Capítulo 16 – Luzes no Céu

Como parte da minha exploração do mundo paralelo ao nosso que o diário que encontrei me revelou, costumo seguir os fóruns e blogues nacionais de paranormal e ufologia, não vá um deles revelar algo que mereça atenção. Foi uma destas leituras que deu o mote a esta investigação.

Nos fóruns de ufologia, havia uma grande excitação sobre estranhas luzes que andavam a aparecer sobre o Monte do Pilar, nos arredores da Póvoa do Lanhoso. É claro que, apenas isso, não chegaria para despertar a minha curiosidade, pois rumores de luzes não identificadas no céu eram frequentes. O que realmente tornava este caso único eram as histórias de homens que cortavam a estrada de acesso ao topo do monte durante essas ocorrências. Pensei logo na Organização, e, se a Organização estava presente, era porque algo realmente se passava.

Esquecendo a minha busca pelas Bruxas da Noite durante algum tempo, um sábado à noite, altura em que os avistamentos ocorriam, dirigi-me à Póvoa do Lanhoso. Nessa noite, a minha mulher estava em casa da mãe, que adoecera novamente, e a minha filha tinha ido passar o fim de semana com uma amiga, pelo que não precisei de inventar uma desculpa.

Deixei o carro junto da igreja construída na base do Monte do Pilar, ao lado da estrada que levava até ao topo, para investigar o alegado bloqueio. De facto, mal passei a primeira curva, encontrei dois carros atravessados na estrada a barrar o caminho. Atrás deles, cinco homens vigiavam a estrada.

Ao contrário do que eu assumira, estes não pareciam ser membros da Organização. Estavam armados com tacos de basebol e, em vez de fatos ou uniformes militares, envergavam roupas casuais.

Aproximei-me para tentar perceber o que se passava. Ainda estava a uns dois metros dos carros, quando um dos homens gritou:

– Não pode passar!

– Porquê? – perguntei, dando mais dois passos em frente.

– Não tem nada a ver com isso. Volte para trás.

– Com que autoridade me nega passagem numa estrada pública? – perguntei, tentando forçá-los a revelar quem eram.

– Vais dar-nos problemas, pá? – respondeu um outro homem, batendo com o taco de basebol na mão.

Os seus companheiros, ergueram as armas.

– Vai-te embora antes que te magoes.

Assim fiz, mas não ia desistir tão facilmente daquela investigação. Conhecia bem aquele monte, já o havia visitado várias vezes, e sabia que existia um velho caminho medieval que também levava ao topo.

Mal desapareci do ângulo de visão dos homens, por detrás da curva, trepei através da vegetação até ao antigo caminho. Como esperava, este não parecia vigiado.

A subida não era fácil. As pedras da calçada, expostas aos elementos e sem manutenção durante séculos, eram irregulares, e erva crescia entre elas. Em alguns pontos, a calçada até havia desaparecido completamente. Porém, o último troço era ainda pior.

O Monte do Pilar estava coroado por um colossal rochedo, um dos maiores da Europa, sobre o qual se erguia o Castelo do Lanhoso e um pequeno santuário. A nova estrada contornava-o e dava acesso pela encosta oeste, menos íngreme. O velho caminho medieval, porém, levava para a entrada este. Em tempos, acredito que uma escada ligaria esta à estrada medieval, no entanto, agora, apenas alguns apoios para mãos e pés escavados na rocha nua ajudavam na subida.

Apesar de a exploração urbana me ter obrigado a obter alguma experiência em escalada, foi com bastante dificuldade que cheguei à entrada este. Esta dava acesso a um pequeno socalco coberto de árvores e com mesas de pedra situado uns metros abaixo da área principal do santuário. Felizmente, não se encontrava ninguém ali, pelo que pude parar um pouco para recobrar energias após a subida.

Assim que me senti capaz, subi, lentamente, alguns degraus das escadas que davam para o nível superior e espreitei. Sobre o rochedo, a meio caminho entre a pequena igreja e o castelo, estava um grupo de cerca de vinte pessoas. Estas encontravam-se reunidas em volta do que me pareceu ser um padre segurando uma enorme cruz de madeira com as duas mãos. O homem recitava, a plenos pulmões, um cântico em latim, abafando todos os outros sons da noite.

Durante vinte minutos ali fiquei, ouvindo-o e observando-os, mas nada de notável aconteceu. Começava a pensar que se tratava, apenas, de uma seita qualquer, sem qualquer relação com as luzes no céu. Apenas o bloqueio na estrada e a relação estabelecida entre este e as luzes nos fóruns de ufologia me mantiveram ali.

Um quarto de hora depois, alegrei-me de não ter ido embora. O grupo começou a ficar excitado e a apontar para o céu. Segui os seus olhares, e vi vários pontos de luz, alto acima do monte.

O padre intensificou o seu cântico, e as luzes começaram a aproximar-se. Pouco depois, pareciam pequenos sóis brilhando sobre o santuário. A sua intensidade era tal que, a princípio, quase não conseguia olhar diretamente para elas. Contudo, aos poucos, começaram a perder força, até que, finalmente, fui capaz de ver o que eram.

Tratavam-se, talvez, das criaturas mais bizarras que já havia visto. Algumas pareciam ter forma humana, porém possuíam seis asas brancas semelhantes às das pombas, usando as duas de cima para cobrir as faces, as de baixo para cobrir os pés e as pernas, e apenas as do meio para voar. Outras eram vagamente humanoides, contudo, tinham quatro cabeças, a de um homem, a de uma águia, a de um boi e a de um leão e quatro asas cobertas de olhos. Não obstante o quão bizarros eram estes seres, foi um terceiro tipo de criatura que me causou mais estranheza. Tratavam-se de várias rodas concêntricas com os aros cobertos de olhos. Como conseguiam voar, não sei dizer.

Quando era adolescente, tinha um grande interesse em mitologia e, embora angelologia cristã não fosse uma das minhas favoritas, reconheci aqueles seres como sendo anjos, nomeadamente da primeira esfera, os mais próximos de Deus.

Lentamente, os seres voaram às voltas sobre os homens, enquanto estes erguiam as mãos em direção ao céu e gritavam súplicas.

Passados alguns minutos, os anjos começaram a afastar-se. Aos poucos, a sua luz foi-se tornando mais fraca e distante, até que desapareceram por completo.

Com sorrisos nos lábios, as pessoas começaram a dispersar e a regressar aos carros. O que conseguiram com aquele ritual, não sei dizer, mas fiquei a saber que não eram só demónios que aquele tipo de seitas invocavam.

Fiquei onde estava e esperei que deixassem o santuário. Depois, dei-lhes mais algum tempo para desobstruírem a estrada e só depois comecei a descer o monte, desta vez pelo percurso principal.

Como sempre, várias perguntas passaram-me pela cabeça no caminho de regresso a casa. Qual o objetivo do ritual? Porque viriam anjos das mais altas ordens à Terra? Se os anjos eram reais, será que Deus também o era?

Felizmente, a minha mente ainda estava focada em encontrar as Bruxas da Noite e descobrir os seus objetivos, caso contrário, se tivesse tido tempo de pensar nas implicações daquela noite, o meu mundo podia ter desabado.

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Capítulo 15 – O Bruxo

Depois de várias investigações sem encontrar nenhuma pista quanto ao esconderijo e intenções das Bruxas da Noite, decidi reler todas as entradas sobre bruxas no diário que me introduzira a este mundo paralelo ao nosso. Acabei por decidir investigar uma que já há muito me suscitava curiosidade.

Esta falava de um bruxo curandeiro e adivinho que atendia os seus clientes num anexo perto de casa, na freguesia de Perre, em Viana do Castelo. Era uma história que eu conhecia desde criança. Aliás, durante alguns anos, passei diariamente pelo seu “gabinete” a caminho da escola e via as filas de carros lá estacionados. Na altura, nem eu nem a minha família tínhamos muita fé nas suas capacidades, mas, depois de tudo o que vira recentemente e de ler aquela entrada, achei que devia reconsiderar.

Um fim de semana, disse à minha mulher que ia a Viana do Castelo visitar os meus avós. De facto, passei pela casa deles, mas fiquei lá pouco tempo, e logo me dirigi a Perre.

Quando cheguei à casa do bruxo, tive uma forte sensação de déjà vu. O anexo, do outro lado da estrada da sua casa, estava na mesma, assim como o campo ao seu lado. Até as filas de carros nas bermas eram como me lembrava.

