Capítulo 10 – As Bruxas de Montalegre

Como seria de esperar, uma das primeiras referências a bruxas no diário que encontrei estava associada à localidade portuguesa mais conhecida por estas: Montalegre. De facto, a vila organiza todas as sextas-feiras treze um evento chamado Noite das Bruxas para celebrar essa mesma tradição.

Numa tarde chuvosa de sábado, em que nem a minha mulher, nem a minha filha quiseram sair de casa, dirigi-me para lá. Não havia autoestradas que levassem até Montalegre, pelo que tive de usar a nacional. Durante grande parte do caminho, a estrada era larga e bem mantida, mas algumas dezenas de quilómetros antes de chegar à vila, tornou-se estreita e cheia de curvas. Foi devagar e com muita atenção que a percorri, subindo e descendo montes cobertos de pinheiros e eucaliptos.

Finalmente, após uma última subida, deparei-me com Montalegre. Construída numa colina que se erguia sobre um vastíssimo planalto vazio e parcamente arborizado, era uma visão impressionante, especialmente num dia pardacento como aquele. No seu ponto mais alto, entre uma mistura de edifícios novos e antigos, erguia-se o castelo medieval, a sua massiva torre de menagem parecendo capaz de resistir ao próprio Apocalipse.

Segundo o diário, as bruxas da região apenas se encontravam depois de anoitecer. Estávamos quase no Inverno, pelo que não tinha de esperar muito, e decidi fazer tempo num café local.

Aproveitei a oportunidade para pedir mais informações sobre o local onde o diário dizia que as bruxas se reuniam e direções mais precisas. O empregado explicou-me como lá chegar e como seria o terreno até lá sem fazer perguntas ou colocar qualquer dificuldade. Contudo, um cliente sentado numa mesa próxima, um homem de já alguma idade com um chapéu e uma bengala pousados na cadeira a seu lado, ouviu a conversa e disse:

– Não vá lá! É onde as bruxas se juntam de noite. Se sabem que alguém andou pelo sítio delas, lançam-lhe um feitiço. Se estiverem de bom humor, só lhe dão uma caganeira, se não, dão-lhe uma doença que o enfraquece e mata. Foi assim que um vizinho meu morreu. Deu-lhe a curiosidade e…

A advertência daquele senhor não me dissuadiu de ir procurar as bruxas. Pelo contrário, apenas confirmou que estava no caminho certo.

Paguei e voltei ao carro. Conduzi, então, para este da vila, entrando na estrada que atravessava esse lado do planalto. Ali, naquele dia cinzento, não era difícil ver porque a região ganhara a sua reputação sobrenatural. Uma charneca flanqueava a estrada. Aqui e ali, crescia uma árvore e, ocasionalmente, via-se uma lagoa, mas continha sobretudo pedras e vegetação rasteira, por entre as quais se erguiam pequenas elevações. Segundo o diário, o ponto de encontro das bruxas escondia-se atrás de uma destas.

Estacionei o carro junto ao início de um trilho que, segundo o empregado do café, me levaria até lá, e comecei a segui-lo. Quase de imediato, fiquei contente por ter levado as minhas melhores botas de montanha. O caminho era irregular, cheio de pedras e enlameado. Com qualquer outro calçado teria ficado com os pés encharcados e doridos.

Demorei pouco mais de uma hora a chegar à pequena elevação que procurava. Atrás dela, encontrei um pequeno arvoredo com meia dúzia de árvores e algumas moitas. No espaço vagamente circular entre elas, encontrei as cinzas recentes de uma fogueira. Não havia dúvida de que estava no sítio certo.

O Sol já desaparecia detrás do horizonte, pelo que não devia faltar muito para as bruxas chegarem para o encontro dessa noite. Escondi-me atrás de uma moita espessa, situada do lado da clareira oposto ao do trilho, e esperei.

