tinha chegado em pleno e eu não me atrevia a acender a lanterna que andava sempre comigo para não revelar a minha presença.

Pouco depois, a cabra levou-me até à floresta que limitava os terrenos do mosteiro a sul. Graças a uma das minhas visitas anteriores, sabia exatamente para onde ia: em direção ao lago artificial criado numa clareira próxima.

Embora eu conhecesse o exíguo trilho que lá ia ter, algo me disse para não o usar, e decidi aproximar-me a coberto da vegetação. Assim que avistei o lago, a minha precaução mostrou-se justificada.

Para minha surpresa, junto à parede decorada da qual emergia a água que enchia o lago, ardia uma enorme fogueira, provavelmente maior do que eu. Em volta desta, encontravam-se cinco figuras encapuçadas, todas elas exatamente iguais à bruxa da noite que havia visto naquela casa abandonada. Tinha finalmente encontrado as Bruxas da Noite! E enquanto investigava algo aparentemente sem qualquer relação com elas.

Era óbvio que a cabra era uma criação sua, provavelmente para afastar as pessoas da zona, mas faltava-me perceber porquê.

Respirei fundo repetidamente. Mais uma vez, preparava-me para confrontar um grupo de bruxas. Porém, estas não eram bruxas comuns nem meras candidatas a serem as Bruxas da Noite. Eram mesmo elas. Já tinham morto pessoas antes, se bem que indiretamente. Por outro lado, a ideia de que me haviam deixado ir incólume após o nosso último encontro trazia-me algum conforto.

Ia sair do meu esconderijo e descer até ao lago, quando ouvi um ruído atrás de mim. Refugiei-me de imediato no meio de uma pequena moita, que me ocultava em todas as direções. Segundos depois, passou por mim uma enorme criatura, com mais de três metros de altura. No geral, parecia humana, embora, na escuridão, não lhe conseguisse ver a cara. As suas pernas pareciam troncos de árvores e o corpo era extremamente largo, mas caminhava com as costas dobradas.

Depois daquele avistamento, comecei a ouvir ruídos a toda a volta. Vultos de todas as formas e tamanhos começaram a surgir entre a vegetação, alguns bem maiores do que aquele ogre inicial. De onde haviam saído, não sei dizer, mas todos se dirigiam para o lago artificial.

Quando a primeira das criaturas chegou à margem, as bruxas começaram a entoar um cântico e a agitar ritmadamente os braços acima da cabeça.

Durante cerca de um minuto, nada aconteceu. Então, a água do lago começou a agitar-se. Pouco depois, subiu acima da margem, porém não começou a escorrer para fora. Era como se estivesse a ser contida por uma barreira invisível.

A cada instante que passava a água erguia-se mais e mais, até que, para meu espanto, formou uma enorme bolha uma dezena de metros acima do lago. Este encontrava-se, agora, vazio, com o seu leito exposto. As criaturas, começaram, então, a descer a superfície enlameada, até desaparecerem debaixo da berma.

Durante a meia hora seguinte, mais e mais criaturas emergiram de entre as árvores e entraram no agora vazio lago. Entretanto, as Bruxas da Noite continuaram o seu cântico, provavelmente para manter a água a pairar no ar.

Finalmente, quando a última das criaturas desapareceu, as bruxas pararam. Com um estrondo, a água caiu, voltando a encher o lago artificial. Nesse momento, a fogueira junto das Bruxas da Noite apagou-se e, quando os meus olhos se habituaram de novo à escuridão, elas tinham desaparecido.

Depois disso, ainda fiquei vários minutos no meu esconderijo, atónito, tentando perceber o que estava a acontecer. As Bruxas da Noite estavam a juntar um exército. Se todas as noites em que a cabra apareceu acontecera o mesmo que nessa noite, já teriam um grande número de soldados. Mas qual seria o seu propósito?

Teriam sido os ataques às casas das fadas com falsos acidentes de automóvel, e que me levaram a investigar as Bruxas da Noite, apenas uma tentativa de enfraquecer o inimigo antes da investida final? Teria tudo isto alguma relação com os misteriosos desaparecimentos de fantasmas na Cidade dos Mortos e dos súbditos do Rei das Ínsuas?

Finalmente, o frio levou-me a deixar o meu esconderijo, e, transpondo novamente a parede do cemitério, voltei para o exterior e para o carro. Não se encontrava mais ninguém por perto. A cabra havia cumprido o seu propósito e afastado toda a gente do mosteiro e área circundante.