Estacionei atrás de uma delas e dirigi-me ao anexo. Lá, pessoas juntavam-se em grupos de familiares ou amigos, esperando pela sua vez. Estes pareciam ter origens variadas, pois fatos de marca misturavam-se com fatos de macaco e roupas de campo. A fama do bruxo chegara a toda a gente.

Juntei-me a eles e esperei. Aos poucos, os grupos foram entrando e saindo. Todos, sem exceção, emergiam do anexo com um ar bem mais feliz do que com que haviam entrado.

Por fim, chegou a minha vez. Por fora, o edifício parecia um armazém de utensílios agrícolas, porém, assim que atravessei a porta, senti que tinha viajado no tempo para o estúdio de um místico renascentista.

Uma das paredes estava tapada por uma estante cheia de livros, todos eles com um aspeto bastante antigo. Na parede oposta, várias prateleiras continham frascos com poções de uma enorme diversidade de cores. As restantes, por seu lado, encontravam-se quase totalmente cobertas por tapeçarias com símbolos místicos e estranhas representações do corpo humano. Tapetes esotéricos, um telescópio de latão e um planetário mecânico completavam a decoração.

De trás de uma secretária pejada de livros e de estranhos instrumentos cujo nome desconhecia, sentava-se o bruxo. Não contrastando com o resto da sala, este envergava vestes longas e uma tiara metálica.

– Aproxime-se – disse ele.

Assim fiz. Por indicação dele, sentei-me na cadeira em frente da secretária.

– Conte-me, então, o que o traz aqui.

Confesso que me tinha esquecido de criar uma história para testar o bruxo. Depois lembrei-me de que essa podia ser a história.

– Vim aqui para testar as suas capacidades de adivinho, para o meu blogue sobre o paranormal. – Até nem era propriamente mentira.

– Se pagar, como toda a gente, teste à vontade. Por onde quer começar?

Começámos pelo básico. Sem demora, ele conseguiu dizer-me o nome e idade da minha filha e da minha mulher. Depois, fez um pequeno resumo da minha vida profissional. Por fim, elaborou uma previsão quanto ao percurso académico da minha filha, que eu só poderia confirmar anos depois.

– Agora gostaria de ver os seus dotes de curandeiro. – Com uma pequena navalha que tinha comigo, fiz um pequeno corte no braço.

– Esse arranhão não é grande desafio – disse ele, saindo de trás da secretária e aproximando-se.

Pedindo autorização, pôs uma mão sobre o meu ferimento. Depois, fechou os olhos e permaneceu em silêncio durante alguns segundos. Quando me largou, o ferimento havia desaparecido sem deixar rasto.

Era óbvio que aquele homem era o que dizia ser: um bruxo. Talvez soubesse alguma coisa sobre as Bruxas da Noite ou, quem sabe, talvez fosse um dos seus constituintes.

– Espero que fale bem de mim no seu… blogue.

Ele ficou a olhar para mim com ar assustado durante um instante. Depois, fúria surgiu na sua face e gritou:

– Saia daqui! Imediatamente!

O seu tom não deixava margem para discussão e assim fiz, perguntando-me o que teria acontecido. Será que os seus poderes lhe tinham permitido ver a natureza do blogue que escrevia na altura? (Os mais curiosos podem encontrá-lo em terceirarealidade.wordpress.com)

É claro que deixei o anexo, mas não abandonei a investigação. Estava determinado a descobrir se ele me poderia dar alguma pista sobre as Bruxas da Noite.

Ocultei o carro numa ruela próxima e esperei pelo anoitecer. Depois, escondi-me numa sombra e esperei que o mago deixasse o consultório e voltasse para casa. Com a quantidade de clientes que tinha nesse dia, isso só ocorreu por volta das onze da noite.

Assim que passou o portão de casa, corri para o anexo. Usando umas ferramentas que levei comigo e algo que aprendi com o grupo de exploração urbana de Braga, abri a fechadura. Mal entrei, fechei a porta atrás de mim, acendi as luzes e comecei a procurar indícios de uma relação entre aquele bruxo e as Bruxas da Noite.

Procurei nas estantes, nas gavetas da secretária e por detrás das tapeçarias. Até tentei encontrar compartimentos secretos. Contudo, acabei por me aperceber que não havia nada ali. Os livros eram meramente decorativos, sem qualquer relação com o que era feito ali. E não havia nada escondido.

Decidido a chegar ao fundo da questão, dirigi-me às traseiras da casa do bruxo e, verificando que não havia ninguém por perto, saltei o muro para o quintal.

À primeira vista, a única luz provinha de uma janela no piso superior. Comecei a circundar a casa em busca de uma forma de subir e ver para o seu interior. Porém, enquanto procurava, reparei numa ténue luminosidade alaranjada que brilhava atrás de uma das janelas da cave.

Aproximei-me com cuidado e espreitei. Encontrei uma sala quase vazia, à exceção de um círculo cheio de símbolos místicos semelhantes aos encontrados em manuais de ocultismo e um tripé de madeira sobre o qual repousava um livro claramente antigo. Atrás deste, o mago, agora envergando roupa comum em vez das andrajosas vestes com que atendia os clientes, parecia recitar o que lia, embora, do exterior não o conseguisse ouvir. A cave devia estar insonorizada.

Durante cerca de quinze minutos, ali fiquei, observando o homem a folhear e ler do livro.

De súbito, fumo surgiu no centro do círculo desenhado no chão. Aos poucos, foi aumentando, tomando forma e ganhando consistência, até que uma bizarra criatura surgiu diante dos meus olhos. Tinha uma forma humanoide, com longos cabelos negros, embora uma fila de chifres se alinhasse no meio da sua cabeça e tivesse orelhas longas e pontiagudas, já para não falar na pele vermelha viva. Numa mão, levava um corvo e ia montado num crocodilo.

Ele e o bruxo falaram durante alguns minutos, mas, mais uma vez, não consegui ouvir nada. Eventualmente, a criatura começou a desenhar no ar vários símbolos místicos, na direção do homem. Quando terminou, voltou a dissolver-se numa nuvem de fumo negro, que desapareceu tão subitamente como aparecera.

Devia ser aquele ritual que dava os poderes, ou pelo menos parte deles, ao bruxo.

Este fechou o livro e preparou-se para abandonar a cave. Porém, eu queria falar com ele, pelo que decidi chamar a sua atenção e mostrar que conhecia o seu segredo batendo no vidro.

Ele olhou para mim com um misto de surpresa e terror, mas a sua expressão logo mudou para uma de resignação ao perceber que não havia nada que pudesse fazer. Através de gestos, indiquei-lhe que queria falar com ele, e ele pediu-me que esperasse.

Nem cinco minutos depois, a porta da casa abriu-se e o bruxo veio ter comigo.

– Pronto, sabe o meu segredo – disse ele. – Que vai fazer quanto a isso?

– Você é uma Bruxa da Noite? Ou sabe alguma coisa sobre elas?

O homem olhou para mim genuinamente confuso.

– Não vê que sou um homem? – protestou, por fim.

Decidi, então, contar-lhe tudo o que descobrira sobre as Bruxas da Noite.

– Eu não sei nada sobre isso. Eu só aprendi a invocar os demónios certos para me darem os poderes que preciso, mais nada. Não faço mal a ninguém. Só faço bem. E nem sei nada dessas fadas e bichos esquisitos de que falou.

O medo no seu olhar dizia-me que ele estava a dizer a verdade. Além disso, apesar da sua relação com demónios, ele parecia realmente estar a ajudar pessoas, mesmo que estivesse a ganhar dinheiro com isso.

Disse-lhe que o ia deixar em paz, mas que o manteria debaixo de olho. Ele agradeceu-me e deixou-me sair do quintal pelo portão.

Mais uma vez, voltei para casa sem descortinar mais nada sobre as Bruxas da Noite. O meu único consolo era ter descoberto que a fama daquele bruxo de que eu ouvia falar desde miúdo era justificada.

Capítulo 14 – A Demonóloga

A inspiração para esta investigação surgiu de forma bastante inesperada. Numa noite de Halloween, a minha filha convenceu-me a mim e à mãe a ir a um evento anual no Paço dos Duques, em Guimarães. Lá, uma trupe transformara o palácio numa casa assombrada, cheia de monstros, fantasmas e sustos. Foi o final do espetáculo, porém, que mais capturou a minha atenção. Tratava-se da encenação de um exorcismo supostamente feito a uma duquesa que ali morara.

Quando cheguei a casa, fiz alguma pesquisa e verifiquei que, não só aquilo se baseara em factos históricos, como havia rumores de que acontecimentos estranhos continuaram a ocorrer no palácio mesmo após o exorcismo.