Passou outra hora, antes de eu começar a ouvir alguém a chegar. A noite já tinha caído em pleno, e o céu estava encoberto, pelo que ali, longe de qualquer iluminação pública, pouco mais via do que negro. Ouvi a pessoa entrar na clareira vinda do trilho, e, pouco depois, o som de toros de madeira a serem atirados ao chão. De repente, uma pequena chama acendeu-se e, instantes depois, a fogueira ardia vivamente. Junto desta, conseguia agora ver uma mulher com já alguma idade. Estava toda vestida de negro, incluindo um lenço que lhe cobria a cabeça.

Durante alguns minutos, ela ficou ali de pé, à espera. Então, uma segunda mulher, mais jovem, mas envergando roupas semelhantes, surgiu vinda do trilho. Mal tiveram tempo de trocar cumprimentos quando uma terceira e, depois, uma quarta se juntaram a elas. Os dois últimos elementos do grupo tardaram um pouco mais, mas, assim que chegaram, as seis formaram um círculo em volta da fogueira. Então, tiraram as roupas, e eu pude vê-las bem pela primeira vez.

A mais jovem teria pouco mais de vinte anos, enquanto que a mais velha já há muito teria passado dos oitenta. Ao contrário do que contam algumas lendas, não vi nenhuma marca fora do normal nos seus corpos.

Nuas, começaram a dançar em volta da fogueira, cantando algo numa língua que eu não reconheci.

A dança durou uma meia hora, os seus corpos contorcendo-se de forma caótica, mas, ao mesmo tempo, bela e quase hipnotizante. Até as bruxas mais idosas mostravam uma agilidade e flexibilidade extraordinárias, sobrenaturais, até.

Quando terminaram, prostraram-se, viradas para a fogueira. De súbito, de entre as chamas, saltou uma pequena criatura de pele vermelha viva. Tinha orelhas pontiagudas, entre as quais cresciam dois diminutos chifres, e um focinho afiado cheio de dentes como agulhas. Pequenas asas, claramente incapazes de suportar o seu corpo num voo constante, saíam-lhe das costas.

A ela, seguiram-se em rápida sucessão outras cinco. Prontamente, todas elas se juntaram às bruxas e retomaram a dança. Qual o propósito daquele ritual, não conseguia imaginar.

Havia uma semelhança óbvia entre aqueles seres e os invocados pelo culto que encontrara no convento de São Francisco, em Viana do Castelo. Contudo, na altura não me apercebi disso. Estava demasiado preocupado em descobrir se aquelas eram ou não as Bruxas da Noite. Se me tivesse apercebido, talvez algumas mortes que ocorreram mais tarde pudessem ter sido evitadas.

De súbito, uma das criaturas saiu do círculo de dança e começou a farejar o ar. Passado uns segundos, virou-se para os seus companheiros e disse:

– Não estamos sozinhos.

Um arrepio subiu-me a espinha. Estava claramente a falar de mim.

As bruxas e os restantes mafarricos interromperam a dança e os cânticos. Eu preparei-me para fugir, mas era demasiado tarde.

– Sai daí! – disse o primeiro mafarrico, com uma voz estridente, na direção da moita atrás da qual eu me escondera. – E nem penses em fugir. Eu e os meus irmãos vemos bem no escuro e somos mais rápidos do que parecemos. Apanhamos-te de certeza. E não vais gostar do que vamos fazer depois disso.

A criatura emitiu uma risada cruel.

Com um misto de medo e curiosidade, saí de trás da moita e aproximei-me da fogueira.

– É perigoso andar por estas bandas depois de anoitecer – disse uma das bruxas, uma das mais jovens, com um sorriso malicioso. – E mais ainda ficar a espreitar os nossos rituais.

– Vocês são as Bruxas da Noite? – perguntei, indo direto ao assunto.

Afinal, que mais podia eu dizer.

Ao ouvir o nome, os mafarricos rosnaram e as bruxas cuspiram para a fogueira.

– Não nos confundas com essas cabras – disse uma das bruxas mais velhas.

– Nós somos devotas do Cornudo, do Diabo, de Belzebu. É ele que nos dá os nossos poderes – explicou uma bruxa de meia-idade. – As Bruxas da Noite saíram de repente do nada e ninguém sabe de onde vem o seu poder ou quem servem. Mas não são como nós.