Depois do que tinha acabado de ver, regressei a casa preocupado, amedrontado, até. As Bruxas da Noite tinham um exército. Embora, até àquele momento, todas as mortes humanas que tinham provocado parecessem ter sido danos colaterais, isso agora podia mudar. E mesmo que não atacassem humanos, o seu alvo principal seria certamente algumas das criaturas que viviam naquele mundo escondido do nosso, e eu já havia caminhado entre elas e conhecido as bastantes para que isso me afetasse emocionalmente.

Nessa noite não preguei olho, pensando no que ia fazer quanto a tudo aquilo. Se é que podia fazer alguma coisa.

Capítulo 17 – Fogos-fátuos

Como a anterior, esta investigação começou num fórum online que falava do avistamento de estranhas luzes, desta vez na Citânia de Briteiros. Contudo, estava também associada às Bruxas da Noite e ao diário, pois uma das entradas deste reunia várias histórias captadas em segunda mão que contavam que bruxas poderosas habitavam entre as ruínas, escondidas. O meu antecessor, tímido como parecia ser, nunca tentou confirmar essas histórias, mas a existência destas e das luzes pareciam mais do que coincidência, e eu tinha de investigar.

Uma noite, após o trabalho, telefonei à minha mulher para lhe dizer que ia trabalhar até tarde e, depois, encaminhei-me para a citânia. Esta não ficava longe do meu emprego, porém, parte da estrada era muito exígua, com muitas curvas de pouca visibilidade, pelo que requeria uma condução cuidada. Como tal, demorei mais de meia hora a lá chegar.

Estacionei num pequeno espaço de terra batida ao lado da estrada, em frente da entrada da citânia. Embora ainda não fosse noite, já começara a anoitecer, e esta encontrava-se fechada. Decidi aproveitar o pouco de luz que ainda restava para procurar outra forma de entrar.

Percorri quase todo o perímetro das ruínas virado para a estrada. Finalmente, uma centena de metros abaixo de onde deixei o carro, encontrei um espaço entre a rede e o chão grande o suficiente para eu passar. Arrastando-me de costas e empurrando a rede para cima, consegui entrar.

Estava, agora, junto das ruínas de uns banhos situados num dos pontos mais baixos da citânia. Mesmo com a escuridão crescente e intento em descobrir as origens das luzes, não consegui deixar de admirar a chamada Pedra Formosa dos banhos, gravada com motivos celtas.

Comecei a subir uma ancestral rua, a mesma que os habitantes da idade do ferro usavam no seu dia-a-dia, ladeada por uma conduta que levava água aos banhos. A subida não foi fácil, pois a calçada era irregular e bastante íngreme, mas, por fim, cheguei à zona onde se concentravam a maior parte das ruínas de casas.

Depois de descansar um pouco, decidi continuar a subir até ao topo da acrópole. Sendo o ponto mais alto da citânia, era o local ideal para ficar de vigia e avistar as luzes que ali fui procurar.

Subi por outro dos caminhos originais. Este serpenteava por entre as ruínas dos vários complexos familiares, em que casas circulares construídas em volta de um terreiro central se encontravam envoltas por uma parede mais alta do que eu.

Passei, também, junto da muralha mais interior e do seu portão norte. Apesar de, na escuridão, não as conseguir ver, sabia que, graças a uma minha visita anterior, havia mais duas muralhas além desta.

Finalmente, cheguei ao topo da acrópole. Para além de duas casas reconstruídas, havia ali as ruínas de um enorme edifício redondo com bancos de pedra adossados à parede. Segundo as leituras que fiz antes da minha visita anterior à citânia, os arqueólogos pensavam tratar-se da casa onde os governantes ou os anciãos se juntavam para discutir e resolver os problemas da povoação.

Dali, conseguia ver toda a citânia, porém, não detetei nenhum sinal das luzes de que os rumores falavam. Todavia, ainda era cedo, pelo que me encostei a uma das casas reconstruídas e esperei. Só queria que aquela não fosse uma das poucas noites sem ocorrências daquele mês.

O primeiro sinal de que algo iria acontecer, porém, não foi o aparecimento de luzes, mas sim de vultos que se mexiam mais abaixo, na escuridão. Estes surgiram de um ponto quase oposto àquele por onde eu havia entrado, pelo que me perguntei como tinham atravessado a vedação.