Tendo os meus encontros anteriores com bruxas revelado uma clara relação entre elas e demónios, não pude deixar de ir investigar, na esperança de finalmente encontrar as Bruxas da Noite.

Numa noite de semana, em Novembro, disse à minha mulher que ia trabalhar até tarde e dirigi-me a Guimarães e ao Paço dos Duques. Evidentemente, o palácio estava fechado, e não havia ninguém por perto. Estacionei e comecei a procurar uma maneira de entrar.

Como seria de esperar, para além dos guardas no seu interior, o local encontrava-se protegido por um sistema de alarme. Um dos meus camaradas do grupo de exploração urbana de Braga, que se auto intitulava de “o maior dos exploradores urbanos”, pois gostava de visitar não só edifícios abandonados, mas também alguns em uso e até habitados, ensinara-me algumas maneiras de contornar os alarmes. Só esperava que esse meu parco conhecimento fosse suficiente para ali entrar.

No fim, porém, acabei por não ter de o usar. Ao virar a esquina para as traseiras, protegidas de olhares por árvores e vegetação, descobri que alguém se adiantara a mim.

Uma mulher, que não devia ter mais de trinta anos, já desativara o alarme e esticava-se, agora, até uma pequena janela quase dois metros acima do chão. Ao aperceber-me da sua dificuldade, aproximei-me e disse, com um sorriso:

– Precisa de ajuda?

Ela olhou para mim com um misto de surpresa e medo. Era relativamente baixa, com pouco mais de um metro e cinquenta, e magra. Usava óculos de metal negros, e prendia o cabelo num rabo de cavalo.

Durante uns momentos, os seus olhos dardejaram em todas as direções. Por fim, ao perceber que eu não era um polícia nem guarda, decidiu não fugir e perguntou:

– Quem é você?

– Isso pergunto-lhe eu. Quem é você? Porque está a tentar arrombar um monumento nacional? Dê-me uma razão para não chamar já a polícia.

– Eu até lhe dava uma razão, mas depois vai deixar de conseguir dormir sossegado. Há mais aqui do que que pessoas normais podem imaginar.

– Como demónios?

Ela ficou a olhar para mim, surpreendida, durante uns instantes. Isso disse-me que ela sabia do que eu estava a falar e que, provavelmente, encontrava-se ali pela mesma razão do que eu.

Ao fim de alguns instantes, ela perguntou:

– Diga-me o que sabe.

Contei-lhe tudo sobre o diário, as minhas explorações anteriores, as Bruxas da Noite e o que me levara ali.

– Um dia, gostava de ver esse diário – respondeu ela, quando terminei. – Já ouvi falar dessas criaturas a que chama de Bruxas da Noite, mas costumo focar-me em demónios, e elas parecem não os usar como as outras bruxas. Pelo que diz, talvez me devesse começar a interessar por elas também. É da minha responsabilidade.

– Da tua responsabilidade? Porquê?

– Faço parte de uma tradição milenar que protege as pessoas dos demónios e seus agentes. Eu e o meu mestre éramos os responsáveis pelo norte de Portugal. – Ela olhou tristemente para o chão. – Mas ele faleceu e agora estou sozinha.

– Não têm ajuda da Organização? – perguntei, pois pareceu-me que tinham objetivos em comum.

– Essa Organização de que fala só apareceu no século passado. Além disso, estão mais preocupados em esconder a verdade do que a ajudar as pessoas. Não têm nada a ver connosco. – Após uma curta pausa, continuou. – Se estamos aqui pela mesma razão, talvez me pudesse ajudar. Já abri a janela e confirmei que desliguei o alarme corretamente. Agora tenho de começar a levar o equipamento para dentro, e sozinha é mais complicado.

Aceitei de imediato e ela levou-me para a frente do monumento e em direção à rua próxima. A meio caminho, após umas curtas apresentações, lembrei-me de perguntar:

– Como soubeste deste demónio? Também vieste cá no Halloween?

– Não. Por acaso, nem sabia do evento até teres falado dele. Tenho um pequeno cluster que usa técnicas de data mining para encontrar padrões nas notícias e em outras bases de dados a que tenho acesso que possam indicar a presença de demónios. Descobri que muitos dos que visitaram este palácio estiveram, depois, envolvidos em crimes. É um claro sinal de influência demoníaca.

Continuámos a andar, até que ela parou atrás de uma Ford transit branca do final dos anos 90. Já vira melhores dias, pois, em vários pontos, a tinta tinha dado lugar a ferrugem, e a fechadura da porta traseira já não existia e fora substituída por um sistema de fecho e cadeado.

A demonóloga correu uma das portas laterais, revelando um espaço de carga contendo uma estranha mistura de antigo e moderno. Várias prateleiras de madeira alinhavam as paredes, contendo livros claramente ancestrais, artefactos religiosos das mais variadas religiões e objetos eletrónicos com os componentes expostos, claramente construídos ou misturados de forma improvisada. No chão, estavam pousados alguns artefactos maiores, como um tapete com uma mandala, um enorme menorá e o que parecia ser um ou vários computadores ligados a uma bateria.

A demonóloga passou-me duas altas e esguias colunas de som, enquanto ela pegou num monitor e num pequeno tablet que, se os meus escassos conhecimentos de eletrónica não me enganam, tinha sido construído a partir de um raspberry pi.

Assim que voltámos para as traseiras do palácio, ajudei-a a subir a janela e a entrar. Depois, passei-lhe todo o equipamento e, por fim, entrei no palácio.

Como já esperava dada a exiguidade e altura da janela, estávamos no interior de um pequeno quarto. De momento, encontrava-se vazio, mas, em tempos, devia ter sido usado como arrecadação, pois não havia espaço para nada mais.

Cautelosamente, Susana, a demonóloga, encostou o ouvido à única porta, certificando-se de que não havia guardas do outro lado. Assim que ficou satisfeita, abriu-a.

A enorme sala com que então nos deparámos era-me familiar. Fora ali que, durante o espetáculo de Halloween, se encontrara a condessa possuída a sua cama e onde um padre procedera ao exorcismo.

Assim que lhe contei isto, a demonóloga começou a inspecionar cada centímetro da divisão, usando o tablet e um instrumento que tirou de uma das bolsas que levava à cintura. Foi um processo demorado, durante o qual me mantive nervosamente vigilante para não sermos descobertos. Assim que terminou, ela abanou a cabeça negativamente e decidimos prosseguir.

Graças à minha última visita, eu sabia que a única outra porta dava para o pátio central, onde seríamos facilmente vistos pelos guardas, pelo que decidimos subir ao andar superior.

Através de umas escadas exíguas com dois lances, chegámos a um corredor com algumas portas do lado direito e uma divisão ao fundo. O primeiro quarto estava cheio de armaduras montadas, enquanto que os seguintes albergavam exposições de outros artefactos mediavalescos, como livros, mobiliário e estatuetas. A demonóloga inspecionou cada um deles, mas, mais uma vez, não encontrou nada.

O mesmo não aconteceu, porém, na divisão ao fundo do corredor. Mal entrámos, LED acederam-se no instrumento eletrónico da minha companheira.

– Assim está melhor – disse ela.

Encontrávamo-nos num quarto vazio, com uma lareira embutida numa das paredes. Seria, possivelmente, o verdadeiro quarto da condessa.

A demonóloga seguiu o rasto do demónio até uma segunda porta.

Sempre atrás das indicações do instrumento improvisado, atravessámos quartos, vestíbulos, corredores e até uma enorme sala de jantar. Por fim, quando chegámos à capela do palácio, a demonóloga disse, apontando com o queixo para os LED todos acesos da máquina na sua mão e para um gráfico no ecrã do tablet:

– Está aqui. Vamos instalar as colunas.

– O guarda não vai ouvir quando as ligar-mos? – perguntei.

– É quase certo, mas não temos escolha. Temos de expulsar este demónio daqui.

Posicionámos as colunas entre os bancos compridos da capela, viradas para o altar. Devido a uma adaptação da demonóloga, eram alimentadas por baterias, pelo que bastou um pressionar no tablet dela para que uma cacofonia de vozes e línguas começasse a soar.

– É uma mistura de várias preces cristãs, muçulmanas, judaicas, hindus e taoistas usadas para expulsar demónios – explicou a demonóloga.

Durante longos momentos ali ficámos, esperando que o demónio fosse expulso antes que um dos guardas nos ouvisse.