– Cabras! – gritou a bruxa mais idosa. – Aparecem do nada e acham-se melhores que a gente. Não vão aos Grandes Conventículos, não respeitam o nosso mestre, nem sequer nos reconhecem como irmãs.

– Qual é o teu interesse nelas? – perguntou um dos mafarricos.

Apesar de já estar habituado a falar com criaturas estranhas, hesitei durante um segundo. Havia algo de perturbador naquelas criaturas. Contudo, lá acabei por contar a história das mortes e dos trasgos e do vulto negro na casa abandonada.

Durante alguns momentos, ninguém disse nada. Acho que não sabiam bem como reagir.

Por fim, o mafarrico que me interrogou disse:

– Vai-te embora. E só te deixamos ir porque queres interferir nos planos das Bruxas da Noite. Mas não voltes.

Sem dizer mais nada, assim fiz. Já no trilho, de volta ao carro, ouvi as bruxas e os mafarricos a retomarem o seu cântico.

Durante grande parte do caminho, ao contrário do que era habitual, não consegui pensar no que acabara de descobrir. As estradas estreitas e cheias de curvas requeriam toda a minha atenção durante a noite. Porém, assim que cheguei a estradas melhores, a minha mente começou a divergir.

Aquelas não eram as Bruxas da Noite, isso ficou claro, mas o desprezo que mostraram por elas e o facto de as considerarem como uma ceita à parte foi uma descoberta importante. Infelizmente, isso não respondia ao mistério de quem eram as Bruxas da Noite, o que pretendiam e onde encontrá-las. Apenas o adensava.

Quando cheguei a Braga já era quase hora de jantar. Telefonei à minha mulher e à minha filha a perguntar se queriam refeições do Burger King. Queria compensá-las pela minha ausência.

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Capítulo 9 – Trasgos Citadinos

Mais uma vez, uma notícia num jornal local despertou a minha curiosidade. Esta reportava uma série de estranhos acidentes de automóvel que andavam a ocorrer na cidade de Braga. Todos eles aconteciam próximo do local onde os carros ficavam estacionados durante a noite e mostravam sinais de sabotagem, geralmente travões cortados. As mortes já superavam uma dezena. Segundo a notícia, a polícia acreditava que se tratava de um ou vários vândalos em série, mas ainda não tinha encontrado qualquer pista, indício ou testemunha que ajudasse a identificá-los.

Noutros tempos, teria prontamente concordado com as autoridades, mas, depois de tudo o que vira nos meses anteriores, perguntei-me se a causa não seria outra, algo associado ao outro mundo que eu havia descoberto. Como tal, uma noite em que saí tarde do trabalho, decidi fazer uma ronda pela cidade.

A pé, percorri todas a ruas em que carros costumavam ficar estacionados durante a noite, atento a qualquer movimento debaixo deles. Durante a primeira hora, não vi mais do que um ou outro animal vadio. Contudo, perto da meia noite, avistei um estranho vulto negro debaixo de um Ford Fiesta. Se eu não tivesse visto criaturas bizarras antes, podia ter pensado que se tratava de mais um gato, mas havia algo na forma daquela sombra que não parecia animal.

Aproximei-me. Lentamente, baixei-me, e, ligando rapidamente a lanterna, espreitei para baixo do carro. O que encontrei, realmente, não foi um gato, mas sim um trasgo, como os que eu ajudara a libertar da casa dos Cerqueira. Estava, claramente, a tentar romper parte das tubagens e cablagens na parte de baixo do carro.

Alarmado, o ser tentou fugir. Agarrei-o por um braço. Se o capturasse, talvez pudesse encontrar alguém que conseguisse comunicar com ele e perceber porque estava a fazer aquilo. Contudo, o trasgo prontamente me mordeu a mão, obrigando-me a largá-lo. Ainda corri atrás dele, mas, usando os seus quatro membros, era muito mais rápido do que eu. Perdi-o, por fim, quando ele subiu a parede do terreno adjacente a uma das torres medievais da cidade. Para além de ser demasiado alta para eu escalar, tratava-se de propriedade privada habitada, que eu não me atrevia a invadir.