Lentamente, aproximaram-se do pequeno terreiro entre os complexos familiares, mais abaixo, foi então que, graças à luz da Lua e das estrelas, me apercebi de que se tratavam de cinco mulheres vestidas de negro. A ideia de que podiam ser as Bruxas da Noite passou-me pela cabeça, mas logo a descartei. Estas mulheres não tinham as caras cobertas nem a envergadura das criaturas que eu procurava.

Foi então que as luzes que me levaram ali apareceram. Vi-as, primeiro, como três pequenas chamas esverdeadas num pequeno arvoredo junto ao exterior do perímetro da citânia. Porém, rapidamente se aproximaram, ao mesmo tempo que aumentavam de tamanho e intensidade.

Ao vê-las, as cinco mulheres procuraram imediatamente refúgio por entre as ruínas. Esperaram que os fogos-fátuos se aproximassem mais um pouco, e, então, começaram a recitar estranhos e elaborados cânticos. Para minha surpresa, instantes depois, uma torrente de granizo abateu-se sobre as chamas viventes, apesar de o céu estar limpo. Em meros segundos, estas e o terreno em redor estavam cobertos por um monte de gelo.

Até ao momento, não tinha visto uma tal demonstração de poder por parte de nenhuma bruxa, pelo que, por momentos, me perguntei se aquelas cinco mulheres não seriam mesmo as Bruxas da Noite.

As atacantes esperaram um pouco para se certificarem que tinham, realmente, neutralizado o seu alvo. O monte de gelo não se moveu, e elas, saíram, então, dos seus esconderijos.

– Conseguimos – disse uma delas. – Agora somos as bruxas mais poderosas do norte de Portugal.

– Parece que sim – concordou outra, com um sorriso nos lábios.

– Têm a certeza? – perguntou uma terceira, olhando, desconfiada e amedrontada, para a pilha de granizo. – Elas já sobreviveram a pior.

– De certeza – afirmou a primeira. – Foi desta que descobrimos a fraqueza delas.

Nesse instante, o monte de gelo começou a estremecer. Uns segundos depois, com uma explosão, os fogos-fátuos emergiram do granizo.

As invasoras correram de volta para os seus refúgios e começaram um novo cântico. Porém, desta vez, os seus oponentes entraram em ação.

Com uma rapidez incrível, um deles chocou contra uma das bruxas, projetando-a vários metros para trás. Outro disparou um estranho relâmpago esverdeado que contornou a cobertura e atingiu a atacante atrás dela. Depois, os três juntaram-se e começaram a mover-se rapidamente em círculo. Uma chuva de pequenas esferas de chamas verdes abateu-se, então, sobre as três invasoras ainda em combate. Mal tocaram as suas roupas, incendiaram-nas, embora, ao atingir o solo, se apagassem instantaneamente, sem sequer queimarem a vegetação.

As atacantes rebolaram pelo chão para extinguir as chamas. Quando se voltaram a levantar, decidiram admitir a derrota e, depois de pegarem nas suas duas amigas inconscientes (ou talvez mortas), fugiram até desaparecerem na escuridão de onde tinham surgido.

Os fogos-fátuos permaneceram imóveis durante mais alguns minutos. Eu fiquei onde estava, a observá-los, na esperança que, ao irem embora, me levassem a algo que indicasse a sua origem. Afinal, as mulheres que haviam enfrentado eram claramente bruxas. Será que eles não teriam alguma relação com as Bruxas da Noite?

A verdade prontamente se revelou e apanhou-me completamente de surpresa.

As chamas dos fogos-fátuos começaram a agitar-se e a crescer. De repente, desapareceram por completo, revelando três pessoas: duas mulheres e um homem.

– Espero que este seja o último destes ataques – disse o homem. – Correr com estas bruxas de segunda está a tornar-se aborrecido.

– É o preço da fama – respondeu uma das mulheres.

– Mas que pretendem elas com isto? – perguntou a outra mulher. – Ocupar o nosso lugar? Acham que derrotarmos lhes vai dar o nosso poder?

Claramente, aquelas pessoas eram bruxas poderosas. Porém, não tinham o tamanho nem as vestimentas das Bruxas da Noite, pelo que assumi não serem elas. Além disso, estas últimas dificilmente podiam ser chamadas de famosas. Contudo, talvez estas três soubessem de alguma coisa que me pudesse ajudar.