Apesar do meu nervosismo, não consegui deixar de admirar a capela. O espetáculo de Halloween não passara por ela, pelo que nunca a tinha visitado. Traves de madeira envernizadas seguravam o telhado, e enormes vitrais preenchiam quase a totalidade da parede atrás do pequeno altar. Porém, o que mais me impressionou foram os dois palanques laterais, já que o seu aspeto marcadamente medieval me fazia viajar no tempo.

De súbito, estes começaram a estremecer, assim como o altar e os bancos à minha volta. Segundos depois, do chão, emergiu uma criatura quase do meu tamanho com pele vermelha, dois chifres, e nariz e queixo afiado.

Quase ao mesmo tempo, a porta atrás de nós abriu-se, dando entrada a um segurança de lanterna em punho. A visão da criatura, porém, ou a combinação desta com a cacofonia emitida pelas colunas foram demasiado para ele, e o homem desmaiou para cima da última fileira de bancos.

Ao contrário de mim, Susana não prestara qualquer atenção ao guarda e avançava em direção ao demónio com o ecrã do tablet virado para ele. De relance, vi várias imagens a passar: símbolos religiosos variados, excertos de textos sagrados, imagens de santos e deuses. A criatura estacou e começou a gritar.

Lentamente, a demonóloga deslocou-se, tentando colocar o tablet entre o demónio e a porta, ao mesmo tempo que tirava algo da mochila que levava às costas. Contudo, antes que o conseguisse, a criatura emitiu um temível rugido e saltou sobre os bancos quase até à porta. Instintivamente, tentei barrar-lhe a passagem, mas ele atirou-me ao chão como se nada fosse e saiu.

– Ele é mais forte do que estava à espera disse a demonóloga, ajudando-me a levantar. – Vamos.

Corremos para fora da capela e descemos as escadas até ao claustro do palácio e, de lá, seguimos o demónio para o exterior. Pelo caminho, passámos por diversos guardas, mas estes, atónitos com a visão do demónio ou com a nossa presença ali, nem reagiram.

Perseguimos a criatura pela colina em cujo topo se erguia o Castelo de Guimarães. No entanto, a meio caminho, junto a uma pequena capela ali construída, Susana agarrou-me por um braço.

– Espera. Este demónio é muito forte. Normalmente, não conseguem escapar daquela maneira. Vou buscar umas coisas para lhe fazer uma emboscada e encurralá-lo nesta capela. Leva o meu tablet, vai atrás dele e tenta empurrá-lo para aqui.

Antes de eu poder responder, ela meteu o tablet nas minhas mãos e virou costas. No ecrã, ainda passavam todo o tipo de imagens religiosas.

Respirando fundo, comecei a correr pela estrada de terra batida que levava ao topo da colina e às ruínas do castelo, onde o demónio entrara.

Sendo a fortaleza mais famosa de Portugal, já a havia visitado mais do que uma vez, pelo que a conhecia bem e podia concentrar-me em encontrar a criatura. A torre de menagem, que fora restaurada, era o único edifício que se encontrava em pé, mas estava fechada, pelo que não havia muitos sítios onde o demónio se podia esconder. Isto, se não tivesse nenhum truque que eu desconhecesse, claro.

Tentando segurar, ao mesmo tempo, a minha lanterna de bolso e o tablet à minha frente, comecei a procurar em todos os recantos, desde atrás de escombros até às lareiras e às chaminés quebradas que delas partiam.

Não demorei muito a ver um vulto passar ao meu lado. Quando apontei a luz para lá, porém, não encontrei nada. Podia ter sido apenas um gato, mas, por alguma razão, pressenti que era algo mais, pelo que o persegui.

Finalmente, quando cheguei a uma esquina sem saída, avistei o demónio e estendi o tablet na sua direção. Como eu bloqueava a única rota de fuga, uma estreita passagem entre a muralha e a torre de menagem, a criatura, tentou, em desespero, usar as garras para trepar a muralha. Porém, ao ver que não conseguia, carregou contra mim, gritando com um misto de dor e ódio. Mais uma vez, fui incapaz de o parar, e ele passou por mim, atirando-me ao chão. Felizmente, recuperei depressa e persegui-o.

Correndo o mais depressa que conseguia, tentei manter-me colado a ele e, com o tablet, conduzi-lo para onde Susana o esperava. Apesar de ele se ter desviado uma ou duas vezes do caminho mais direto, lá o consegui levar até à pequena capela.

Junto à porta desta, encontrava-se a demonóloga, que segurava um outro tablet e, entretanto, havia construído uma passagem delimitada com colunas áudio emitindo a sua mistura de cânticos e preces e um monitor enorme que conduzia para o interior.

Percebendo a intenção, tentei conduzir o demónio para a armadilha. Este ainda tentou escapar, mas, com a ajuda da demonóloga e do seu segundo tablet, consegui levá-lo para a passagem e para o interior da capela.

Mal a criatura passou a porta, Susana selou-a com o enorme monitor onde passavam imagens similares às do tablet. Depois, ativou as colunas que colocara no interior do edifício sagrado. O demónio começou a gritar. Primeiro, atirou-se contra as paredes, como se quisesse atravessá-las, depois, investiu na direção da porta.

Atrás do ecrã, a demonóloga tirou da mochila um curioso objeto que parecia ser uma espingarda de água, como as usadas pelos miúdos, mas pintada com tinta prateada e coberta com símbolos sagrados. Assim que o ser ficou ao alcance, ela disparou a arma. Vários jatos de líquidos voaram na direção do demónio.

Mal foi atingido, este começou a gritar ainda mais violentamente. Susana, porém, continuou a disparar. Notei, então, que a criatura começava a derreter, como se tivesse sido atingida por um ácido. Aos poucos, desapareceu, até que tudo o que restava dela era um poça avermelhada no chão, a maior parte da qual se infiltrou pelas frinchas entre as lajes funerárias que cobriam o chão da capela.

– O que tens nessa arma? – perguntei, surpreendido e curioso.

– Água benta, óleo ungido, água de rios sagrados, água do poço de Zamzam, coisas desse género – explicou ela. – Agora é melhor sairmos daqui antes que os guardas do palácio recuperem e venham atrás de nós.

Assim fizemos. Ajudei-a a levar o material para a carrinha e voltei para o meu carro, mas não antes de ela me dar o seu contacto. Esta investigação podia não me ter dado novas informações sobre as Bruxas da Noite,mas trouxe-me um novo aliado na minha missão de as encontrar e parar.

Capítulo 13 – As Bruxas do Mar

Após tudo o que descobrira graças à minha visita à Taberna dos Encantados, a minha vontade de encontrar as Bruxas da Noite viu-se ainda mais reforçada. Como tal, logo no fim de semana seguinte, investiguei mais uma das entradas do diário que me parecia estar relacionada com bruxas.

Na tarde de sábado, em que a minha mulher e filha foram a uma livraria à apresentação de um livro, dirigi-me a Barcelos.

A entrada falava de vários desaparecimentos numa localidade dos arredores daquela cidade, envolvendo um olho marinho no Rio Neiva junto a um rochedo conhecido como o “Penedo da Moira”. Supostamente, em certas noites, mulheres saídas de baixo das águas arrastavam qualquer homem que encontrassem para o olho marinho, e ele nunca mais era visto. Depois de tudo o que vira, não tinha dificuldades em acreditar em moiras, contudo, como estas não eram referidas em mais nenhuma parte do diário, assumi que se tratavam de bruxas.

Cheguei ao local ao princípio da tarde. Havia ali várias pequenas lagoas, onde as pessoas costumavam nadar no Verão, porém, sendo um frio dia de Inverno, não se encontrava lá ninguém. Procurei imediatamente por aquela que seria o suposto olho marinho. Investiguei todos os rochedos na zona, procurando o “Penedo da Moira”, que indicaria qual era a lagoa certa. Levou-me algum tempo, mas acabei por encontrar um em cuja superfície superior havia uma cova cheia de água, a suposta “Pegada da Moira”. Este encontrava-se parcialmente dentro de uma das lagoas, indicando claramente que era aquela que eu procurava.

Anos antes, durante umas férias na Grécia, tirara um curso de mergulho para poder visitar umas ruínas subaquáticas. Comprara, até, o equipamento completo, esperando usá-lo depois para investigar outros locais semelhantes (o que, infelizmente, nunca aconteceu). Nesse dia levei-o comigo e, junto ao carro, vesti-o.

Cuidadosamente, entrei na lagoa e, assim que a água me chegou à cintura, mergulhei. A água era límpida, pelo que, mesmo nas partes mais profundas, conseguia ver o fundo claramente. Este era formado por seixos e alguma areia. Infelizmente, depois de uma busca demorada, não encontrei nenhum sinal do olho marinho. Toda a lagoa parecia ter um fundo bem definido. Contudo, uma pequena depressão no ponto mais profundo chamou-me à atenção. Parecia deslocada, pois não havia uma corrente clara que a pudesse provocar, e, a quase quatro metros debaixo da superfície, era duvidoso que pudesse ter sido criada por banhistas.