O encontro, contudo, não foi infrutífero. Quando agarrei o braço da criatura, apercebi-me que este tinha uma marca constituída por um círculo com um C invertido gravado na pele. Decidi, então, ir até ao Bar das Fadas procurar Alice na esperança que ela soubesse do que se tratava e isso me desse alguma pista sobre a origem e objetivos daquele trasgo.

Como esperava, e como em quase todas as minhas visitas ao Bar das Fadas, encontrei Alice sentada ao balcão. Sentei-me ao lado dela. Depois da nossa aventura na casa dos Cerqueira, ela já não parecia tão ressentida com o nosso primeiro encontro, pelo que não tive dificuldade em iniciar a conversa. Depois dos cumprimentos iniciais, falei-lhe dos acidentes, das mortes, da minha vigília e do meu encontro incriminatório com o trasgo.

– Já ouvi falar desses acidentes – disse ela. – Quase todos os carros bateram em sítios habitados por algumas das nossas raças mais pequenas. Aquele que derrubou a parede do Palácio dos Biscainhos destruiu uma comunidade inteira de fadas que fizeram casa no interior oco. A Marta, a fada que foi connosco à quinta dos Cerqueira, perdeu a família toda. Que tenha sido um trasgo a causar os acidentes pode ser uma revelação importante.

Fiquei em silêncio durante um instante, tentando digerir o que acabara de ouvir. As mortes podiam ter sido apenas danos colaterais de alguém a tentar disfarçar atentados contra as fadas como acidentes. Contudo, isso não reduzia a minha vontade de encontrar o responsável. Antes pelo contrário.

Contei, então, a Alice sobre marca que vi no braço do trasgo. Ela olhou para mim com uma expressão grave.

– Eu já vi essa marca antes – disse ela. – Nos trasgos que libertámos da quinta dos Cerqueira.

Nesse momento, fiquei sem pinga de sangue. Uma, talvez mais, das criaturas cuja libertação eu promovera e ajudara, podia ser responsável por mais de uma dezena de mortes. Era difícil não sentir que o sangue deles estava nas minhas mãos.

– Tens a certeza? – perguntei, procurando uma brecha por onde escapar à minha culpa.

Ela apenas acenou com a cabeça, em silêncio.

Levantei-me imediatamente e voltei para as ruas de Braga, mais decidido do que nunca a descobrir a razão para todas aquelas mortes.

Dirigi-me à rua onde encontrara o trasgo. Com sorte, tinha-o interrompido antes de ele acabar a sua sabotagem e voltaria para terminar o trabalho.

Esperei, imóvel, sob a sombra de uma árvore, na esperança que a escuridão me escondesse. Estive ali quase uma hora, antes de o trasgo voltar, saído de uma quelha próxima. Assumi que era o mesmo, pois dirigiu-se para o mesmo carro. Desta vez, não interrompi o seu trabalho. Queria que terminasse para segui-lo e ver para onde iria depois. Havia ali algo mais, tinha de haver, e ia descobrir o que era, ou a culpa seria minha… Mais tarde deixaria no para-brisas uma mensagem a avisar o condutor do carro.

A criatura nem cinco minutos esteve debaixo do veículo. Correu para a quelha de onde emergira e, desta vez, consegui ir atrás dele. Estava preocupado em não perdê-lo, como da última vez, felizmente, a perseguição não foi longa. Vi-o a subir a parede traseira de uma casa abandonada nas Carvalheiras – um largo situado no outro extremo da quelha – e a desaparecer na escuridão atrás das grades que delimitavam o jardim, construído sobre a garagem. Conhecia bem aquela casa, já a tinha visitado com o grupo de exploração urbana, pelo que sabia como entrar. Não tinha a agilidade nem as garras do trasgo, porém, subindo para cima de uma caixa de eletricidade, consegui alcançar um espaço entre as grades largo o suficiente para eu passar.

Como era habitual em casas abandonadas há muito tempo, esta havia sido vandalizada. A porta traseira tinha sido arrombada. Entrei. Peguei na minha lanterna, mas não me atrevi a acendê-la. Não queria assustar quem ou o que lá estivesse, pelo menos não antes de eu descobrir o que se passava. Ainda assim, a luz da lua, das estrelas e até da iluminação pública que entrava pelas janelas partidas iluminava o interior o suficiente para eu ver o que me circundava.