Respirei fundo para reunir coragem antes de, mais uma vez, abordar um grupo de bruxas.

Levantei-me e chamei por elas. Sem uma palavra, transformaram-se de novo em fogos-fátuos e voaram até à acrópole, onde me rodearam. Depois, voltaram à forma humana.

– Quem és tu? – perguntou o homem. – Não me digas que és algum bruxo que também nos quer enfrentar.

– Não, não – respondi prontamente.

Contei-lhes, então, sobre a minha busca pelas Bruxas da Noite e o que me tinha levado ali.

– Sabes, nós também estamos muito interessadas nas Bruxas da Noite. Ninguém sabe quem elas são, o que querem ou de onde vieram. Isso torna-as perigosas para nós.

– Sabem onde as posso encontrar?

– Infelizmente, não – respondeu a outra mulher. – Se soubéssemos, já tínhamos falado com elas. Gostamos sempre de tentar convencer todas as bruxas e utilizadores de magia do Norte a juntarem-se ao nosso Grande Conventículo.

– Vem connosco – disse a primeira mulher. – Vamos mostrar-te o que temos sobre as Bruxas da Noite. Talvez se combinarmos os nossos conhecimentos, possamos descobrir alguma coisa.

– Acham que devíamos mostrar-lhe o esconderijo? – perguntou o homem.

– Ele já lidou com bruxas antes. Sabe que se disser alguma coisa a alguém, podemos pôr uma maldição nele e em todos o que ama – respondeu a primeira mulher. – Além disso, toda a gente sabe que estamos aqui na citânia e que o nosso esconderijo não deve ficar longe.

Elas levaram-me, então, até uma das casas castrenses reconstruídas. O homem tirou uma chave do bolso, que usou para abrir a porta, e entrámos. Lá dentro estava escuro. A única luz era a pálida luminescência da Lua e das estrelas que entrava pela porta, contudo, era suficiente para eu perceber que o local se encontrava vazio.

Enquanto me perguntava porque me haviam levado ali, uma das mulheres apartou um pouco da palha que cobria o chão e levantou uma pequena laje de pedra. Para minha surpresa, debaixo dela, encontrava-se um pequeno teclado numérico retro iluminado. A bruxa introduziu um código numérico e o chão começou a estremecer.

– Recua um pouco – disse o homem, puxando-me para trás pelo ombro.

Uma parte do chão baixou-se e deslizou para o lado, revelando umas escadas metálicas que desciam, na vertical, até um túnel em cimento. A mulher que abriu o alçapão desceu primeiro, seguida pelo homem. Eu fui o terceiro, enquanto a última bruxa ficou para trás, para fechar o alçapão.

O túnel estava bem iluminado e era curto, desembocando menos de dois metros depois numa sala bem mais espaçosa do que a casa reconstruída acima.

Era um lugar estranho. Como o túnel, tinha paredes de cimento, dando-lhe um aspeto de bunker. Secretárias com computadores e tablets misturavam-se com bancas onde repousavam almofarizes, facas, foices e frascos e vasilhas com múltiplos líquidos de diversas cores. Molhos de ervas diferentes pendiam, por fios, do teto, assim como patas de galinha e sacos de rede com ossos. Nas paredes, viam-se recortes de jornais e fotos de pessoas, algumas das quais reconheci como sendo intervenientes na política nacional e internacional.

Exatamente o que aquelas bruxas faziam ali, não sei dizer, mas era óbvio que eram mais poderosas e influentes que as de qualquer outro conventículo que eu havia encontrado antes.

Uma das mulheres ligou um dos computadores e começou a mostrar-me vídeos onde figuravam as Bruxas da Noite. Confesso que fiquei surpreso, assustado até, com todos os locais onde aquelas bruxas tinham olhos. Vi imagens das Bruxas da Noite nas montanhas do Gerês, nas ruas do Porto, sobrevoando o rio Lima, até nos túneis escondidos debaixo de Braga. Inclusive, mostraram-me um vídeo do meu encontro com uma das Bruxas da Noite, quando persegui um dos tragos sob seu comando. Eram imagens captadas do exterior da casa abandonada onde a encontrei, certamente por um drone. Infelizmente, a máquina não foi rápida o suficiente para seguir a criatura encapuçada até ao seu esconderijo.