Aproximei-me. Desviei alguns seixos e, agitando a mão sobre ela, afastei a areia. Assim que esta assentou, revelou-se uma das coisas mais estranhas que eu já vira. Debaixo da depressão, havia apenas trevas, uma escuridão que nem a luz da minha lanterna de mergulho conseguia penetrar. Só podia ser o olho marinho.

Lentamente, mergulhei a mão nessa escuridão. Para minha surpresa, deixei de a ver, mas conseguia movê-la lá em baixo. Passado alguns momentos, apercebi-me que se tratava de um túnel.

De repente, comecei a sentir a água à minha volta mover-se, a princípio, lentamente, mas acelerando rapidamente. Apercebi-me, então, que se tratava de um turbilhão centrado no ponto escuro que eu acabara de descobrir. Instintivamente, tentei lutar contra ele, porém, ao ver que este era mais forte do que eu, acabei por me deixar levar. Afinal, estava ali para descobrir o que havia do outro lado.

Confesso que não foi das minhas decisões mais inteligentes. Pouco depois de entrar no túnel, bati com a cabeça e perdi a consciência.

Quando voltei a mim, estava num local escuro, mas fora de água. Doía-me o corpo todo, e não precisava de ver para saber que tinha vários ferimentos. Felizmente, não me pareceu ter nada partido.

Varri o chão com as mãos em busca da minha lanterna de mergulho, no entanto, quando a encontrei, descobri que esta estava completamente destruída. Por sorte, a mais pequena, que anda sempre comigo e que tinha guardado no bolso dos calções, debaixo do fato de mergulho, ainda funcionava.

Assim que a acendi, confirmei as minhas suspeitas. O fato estava rasgado em diversos pontos, e eu sangrava de vários cortes. Depois, dirigi a luz para a escuridão à minha volta. A primeira coisa que descobri foi um pequeno charco circular a meu lado, certamente a saída do olho marinho. Logo em seguida avistei paredes. Feitas de enormes blocos de granito, erguiam-se atrás e à minha frente, até desaparecerem na escuridão. Eram tão altas, que a minha pequena lanterna não conseguia iluminar o teto.

Sem mais nada que pudesse fazer, levantei-me e comecei a explorar o local. Tinha avançado apenas alguns passos quando encontrei o que mais temia, mas já esperara: um esqueleto humano. Certamente pertencia a alguém como eu, que chegara ali através do olho marinho, mas não conseguira sair.

Respirei fundo para me tentar acalmar e forcei-me a continuar a avançar. Mais e mais esqueletos apareceram, alguns envoltos em roupas e envergando joalharia tão antigas que deviam estar ali desde a idade média e até da época castrense. Tentei animar-me com a ideia de que talvez conseguisse encontrar algo que os meus antecessores não conseguiram. Afinal, entre os montes de ossos e farrapos não havia uma única lanterna.

Ocasionalmente, deparei-me com estátuas e baixos relevos gravados nas paredes representando o que só podia descrever como demónios. Tinham chifres e focinhos afiados, dentes pontiagudos, barbatanas e alguns até asas. As suas representações variavam muito em tamanho, mas se esta era a sua escala real ou apenas liberdade artística, não tinha maneira de saber.

Por fim, avistei uma ténue luz ao longe. Aproximei-me com cuidado, pois não sabia o que esperar, mas alguns metros mais à frente, apercebi-me que se tratava do fim da longa estrutura onde me encontrava.

Por momentos, senti-me aliviado, pensando que tinha encontrado a saída. Todavia, logo descobri que assim não era. A estrutura encontrava-se, de facto, aberta naquela direção. Contudo, em vez de uma saída, ali erguia-se o próprio oceano.

Aproximei-me e descobri que uma barreira invisível, certamente de origem mágica, impedia as águas do Atlântico de entrarem. E a mim de sair. Não que fizesse diferença. Mesmo que eu conseguisse transpor a barreira, dificilmente chegaria à superfície vivo. Dali conseguia vê-la e encontrava-se uns cem metros mais acima. Além disso, a probabilidade de ser encontrado e salvo no oceano quando ninguém andava à minha procura era mínima.

Em desespero, bati com os punhos na barreira invisível e, depois, deixei-me deslizar para o chão. Durante longos minutos, ali fiquei, resignado a morrer ali. Depois, lembrei-me da minha família, e decidi ir ver o que havia no outro extremo do edifício. Não tinha muitas esperanças, mas podia existir lá uma saída.

Estava prestes a levantar-me, quando ouvi uma batida na barreira invisível. Levantei o olhar e, por entre um cardume passageiro, vi uma mulher jovem, na casa dos vinte. Esta não envergava qualquer equipamento de mergulho, apenas umas calças de ganga e uma blusa que pareciam não afetar a sua flutuabilidade.

Recuei dois passos, não sabendo o que esperar. Logo em seguida, a mulher atravessou a barreira mágica e desceu para o interior do edifício. Para minha surpresa, as suas roupas pareciam completamente secas.

– Não tenha medo – disse ela. – Vim tirá-lo daqui.

– Quem é você? É uma das Bruxas da Noite?

A sua face contorceu-se em sofrimento ao ouvir aquele nome.

– Não – respondeu, por fim.

– Mas conhece-as? Sabe onde as posso encontrar?

– Não sei onde as encontrar, mas conheço-as, sim. Infelizmente.

A tristeza na sua voz deixou-me curioso, mas não tive coragem de perguntar nada. Ela, porém, apercebeu-se disso e continuou:

– A minha mãe e as outras Bruxas do Mar morreram por causa delas. Vieram ter connosco para as ajudar-mos a destruir uma comunidade de criaturas marinhas, ao largo de Castelo do Neiva, prometendo-nos objetos mágicos e outras recompensas. Mas, assim que fizemos o que elas pediram, atacaram-nos. Eu só sobrevivi porque a minha mãe insistiu que eu ficasse para trás. As outras estão todas mortas.

Com a minha curiosidade satisfeita, os meus pensamentos voltaram para o local onde me encontrava, para como ia sair dali e, principalmente, para as ossadas que encontrara. Aquela mulher podia não ser uma Bruxa da Noite, mas tudo indicava que as suas intenções também não eram benévolas.

– Que sítio é este? – perguntei.

– Um velho templo construído pelas minhas antepassadas, não se sabe bem quando. Durante séculos, usou-se um olho marinho e ilusões para trazer sacrifícios humanos até aqui. Acreditava-se que estes ajudavam a chamar a atenção do Diabo e dos demónios e facilitava o lançamento de feitiços e maldições. A minha avó acabou com isso. Os desaparecimentos começaram a atrair demasiada atenção. Agora, diga-me, qual é o seu interesse nas Bruxas da Noite?

Contei-lhe tudo sobre a minha busca e os “acidentes” que lhe deram origem.

– Se as quer parar, pode contar com a minha ajuda. Venha, vou tirá-lo daqui.

Aproximei-me. Ela agarrou-me e puxou-me, através da barreira invisível, para o oceano. Após um momento de pânico, apercebi-me que conseguia respirar debaixo de água.

Através de um método de propulsão além do meu entendimento, provavelmente de origem mágica, rapidamente chegámos a uma praia. Assim que levantei o olhar, vi as torres de Ofir. Estávamos em Esposende.

– Continue a procurar as Bruxas da Noite. Se precisar de ajuda, telefone-me. – A bruxa disse-me o seu número de telemóvel, que repeti na minha mente até o memorizar.

Depois, voltou para o mar e logo desapareceu debaixo das ondas.

Tinha encontrado outra bruxa inimiga das Bruxas da Noite. Contudo, naquele momento, tinha coisas mais prementes em que pensar. Estava sozinho a mais de quinze quilómetros do meu carro. Como ia explicar a situação à minha mulher sem lhe revelar o perigoso e assustador mundo paralelo ao nosso que eu descobrira? E os meus ferimentos?

Foi a pensar nisto que deixei a praia e me adentrei pela cidade.

Capítulo 12 – A Taverna dos Encantados

As minhas primeiras buscas pelas Bruxas da Noite tinham sido infrutíferas. Embora ainda tivesse outras entradas sobre bruxas no diário para explorar, um dia, durante o intervalo para o almoço, lembrei-me de um outro sítio onde podia encontrar mais informação.