O chão do vestíbulo estava pejado de folhas, provavelmente trazidas pelo vento através da porta. Felizmente, também estava coberto de pó, no qual se viam, distintamente, várias pequenas pegadas, que assumi serem de trasgo. Segui-as até à escadaria que levava ao piso superior, ignorando duas portas abertas para salas que, pelo pouco e empoeirado mobiliário que ainda continham, eram de estar e de jantar.

As escadas de madeira rangentes levaram-me até ao corredor do andar superior, onde se alinhavam várias portas abertas ou arrombadas. A luz que saía destas era suficiente para eu ver o que me rodeava. Como no andar de baixo, o corredor estava coberto de pó, e neste continuavam a ver-se as pegadas de trasgo. Segui-as até um dos quartos.

Mal cheguei à porta, vi pequenos vultos, certamente trasgos, a correr e desaparecer pela porta que levava à varanda. Esta, porém, enquadrava uma forma maior, talvez até mais alta do que eu. Não parecia particularmente incomodada com a minha presença, pois não moveu um só músculo quando entrei no quarto.

Um capuz e uma capa cobriam-lhe todo o corpo e, com a escassa iluminação, era impossível eu conseguir ver o que se encontrava debaixo.

– Quem é você? – perguntei. – O que pretende?

Só podia ser este vulto quem controlava os trasgos, pelo que era altura de eu obter algumas respostas sobre os acidentes e as mortes.

– Vai-te embora – respondeu a criatura com uma voz feminina e rouca. – Isto não tem nada a ver contigo nem com os da tua raça. Esquece tudo o que viste.

– Mas… – comecei eu, mas ela virou-me costas e avançou para a varanda.

Corri atrás dela, disposto a lutar se fosse preciso, para obter respostas. Contudo, mal chegou ao exterior, ela começou a pairar. A surpresa fez-me hesitar momentaneamente, tempo suficiente para a criatura se elevar no céu noturno, bem acima da casa. Vi-a, então, voar em direção a oeste, desaparecendo pouco depois detrás dos prédios que ocultavam o horizonte.

Frustrado, deixei a casa e encaminhei-me de novo para o Bar das Fadas. Talvez Alice soubesse quem ou o que era aquele ser encapuçado.

Ela ainda lá se encontrava, sentada ao balcão, no mesmo sítio. Sentei-me a seu lado e, antes de ela ter tempo de dizer alguma coisa, contei-lhe o que tinha acabado de descobrir. Quando lhe falei da figura encapuçada e de como esta levantara voo, uma expressão aterrorizada apareceu na sua face.

– Bruxas da Noite – sussurrou ela, como se tivesse medo de dizer o nome em voz alta.

– Quem são as Bruxas da Noite? – perguntei, alarmado com a sua reação.

– A lenda das Bruxas da Noite é muito antiga. Diz-se que são criaturas misteriosas que atacam algumas das nossas raças. Como é normal nestas coisas, há várias histórias de avistamentos, se bem que ultimamente tem-se ouvido mais. Nunca lhes dei muita importância. Mas, agora, com o que me contaste…

Continuámos a conversar sobre as Bruxas da Noite durante mais algum tempo. Infelizmente, as histórias que ela conhecia não eram muito úteis. Frequentemente, contrariavam-se umas às outras. Mas é essa a natureza das lendas.

Deixei o Bar das Fadas decidido a encontrar e fazer o que pudesse para parar as Bruxas da Noite. Quando cheguei a casa, a minha mulher já tinha adormecido. Eu ligara-lhe a dizer que ia trabalhar até tarde. Não me juntei a ela de imediato. Sentei-me à secretária com o diário que havia encontrado, procurando por todas as entradas sobre bruxas. As minhas próximas expedições iam centrar-se nelas.

Capítulo 8 – A Organização

Após a minha descoberta do diário, tinha praticamente abandonado a exploração urbana. Contudo, uma notícia num jornal diário minhoto despertou, de novo, esse meu interesse.