Apesar dos vídeos revelarem vários sítios onde as Bruxas da Noite tinham estado, mesmo somados ao conhecimento que eu havia obtido durante a minha busca, não ajudavam a descortinar os motivos ou o paradeiro delas. De facto, trouxeram ainda mais perguntas.

Sem mais nada que fazer ali, despedi-me das bruxas. Após reiterarem as suas ameaças do que me aconteceria se revelasse a alguém o seu esconderijo, deixaram-me ir.

No regresso a casa, não consegui deixar de pensar que estava cada vez mais confuso. Quanto mais sabia sobre as Bruxas da Noite, menos compreendia. Alguma vez iria encontrá-las e fazê-las responder pelas mortes que haviam causado?

Capítulo 16 – Luzes no Céu

Como parte da minha exploração do mundo paralelo ao nosso que o diário que encontrei me revelou, costumo seguir os fóruns e blogues nacionais de paranormal e ufologia, não vá um deles revelar algo que mereça atenção. Foi uma destas leituras que deu o mote a esta investigação.

Nos fóruns de ufologia, havia uma grande excitação sobre estranhas luzes que andavam a aparecer sobre o Monte do Pilar, nos arredores da Póvoa do Lanhoso. É claro que, apenas isso, não chegaria para despertar a minha curiosidade, pois rumores de luzes não identificadas no céu eram frequentes. O que realmente tornava este caso único eram as histórias de homens que cortavam a estrada de acesso ao topo do monte durante essas ocorrências. Pensei logo na Organização, e, se a Organização estava presente, era porque algo realmente se passava.

Esquecendo a minha busca pelas Bruxas da Noite durante algum tempo, um sábado à noite, altura em que os avistamentos ocorriam, dirigi-me à Póvoa do Lanhoso. Nessa noite, a minha mulher estava em casa da mãe, que adoecera novamente, e a minha filha tinha ido passar o fim de semana com uma amiga, pelo que não precisei de inventar uma desculpa.

Deixei o carro junto da igreja construída na base do Monte do Pilar, ao lado da estrada que levava até ao topo, para investigar o alegado bloqueio. De facto, mal passei a primeira curva, encontrei dois carros atravessados na estrada a barrar o caminho. Atrás deles, cinco homens vigiavam a estrada.

Ao contrário do que eu assumira, estes não pareciam ser membros da Organização. Estavam armados com tacos de basebol e, em vez de fatos ou uniformes militares, envergavam roupas casuais.

Aproximei-me para tentar perceber o que se passava. Ainda estava a uns dois metros dos carros, quando um dos homens gritou:

– Não pode passar!

– Porquê? – perguntei, dando mais dois passos em frente.

– Não tem nada a ver com isso. Volte para trás.

– Com que autoridade me nega passagem numa estrada pública? – perguntei, tentando forçá-los a revelar quem eram.

– Vais dar-nos problemas, pá? – respondeu um outro homem, batendo com o taco de basebol na mão.

Os seus companheiros, ergueram as armas.

– Vai-te embora antes que te magoes.

Assim fiz, mas não ia desistir tão facilmente daquela investigação. Conhecia bem aquele monte, já o havia visitado várias vezes, e sabia que existia um velho caminho medieval que também levava ao topo.

Mal desapareci do ângulo de visão dos homens, por detrás da curva, trepei através da vegetação até ao antigo caminho. Como esperava, este não parecia vigiado.

A subida não era fácil. As pedras da calçada, expostas aos elementos e sem manutenção durante séculos, eram irregulares, e erva crescia entre elas. Em alguns pontos, a calçada até havia desaparecido completamente. Porém, o último troço era ainda pior.

O Monte do Pilar estava coroado por um colossal rochedo, um dos maiores da Europa, sobre o qual se erguia o Castelo do Lanhoso e um pequeno santuário. A nova estrada contornava-o e dava acesso pela encosta oeste, menos íngreme. O velho caminho medieval, porém, levava para a entrada este. Em tempos, acredito que uma escada ligaria esta à estrada medieval, no entanto, agora, apenas alguns apoios para mãos e pés escavados na rocha nua ajudavam na subida.