No meu primeiro encontro com Henrique Cerqueira, ele falara-me de um outro local de convívio para as estranhas criaturas que habitavam debaixo dos nossos pés em Braga. A sua localização foi provavelmente a única coisa boa que veio de eu ter conhecido o homem.

Como tal, uns dias depois, após o trabalho, dirigi-me para a loja dos chineses, uma das maiores da cidade, sob a qual o local se encontrava. Estacionei o carro no parque subterrâneo e, de imediato, comecei a procurar a grelha de escoamento que me levaria aos túneis abaixo.

Encontrei-a escondida atrás de uma coluna, como Henrique me indicara. De facto, não havia como enganar. Era a única por onde um homem adulto podia passar, pelo menos se não fosse muito gordo.

Eu tinha ido preparado com um pé de cabra e, usando-o, consegui retirar a pesada grade de ferro com relativa facilidade. Depois, baixei-me para o interior do túnel de escoamento.

Arrastando-me, comecei a descer a estreita e íngreme passagem. A princípio, esta estava revestida com cimento, mas este prontamente deu lugar a terra e lama. Felizmente, tinha mudado para roupa informal antes de sair do trabalho.

O túnel manteve a direção durante toda a sua extensão e não tinha nenhuma bifurcação, pelo que, com a ajuda da minha lanterna, não foi difícil chegar ao outro extremo.

Assim que saí da passagem, encontrei-me num novo túnel, este muito maior. Devia ter uns dois metros e meio de altura e outros tantos de largura, pelo que podia caminhar confortável através dele. Ao contrário das passagens em volta do Bar das Fadas, o chão, o teto e as paredes eram de terra, lama e pedra, com vigas de madeira aqui e ali para reforçar pontos mais críticos.

Apontei a lanterna em ambas as direções que o túnel seguia, mas não consegui ver nenhum dos extremos. Seguindo as indicações de Henrique Cerqueira, encaminhei-me para este.

Durante quase dez minutos, não vi mais do que as paredes e a escuridão além da luz da minha lanterna, até que, por fim, avistei a porta que procurava. Esta era tosca, feita de troncos de árvores unidos com pregos, e cordas prendiam-na a uma viga fazendo o papel de dobradiças.

A medo, empurrei-a até abrir uma frincha grande o suficiente para eu passar. O que encontrei do outro lado não podia ser mais diferente do Bar das Fadas.

Como o túnel atrás de mim, tratava-se de um espaço aberto no subsolo com reforços aqui e ali. A mobília era tão tosca como a porta, e o mesmo podia ser dito da clientela. Criaturas disformes, sujas e com expressões de pouca inteligência bebiam de canecas de barro mal limpas. A maior parte era maior e mais musculada do que eu, se bem que uns seres com pele verde mal me chegavam à cintura. Nunca tinha visto nenhuma daquelas raças no Bar das Fadas. Henrique chamara ao local a Taverna dos Encantados, mas era agora óbvio que se tratava de uma alcunha jocosa, pois não havia ali qualquer encanto.

Ao contrário do que acontecera nas minhas visitas ao Bar das Fadas, a minha entrada não passou desapercebida. Todos os olhos se pousaram em mim. Não estariam habituados a humanos ou estranhos em geral?

Tentando mostrar confiança, avancei até ao balcão.

– Que queres? – perguntou o taberneiro, uma enorme criatura de pele castanha com a cara deformada.

– O que tem?

Ele apontou para as prateleiras bichadas fixas à parede atrás dele, onde se encontravam várias garrafas sujas com conteúdos de cor estranha. Escolhi o que me pareceu menos intragável, e a criatura serviu-mo numa caneca.

Depois de, a custo, beber um trago da repelente mistela, passei ao assunto que me levara ali:

– Alguém aqui já ouviu falar nas Bruxas da Noite? Ou sabe algo sobre os trasgos que andam a provocar acidentes de carro?

Nunca aprendi a ser subtil.

Mal acabei de falar, uma das pequenas criaturas verdes deixou a taverna por outra porta que não aquela por onde entrei.

– Pá – disse um cliente sentado numa mesa atrás de mim – se fosse a ti, ia-me embora.

Virei-me. Todos os olhos continuavam pousados em mim, mas agora havia neles ódio.

– Não ouviste? – insistiu a criatura, levantando-se.

Era enorme, com bem mais de dois metros de altura e o dobro da minha largura, e possuía quatro musculados braços. Pegou em mim como se nada fosse e atirou-me de volta ao túnel por onde eu havia entrado.

– Sai daqui! – gritou ele.

Não tive coragem de fazer outra coisa. Comecei a afastar-me a passo. Pouco depois, ouvi a outra porta da taberna abrir-se. Olhei sobre o ombro e vi a criatura verde a voltar acompanhada por várias outras muito maiores e musculadas. Comecei a correr, não fossem perseguir-me.

Só relaxei quando voltei ao parque de estacionamento. Duvidava que eles me seguissem até à superfície. Ainda assim, entrei logo no carro e arranquei em direção a casa.

Já tinha avançado algumas centenas de metros, e deixado o meu temor para trás, quando uma figura enorme surgiu à minha frente no meio da estrada. Tratava-se da criatura que me expulsara da taberna. Tinha uma mão estendida à sua frente, pedindo-me que parasse.

Confesso que o meu primeiro instinto foi atropelá-lo, mas não fui capaz de o fazer. Travei e parei um meio metro à frente dele. Ele aproximou-se e bateu-me ao de leve no vidro. Cautelosamente, abri-o.

– É pá – disse a criatura, – desculpa lá aquilo de há bocado, mas se não te tivesse corrido dali não ias durar muito.

A minha surpresa foi tal que fiquei boquiaberto.

– Arruma aí o carro e vamos falar. Acho que te posso ajudar com as tuas perguntas.

Curioso, mas cuidadoso, assim fiz. Fomos para o jardim de um prédio próximo e sentámo-nos num banco onde ele podia ficar sentado escondido na metade escura e eu na iluminada, onde me sentia mais seguro.

– Ora muito bem, por onde começo?

Depois de uns instantes de silêncio, continuou:

– É assim, os trasgos não andam a matar os teus de propósito. As Bruxas da Noite, que são quem manda neles, não querem saber dos humanos para nada. Os acidentes são só uma maneira de destruir os seus alvos sem levantar grandes suspeitas.

Após as minhas conversas com Alice, eu já havia chegado a essa conclusão.

– Quem são essas Bruxas da Noite? O que querem?

– É pá, isso já não sei. E olha que eu e o resto da malta na taberna trabalhamos para elas. Só as vi uma vez, mas com os capuchos, e acho que são cinco. Elas andam a atacar fadas e outros dessas raças, e estão a recrutar para um exército. Eu faço parte dele. O que vão fazer com ele e porquê, não faço a mínima.

Fiquei imediatamente alarmado ao ouvir que as Bruxas da Noite estavam a reunir um exército. Como pretenderiam usá-lo?

– Sabe onde as posso encontrar? – perguntei, sem grande esperança na resposta.

– Pá, não sei. Só as vi uma vez e foi na Praça.

Não lhe perguntei onde se situava essa Praça, pois era óbvio que fazia parte dos túneis próximos da Taberna dos Encantados.

– Agora tenho de ir – disse ele, levantando-se. – Já te contei tudo o que sei.

– Espere! – pedi. – Porque me está a ajudar?

– Ó pá, não acho justo que os teus sofram sem razão. Achei que, pelo menos, merecias uma explicação.

Dito isto, a criatura adentrou-se na escuridão do fim de tarde invernal e, pouco depois, desapareceu atrás de um prédio.

Voltei para o carro e regressei a casa. Durante o percurso, a conversa não me saiu da cabeça. As Bruxas da Noite estavam a tentar enfraquecer os seus inimigos e a preparar-se para uma guerra. Perguntei-me se os desaparecimentos dos súbditos do Rei das Ínsuas e na cidade dos mortos no Gerês não teriam alguma relação. Contudo, o que mais me aterrorizava era não conseguir descobrir o seu objetivo final. Seria algo grande, isso agora era claro, mas o quê era um mistério até para os soldados delas.

As possibilidades não me deixaram dormir nem nessa nem nas noites seguintes. Mas o que descobriria por fim superou tudo o que eu imaginara.

Capítulo 11 – Bruxas Urbanas

Quando procurei no diário entradas sobre bruxas, uma em particular chamou-me à atenção. Quando pensamos em bruxas, pelo menos em Portugal, vêm-nos à cabeça imagens de mulheres em volta de fogueiras num campo abandonado ou no meio da floresta, ou curandeiros e adivinhos populares que atendem clientes nas suas caves ou em pequenos anexos. Esta entrada, porém, falava de um grupo de bruxas do Porto que se encontrava num salão de chá no coração desta que é a segunda maior cidade do país.