Apesar de a exploração urbana me ter obrigado a obter alguma experiência em escalada, foi com bastante dificuldade que cheguei à entrada este. Esta dava acesso a um pequeno socalco coberto de árvores e com mesas de pedra situado uns metros abaixo da área principal do santuário. Felizmente, não se encontrava ninguém ali, pelo que pude parar um pouco para recobrar energias após a subida.

Assim que me senti capaz, subi, lentamente, alguns degraus das escadas que davam para o nível superior e espreitei. Sobre o rochedo, a meio caminho entre a pequena igreja e o castelo, estava um grupo de cerca de vinte pessoas. Estas encontravam-se reunidas em volta do que me pareceu ser um padre segurando uma enorme cruz de madeira com as duas mãos. O homem recitava, a plenos pulmões, um cântico em latim, abafando todos os outros sons da noite.

Durante vinte minutos ali fiquei, ouvindo-o e observando-os, mas nada de notável aconteceu. Começava a pensar que se tratava, apenas, de uma seita qualquer, sem qualquer relação com as luzes no céu. Apenas o bloqueio na estrada e a relação estabelecida entre este e as luzes nos fóruns de ufologia me mantiveram ali.

Um quarto de hora depois, alegrei-me de não ter ido embora. O grupo começou a ficar excitado e a apontar para o céu. Segui os seus olhares, e vi vários pontos de luz, alto acima do monte.

O padre intensificou o seu cântico, e as luzes começaram a aproximar-se. Pouco depois, pareciam pequenos sóis brilhando sobre o santuário. A sua intensidade era tal que, a princípio, quase não conseguia olhar diretamente para elas. Contudo, aos poucos, começaram a perder força, até que, finalmente, fui capaz de ver o que eram.

Tratavam-se, talvez, das criaturas mais bizarras que já havia visto. Algumas pareciam ter forma humana, porém possuíam seis asas brancas semelhantes às das pombas, usando as duas de cima para cobrir as faces, as de baixo para cobrir os pés e as pernas, e apenas as do meio para voar. Outras eram vagamente humanoides, contudo, tinham quatro cabeças, a de um homem, a de uma águia, a de um boi e a de um leão e quatro asas cobertas de olhos. Não obstante o quão bizarros eram estes seres, foi um terceiro tipo de criatura que me causou mais estranheza. Tratavam-se de várias rodas concêntricas com os aros cobertos de olhos. Como conseguiam voar, não sei dizer.

Quando era adolescente, tinha um grande interesse em mitologia e, embora angelologia cristã não fosse uma das minhas favoritas, reconheci aqueles seres como sendo anjos, nomeadamente da primeira esfera, os mais próximos de Deus.

Lentamente, os seres voaram às voltas sobre os homens, enquanto estes erguiam as mãos em direção ao céu e gritavam súplicas.

Passados alguns minutos, os anjos começaram a afastar-se. Aos poucos, a sua luz foi-se tornando mais fraca e distante, até que desapareceram por completo.

Com sorrisos nos lábios, as pessoas começaram a dispersar e a regressar aos carros. O que conseguiram com aquele ritual, não sei dizer, mas fiquei a saber que não eram só demónios que aquele tipo de seitas invocavam.

Fiquei onde estava e esperei que deixassem o santuário. Depois, dei-lhes mais algum tempo para desobstruírem a estrada e só depois comecei a descer o monte, desta vez pelo percurso principal.

Como sempre, várias perguntas passaram-me pela cabeça no caminho de regresso a casa. Qual o objetivo do ritual? Porque viriam anjos das mais altas ordens à Terra? Se os anjos eram reais, será que Deus também o era?

Felizmente, a minha mente ainda estava focada em encontrar as Bruxas da Noite e descobrir os seus objetivos, caso contrário, se tivesse tido tempo de pensar nas implicações daquela noite, o meu mundo podia ter desabado.

Capítulo 15 – O Bruxo

Depois de várias investigações sem encontrar nenhuma pista quanto ao esconderijo e intenções das Bruxas da Noite, decidi reler todas as entradas sobre bruxas no diário que me introduzira a este mundo paralelo ao nosso. Acabei por decidir investigar uma que já há muito me suscitava curiosidade.

Esta falava de um bruxo curandeiro e adivinho que atendia os seus clientes num anexo perto de casa, na freguesia de Perre, em Viana do Castelo. Era uma história que eu conhecia desde criança. Aliás, durante alguns anos, passei diariamente pelo seu “gabinete” a caminho da escola e via as filas de carros lá estacionados. Na altura, nem eu nem a minha família tínhamos muita fé nas suas capacidades, mas, depois de tudo o que vira recentemente e de ler aquela entrada, achei que devia reconsiderar.

Um fim de semana, disse à minha mulher que ia a Viana do Castelo visitar os meus avós. De facto, passei pela casa deles, mas fiquei lá pouco tempo, e logo me dirigi a Perre.

Quando cheguei à casa do bruxo, tive uma forte sensação de déjà vu. O anexo, do outro lado da estrada da sua casa, estava na mesma, assim como o campo ao seu lado. Até as filas de carros nas bermas eram como me lembrava.

Estacionei atrás de uma delas e dirigi-me ao anexo. Lá, pessoas juntavam-se em grupos de familiares ou amigos, esperando pela sua vez. Estes pareciam ter origens variadas, pois fatos de marca misturavam-se com fatos de macaco e roupas de campo. A fama do bruxo chegara a toda a gente.

Juntei-me a eles e esperei. Aos poucos, os grupos foram entrando e saindo. Todos, sem exceção, emergiam do anexo com um ar bem mais feliz do que com que haviam entrado.

Por fim, chegou a minha vez. Por fora, o edifício parecia um armazém de utensílios agrícolas, porém, assim que atravessei a porta, senti que tinha viajado no tempo para o estúdio de um místico renascentista.

Uma das paredes estava tapada por uma estante cheia de livros, todos eles com um aspeto bastante antigo. Na parede oposta, várias prateleiras continham frascos com poções de uma enorme diversidade de cores. As restantes, por seu lado, encontravam-se quase totalmente cobertas por tapeçarias com símbolos místicos e estranhas representações do corpo humano. Tapetes esotéricos, um telescópio de latão e um planetário mecânico completavam a decoração.

De trás de uma secretária pejada de livros e de estranhos instrumentos cujo nome desconhecia, sentava-se o bruxo. Não contrastando com o resto da sala, este envergava vestes longas e uma tiara metálica.

– Aproxime-se – disse ele.

Assim fiz. Por indicação dele, sentei-me na cadeira em frente da secretária.

– Conte-me, então, o que o traz aqui.

Confesso que me tinha esquecido de criar uma história para testar o bruxo. Depois lembrei-me de que essa podia ser a história.

– Vim aqui para testar as suas capacidades de adivinho, para o meu blogue sobre o paranormal. – Até nem era propriamente mentira.

– Se pagar, como toda a gente, teste à vontade. Por onde quer começar?

Começámos pelo básico. Sem demora, ele conseguiu dizer-me o nome e idade da minha filha e da minha mulher. Depois, fez um pequeno resumo da minha vida profissional. Por fim, elaborou uma previsão quanto ao percurso académico da minha filha, que eu só poderia confirmar anos depois.

– Agora gostaria de ver os seus dotes de curandeiro. – Com uma pequena navalha que tinha comigo, fiz um pequeno corte no braço.

– Esse arranhão não é grande desafio – disse ele, saindo de trás da secretária e aproximando-se.

Pedindo autorização, pôs uma mão sobre o meu ferimento. Depois, fechou os olhos e permaneceu em silêncio durante alguns segundos. Quando me largou, o ferimento havia desaparecido sem deixar rasto.

Era óbvio que aquele homem era o que dizia ser: um bruxo. Talvez soubesse alguma coisa sobre as Bruxas da Noite ou, quem sabe, talvez fosse um dos seus constituintes.

– Espero que fale bem de mim no seu… blogue.

Ele ficou a olhar para mim com ar assustado durante um instante. Depois, fúria surgiu na sua face e gritou:

– Saia daqui! Imediatamente!

O seu tom não deixava margem para discussão e assim fiz, perguntando-me o que teria acontecido. Será que os seus poderes lhe tinham permitido ver a natureza do blogue que escrevia na altura? (Os mais curiosos podem encontrá-lo em terceirarealidade.wordpress.com)

É claro que deixei o anexo, mas não abandonei a investigação. Estava determinado a descobrir se ele me poderia dar alguma pista sobre as Bruxas da Noite.

Ocultei o carro numa ruela próxima e esperei pelo anoitecer. Depois, escondi-me numa sombra e esperei que o mago deixasse o consultório e voltasse para casa. Com a quantidade de clientes que tinha nesse dia, isso só ocorreu por volta das onze da noite.