Não é de admirar, portanto, que, depois da entrada mais óbvia, a de Montalegre, eu tenha decidido investigar esta.

Um dia em que estava sozinho naquela cidade em trabalho, aproveitei um intervalo grande entre as minhas reuniões da manhã e da tarde para visitar o referido salão de chá.

Com a ajuda do GPS do meu telemóvel, lá encontrei a morada. Deparei-me, então, com um problema. A entrada no diário tinha vários anos, e o salão de chá já não existia. No seu lugar, erguia-se, agora um pequeno centro comercial.

Estacionei num parque próximo e entrei. Talvez conseguisse encontrar alguma pista que me indicasse qual era o novo ponto de encontro das bruxas.

Mal passei a porta, apercebi-me que aquele não era um centro comercial comum. Em vez de lojas de roupa, bijuteria, tecnologia e artigos desportivos, como na maioria de estabelecimentos do género, este tinha lojas de esoterismo, maquilhagem natural, comida biológica e artigos culturais.

Percorri os corredores e subi as escadas até ao segundo andar. Foi então que me deparei com o que procurava: um salão de chá com o mesmo nome daquele onde as bruxas se reuniam. Deviam ter reaberto no centro comercial depois de este ter substituído o salão original.

Entrei e sentei-me numa mesa. A decoração era bastante moderna: cadeiras ovais brancas, sofás de pele, mesas de um só pé. Até os pedidos eram feitos através de tablet pcs embutidos em colunas ou através de um qualquer smartphone graças a QR codes impressos nas caixas de madeira dos guardanapos.

Pedi um chá e uma tosta, que consumi relaxadamente, enquanto observava os clientes que entravam e saíam. As idades pareciam variar entre os vinte e os cinquenta e, a julgar pelas roupas, eram todas pessoas de algumas posses. Na sua maioria, eram mulheres, embora não por muito.

Durante a cerca de meia hora em que estive ali sentado, notei algo que, se não soubesse o que estava a procurar, me teria passado desapercebido. Sozinhas ou aos pares, sete mulheres na casa dos trinta, todas elas de saltos altos, bem vestidas e maquilhadas e com cabelos meticulosamente cuidados, entraram e, sem hesitar, dirigiram-se imediatamente para o andar de cima.

Felizmente, o sinal para o WC apontava para lá, pelo que tinha a desculpa perfeita para subir e confirmar as minhas suspeitas.

Subi as escadas de ferro e madeira. No topo, deparei-me com uma sala em tudo semelhante à de baixo. Das sete mulheres, contudo, não havia nem sinal.

Cuidadosamente, tentando não chamar demasiado à atenção, pois não sabia se estava a ser filmado, tentei perceber para onde podiam ter ido. No corredor que levava às casas de banho, encontrei uma terceira porta com o comum sinal dizendo “Proibida a entrada a pessoas estranhas ao serviço”. Era o único local onde, aparentemente, as possíveis bruxas se podiam ter escondido.

Encostei silenciosamente o ouvido à porta, mas não ouvi nada. Lentamente, abri uma pequena frincha e espreitei. Assim que um pouco de luz dissipou a escuridão do outro lado, vi umas escadas que levavam até uma outra porta, mais acima. Fechei a primeira atrás de mim e acendi a lanterna. Tendo cuidado para não fazer barulho, comecei a subir.

Apenas alguns degraus depois, ouvi um cântico. Quanto mais subia, mais este se intensificava. Assim que encostei o ouvido à segunda porta, apercebi-me que vinha de trás dela. Era ali que as bruxas se reuniam, não havia dúvida.

O cântico durou mais uns quinze minutos. Após uns momentos de silêncio, uma voz distante e aguda perguntou:

– Que querem de mim?

Devia tratar-se de algum espírito ou criatura que o ritual invocara.

– Tu vês mais do que qualquer uma de nós. Chamámos-te aqui para responderes às nossas perguntas – disse uma voz feminina, certamente pertencente a uma das bruxas.

Uma a uma, as mulheres puseram as suas questões. Confesso que fiquei desiludido. Com todos os mistérios sobre a história e o universo que podiam tentar deslindar, as suas perguntas foram do mais básico possível. Com quem é que fulana andava a trair o marido? Onde sicrano foi buscar dinheiro para comprar um Mercedes novo? Como fulano conseguiu conquistar a atual mulher quando era tão feio?

Fofoquices! Pessoas como aquelas não podiam ser as Bruxas da Noite. Preparava-me para ir embora, quando ouvi a voz aguda e distante dizer:

– Gostavam de saber quem está atrás da porta?

Virei-me para fugir, mas tinha apenas descido três degraus quando a porta se abriu atrás de mim e algo me empurrou. Caí pelas escadas, embatendo contra a porta inferior.

Atordoado e dorido, senti várias mãos pegarem em mim e arrastarem-me pelos degraus acima.

Após alguns minutos de recuperação, as tonturas e a névoa diante dos meus olhos dissiparam-se. Estava, agora, num pequeno quarto sem janelas, iluminado por mais de uma dezena de velas. Havia ali uma estranha mistura entre o moderno e o antigo. Tablets, no ecrã das quais se podiam ver páginas com textos escritos em estranhos caracteres, repousavam sobre um tapete gasto e cheio de marcas de queimado. No seu centro, ardia um pequeno braseiro, cujas chamas se agitavam com o sopro do ar condicionado. Cadeiras modernas, iguais às usadas no salão de chá, misturavam-se com armários que pareciam saídos de antiquários e continham uma infinidade de instrumentos ancestrais.

Sentadas no tapete, as sete mulheres rodeavam-me. Todas elas agora levavam ao pescoço amuletos enormes com um ar antigo e gasto, contrastando marcadamente com os seus vestidos modernos e saltos altos.

– Quem és tu? – perguntou-me uma das bruxas. – E porque nos estavas a escutar?

– Ando à procura das Bruxas da Noite. Conhecem-nas?

– E quem são essas? – perguntou outra bruxa. – Algumas parolas que andam por aí de noite montadas em vassouras?

As suas companheiras riram-se.

– Não nos damos com gentinha dessa – acrescentou uma terceira bruxa. – Só se for mesmo preciso.

– Agora, temos de decidir o que fazer contigo.

– Deixamo-lo ir – disse a primeira bruxa que falou.

– E se ele conta a alguém? – perguntou a mulher que levantara a questão.

– Olha para a roupa dele – respondeu-lhe a companheira. – Achas que alguém vai pôr a palavra de um Zé Ninguém como ele acima da nossa? Ia dar-nos mais problemas desfazermo-nos dele.

– Tens razão – disse outra bruxa. – Vai-te lá embora. Mas não voltes!

Assim fiz. Aquelas não eram claramente as Bruxas da Noite, pelo que não tinham qualquer interesse para mim.

Fui à casa de banho de um café próximo do centro comercial para limpar o fato e as minhas feridas da queda e encaminhei-me para a minha reunião da tarde. Ao contrário do que ocorrera nas minhas explorações anteriores, esta não suscitou nenhum pensamento ou pergunta. Aquelas bruxas eram inúteis para deslindar o mistério que perseguia.

Capítulo 10 – As Bruxas de Montalegre

Como seria de esperar, uma das primeiras referências a bruxas no diário que encontrei estava associada à localidade portuguesa mais conhecida por estas: Montalegre. De facto, a vila organiza todas as sextas-feiras treze um evento chamado Noite das Bruxas para celebrar essa mesma tradição.

Numa tarde chuvosa de sábado, em que nem a minha mulher, nem a minha filha quiseram sair de casa, dirigi-me para lá. Não havia autoestradas que levassem até Montalegre, pelo que tive de usar a nacional. Durante grande parte do caminho, a estrada era larga e bem mantida, mas algumas dezenas de quilómetros antes de chegar à vila, tornou-se estreita e cheia de curvas. Foi devagar e com muita atenção que a percorri, subindo e descendo montes cobertos de pinheiros e eucaliptos.

Finalmente, após uma última subida, deparei-me com Montalegre. Construída numa colina que se erguia sobre um vastíssimo planalto vazio e parcamente arborizado, era uma visão impressionante, especialmente num dia pardacento como aquele. No seu ponto mais alto, entre uma mistura de edifícios novos e antigos, erguia-se o castelo medieval, a sua massiva torre de menagem parecendo capaz de resistir ao próprio Apocalipse.