Assim que passou o portão de casa, corri para o anexo. Usando umas ferramentas que levei comigo e algo que aprendi com o grupo de exploração urbana de Braga, abri a fechadura. Mal entrei, fechei a porta atrás de mim, acendi as luzes e comecei a procurar indícios de uma relação entre aquele bruxo e as Bruxas da Noite.

Procurei nas estantes, nas gavetas da secretária e por detrás das tapeçarias. Até tentei encontrar compartimentos secretos. Contudo, acabei por me aperceber que não havia nada ali. Os livros eram meramente decorativos, sem qualquer relação com o que era feito ali. E não havia nada escondido.

Decidido a chegar ao fundo da questão, dirigi-me às traseiras da casa do bruxo e, verificando que não havia ninguém por perto, saltei o muro para o quintal.

À primeira vista, a única luz provinha de uma janela no piso superior. Comecei a circundar a casa em busca de uma forma de subir e ver para o seu interior. Porém, enquanto procurava, reparei numa ténue luminosidade alaranjada que brilhava atrás de uma das janelas da cave.

Aproximei-me com cuidado e espreitei. Encontrei uma sala quase vazia, à exceção de um círculo cheio de símbolos místicos semelhantes aos encontrados em manuais de ocultismo e um tripé de madeira sobre o qual repousava um livro claramente antigo. Atrás deste, o mago, agora envergando roupa comum em vez das andrajosas vestes com que atendia os clientes, parecia recitar o que lia, embora, do exterior não o conseguisse ouvir. A cave devia estar insonorizada.

Durante cerca de quinze minutos, ali fiquei, observando o homem a folhear e ler do livro.

De súbito, fumo surgiu no centro do círculo desenhado no chão. Aos poucos, foi aumentando, tomando forma e ganhando consistência, até que uma bizarra criatura surgiu diante dos meus olhos. Tinha uma forma humanoide, com longos cabelos negros, embora uma fila de chifres se alinhasse no meio da sua cabeça e tivesse orelhas longas e pontiagudas, já para não falar na pele vermelha viva. Numa mão, levava um corvo e ia montado num crocodilo.

Ele e o bruxo falaram durante alguns minutos, mas, mais uma vez, não consegui ouvir nada. Eventualmente, a criatura começou a desenhar no ar vários símbolos místicos, na direção do homem. Quando terminou, voltou a dissolver-se numa nuvem de fumo negro, que desapareceu tão subitamente como aparecera.

Devia ser aquele ritual que dava os poderes, ou pelo menos parte deles, ao bruxo.

Este fechou o livro e preparou-se para abandonar a cave. Porém, eu queria falar com ele, pelo que decidi chamar a sua atenção e mostrar que conhecia o seu segredo batendo no vidro.

Ele olhou para mim com um misto de surpresa e terror, mas a sua expressão logo mudou para uma de resignação ao perceber que não havia nada que pudesse fazer. Através de gestos, indiquei-lhe que queria falar com ele, e ele pediu-me que esperasse.

Nem cinco minutos depois, a porta da casa abriu-se e o bruxo veio ter comigo.

– Pronto, sabe o meu segredo – disse ele. – Que vai fazer quanto a isso?

– Você é uma Bruxa da Noite? Ou sabe alguma coisa sobre elas?

O homem olhou para mim genuinamente confuso.

– Não vê que sou um homem? – protestou, por fim.

Decidi, então, contar-lhe tudo o que descobrira sobre as Bruxas da Noite.

– Eu não sei nada sobre isso. Eu só aprendi a invocar os demónios certos para me darem os poderes que preciso, mais nada. Não faço mal a ninguém. Só faço bem. E nem sei nada dessas fadas e bichos esquisitos de que falou.

O medo no seu olhar dizia-me que ele estava a dizer a verdade. Além disso, apesar da sua relação com demónios, ele parecia realmente estar a ajudar pessoas, mesmo que estivesse a ganhar dinheiro com isso.

Disse-lhe que o ia deixar em paz, mas que o manteria debaixo de olho. Ele agradeceu-me e deixou-me sair do quintal pelo portão.

Mais uma vez, voltei para casa sem descortinar mais nada sobre as Bruxas da Noite. O meu único consolo era ter descoberto que a fama daquele bruxo de que eu ouvia falar desde miúdo era justificada.