Segundo o diário, as bruxas da região apenas se encontravam depois de anoitecer. Estávamos quase no Inverno, pelo que não tinha de esperar muito, e decidi fazer tempo num café local.

Aproveitei a oportunidade para pedir mais informações sobre o local onde o diário dizia que as bruxas se reuniam e direções mais precisas. O empregado explicou-me como lá chegar e como seria o terreno até lá sem fazer perguntas ou colocar qualquer dificuldade. Contudo, um cliente sentado numa mesa próxima, um homem de já alguma idade com um chapéu e uma bengala pousados na cadeira a seu lado, ouviu a conversa e disse:

– Não vá lá! É onde as bruxas se juntam de noite. Se sabem que alguém andou pelo sítio delas, lançam-lhe um feitiço. Se estiverem de bom humor, só lhe dão uma caganeira, se não, dão-lhe uma doença que o enfraquece e mata. Foi assim que um vizinho meu morreu. Deu-lhe a curiosidade e…

A advertência daquele senhor não me dissuadiu de ir procurar as bruxas. Pelo contrário, apenas confirmou que estava no caminho certo.

Paguei e voltei ao carro. Conduzi, então, para este da vila, entrando na estrada que atravessava esse lado do planalto. Ali, naquele dia cinzento, não era difícil ver porque a região ganhara a sua reputação sobrenatural. Uma charneca flanqueava a estrada. Aqui e ali, crescia uma árvore e, ocasionalmente, via-se uma lagoa, mas continha sobretudo pedras e vegetação rasteira, por entre as quais se erguiam pequenas elevações. Segundo o diário, o ponto de encontro das bruxas escondia-se atrás de uma destas.

Estacionei o carro junto ao início de um trilho que, segundo o empregado do café, me levaria até lá, e comecei a segui-lo. Quase de imediato, fiquei contente por ter levado as minhas melhores botas de montanha. O caminho era irregular, cheio de pedras e enlameado. Com qualquer outro calçado teria ficado com os pés encharcados e doridos.

Demorei pouco mais de uma hora a chegar à pequena elevação que procurava. Atrás dela, encontrei um pequeno arvoredo com meia dúzia de árvores e algumas moitas. No espaço vagamente circular entre elas, encontrei as cinzas recentes de uma fogueira. Não havia dúvida de que estava no sítio certo.

O Sol já desaparecia detrás do horizonte, pelo que não devia faltar muito para as bruxas chegarem para o encontro dessa noite. Escondi-me atrás de uma moita espessa, situada do lado da clareira oposto ao do trilho, e esperei.

Passou outra hora, antes de eu começar a ouvir alguém a chegar. A noite já tinha caído em pleno, e o céu estava encoberto, pelo que ali, longe de qualquer iluminação pública, pouco mais via do que negro. Ouvi a pessoa entrar na clareira vinda do trilho, e, pouco depois, o som de toros de madeira a serem atirados ao chão. De repente, uma pequena chama acendeu-se e, instantes depois, a fogueira ardia vivamente. Junto desta, conseguia agora ver uma mulher com já alguma idade. Estava toda vestida de negro, incluindo um lenço que lhe cobria a cabeça.

Durante alguns minutos, ela ficou ali de pé, à espera. Então, uma segunda mulher, mais jovem, mas envergando roupas semelhantes, surgiu vinda do trilho. Mal tiveram tempo de trocar cumprimentos quando uma terceira e, depois, uma quarta se juntaram a elas. Os dois últimos elementos do grupo tardaram um pouco mais, mas, assim que chegaram, as seis formaram um círculo em volta da fogueira. Então, tiraram as roupas, e eu pude vê-las bem pela primeira vez.

A mais jovem teria pouco mais de vinte anos, enquanto que a mais velha já há muito teria passado dos oitenta. Ao contrário do que contam algumas lendas, não vi nenhuma marca fora do normal nos seus corpos.

Nuas, começaram a dançar em volta da fogueira, cantando algo numa língua que eu não reconheci.

A dança durou uma meia hora, os seus corpos contorcendo-se de forma caótica, mas, ao mesmo tempo, bela e quase hipnotizante. Até as bruxas mais idosas mostravam uma agilidade e flexibilidade extraordinárias, sobrenaturais, até.

Quando terminaram, prostraram-se, viradas para a fogueira. De súbito, de entre as chamas, saltou uma pequena criatura de pele vermelha viva. Tinha orelhas pontiagudas, entre as quais cresciam dois diminutos chifres, e um focinho afiado cheio de dentes como agulhas. Pequenas asas, claramente incapazes de suportar o seu corpo num voo constante, saíam-lhe das costas.

A ela, seguiram-se em rápida sucessão outras cinco. Prontamente, todas elas se juntaram às bruxas e retomaram a dança. Qual o propósito daquele ritual, não conseguia imaginar.

Havia uma semelhança óbvia entre aqueles seres e os invocados pelo culto que encontrara no convento de São Francisco, em Viana do Castelo. Contudo, na altura não me apercebi disso. Estava demasiado preocupado em descobrir se aquelas eram ou não as Bruxas da Noite. Se me tivesse apercebido, talvez algumas mortes que ocorreram mais tarde pudessem ter sido evitadas.

De súbito, uma das criaturas saiu do círculo de dança e começou a farejar o ar. Passado uns segundos, virou-se para os seus companheiros e disse:

– Não estamos sozinhos.

Um arrepio subiu-me a espinha. Estava claramente a falar de mim.

As bruxas e os restantes mafarricos interromperam a dança e os cânticos. Eu preparei-me para fugir, mas era demasiado tarde.

– Sai daí! – disse o primeiro mafarrico, com uma voz estridente, na direção da moita atrás da qual eu me escondera. – E nem penses em fugir. Eu e os meus irmãos vemos bem no escuro e somos mais rápidos do que parecemos. Apanhamos-te de certeza. E não vais gostar do que vamos fazer depois disso.

A criatura emitiu uma risada cruel.

Com um misto de medo e curiosidade, saí de trás da moita e aproximei-me da fogueira.

– É perigoso andar por estas bandas depois de anoitecer – disse uma das bruxas, uma das mais jovens, com um sorriso malicioso. – E mais ainda ficar a espreitar os nossos rituais.

– Vocês são as Bruxas da Noite? – perguntei, indo direto ao assunto.

Afinal, que mais podia eu dizer.

Ao ouvir o nome, os mafarricos rosnaram e as bruxas cuspiram para a fogueira.

– Não nos confundas com essas cabras – disse uma das bruxas mais velhas.

– Nós somos devotas do Cornudo, do Diabo, de Belzebu. É ele que nos dá os nossos poderes – explicou uma bruxa de meia-idade. – As Bruxas da Noite saíram de repente do nada e ninguém sabe de onde vem o seu poder ou quem servem. Mas não são como nós.

– Cabras! – gritou a bruxa mais idosa. – Aparecem do nada e acham-se melhores que a gente. Não vão aos Grandes Conventículos, não respeitam o nosso mestre, nem sequer nos reconhecem como irmãs.

– Qual é o teu interesse nelas? – perguntou um dos mafarricos.

Apesar de já estar habituado a falar com criaturas estranhas, hesitei durante um segundo. Havia algo de perturbador naquelas criaturas. Contudo, lá acabei por contar a história das mortes e dos trasgos e do vulto negro na casa abandonada.

Durante alguns momentos, ninguém disse nada. Acho que não sabiam bem como reagir.

Por fim, o mafarrico que me interrogou disse:

– Vai-te embora. E só te deixamos ir porque queres interferir nos planos das Bruxas da Noite. Mas não voltes.

Sem dizer mais nada, assim fiz. Já no trilho, de volta ao carro, ouvi as bruxas e os mafarricos a retomarem o seu cântico.

Durante grande parte do caminho, ao contrário do que era habitual, não consegui pensar no que acabara de descobrir. As estradas estreitas e cheias de curvas requeriam toda a minha atenção durante a noite. Porém, assim que cheguei a estradas melhores, a minha mente começou a divergir.

Aquelas não eram as Bruxas da Noite, isso ficou claro, mas o desprezo que mostraram por elas e o facto de as considerarem como uma ceita à parte foi uma descoberta importante. Infelizmente, isso não respondia ao mistério de quem eram as Bruxas da Noite, o que pretendiam e onde encontrá-las. Apenas o adensava.

Quando cheguei a Braga já era quase hora de jantar. Telefonei à minha mulher e à minha filha a perguntar se queriam refeições do Burger King. Queria compensá-las pela minha ausência.