Um navio destinado ao porto de Viana do Castelo havia afundado na foz do rio Lima. Curiosamente, este afundara de proa, ficando a popa e a metade de trás fora de água quase na vertical. A óbvia oportunidade para exploração não me passou despercebida. 

Logo no fim de semana seguinte, fui até Viana. Para meu alívio, desta vez não tive de mentir nem esconder a verdade da minha mulher. Ela estava bem ciente do meu interesse pela exploração urbana. Não gostava de a enganar, e de certeza que ela já começava a desconfiar de algo.

Encontrei-me com um velho amigo que me emprestou um barco (o mesmo que eu usara para explorar o Camalhão e encontrar o Rei das Ínsuas) e, quando anoiteceu, remei até ao navio naufragado.

Ocorreu-me, então, que podia ter convidado o resto do grupo de exploração urbana de Braga. Já estava tão habituado a fazer as expedições baseadas no diário sozinho que, desta vez, nem me lembrei deles. E ainda bem, como estava prestes a descobrir. 

Já perto do navio, com a ajuda da minha lanterna, procurei um sítio por onde entrar. Não demorei muito a encontrar uma vigia situada pouco acima da linha de água. Aproximei-me e, com o cabo da lanterna, parti o vidro. Tive alguma dificuldade em passar pela exígua vigia, mas acabei por conseguir.

Mal pousei os pés no chão metálico, apontei a lanterna à minha volta. Estava numa cabine. A primeira coisa que me saltou à vista foi que esta não possuía qualquer mobília. Contudo, esse não era o elemento mais estranho daquela divisão. Para minha surpresa, a porta encontrava-se na vertical. Como o navio tinha afundado de proa, eu devia estar sobre uma das paredes. Portanto, era como se aquela cabine estivesse preparada para se inclinar noventa graus.

Aproximei-me da porta e, cautelosamente, abri uma frincha. Do outro lado não encontrei nada senão escuridão, pelo que abri a porta um pouco mais e apontei a lanterna para o exterior. Vi, então, um corredor onde se alinhavam várias outras portas. Saí e comecei a abri-las. Atrás de cada uma delas apenas encontrei cabines vazias que pouco diferiam daquela por onde tinha entrado.

Finalmente, após uma curva no corredor, avistei um brilho à distância. Aproximei-me e encontrei uma porta estanque entreaberta. Era de trás dela que vinha a luz. Abri-a, esperando revelar outro corredor, mas o que encontrei foi algo que nunca tinha imaginado. 

À minha frente, estava, agora, um enorme espaço aberto, que devia ocupar grande parte da metade submersa do navio. Escadas metálicas desciam até uma rede de plataformas e passagens e, por fim, até ao chão. Este era formado por terra lamacenta que, àquela profundidade, só podia ser o leito do rio. Sobre ele, e nas plataformas, homens, gruas e retroescavadoras abriam um enorme buraco.

Após ver gigantescas dobradiças e pistões hidráulicos presos ao interior do casco, percebi que aquele navio estava não só preparado para se virar num ângulo de noventa graus, como também podia abrir a proa para explorar o fundo. Imediatamente, perguntei-me do que estariam à procura, mas um golpe na cabeça fez-me perder os sentidos e impediu-me de ir logo em busca da resposta. 

Quando voltei a mim, encontrava-me numa das cabines pequenas e vazias dos níveis superiores. Esta, porém, não tinha vigias, e a parca iluminação provinha apenas de uma luz que entrava por baixo da porta. Procurei nos bolsos, mas tudo o que tinha neles (telemóvel, lanterna, canivete, carteira, chaves) havia desaparecido.

Não sei quanto tempo mais estive ali até ouvir a porta a ser destrancada. Esta abriu-se logo em seguida, revelando quatro homens. Três deles envergavam uniformes cinzento escuros, incluindo botas e boinas, e empunhavam espingardas de assalto. Eram claramente militares, mas não tinham nenhuma insígnia que identificasse o seu país ou serviço.

O quarto homem, porém, vestia fato e gravata negros e uma camisa branca. Tinha cabelo curto bem penteado, com vestígios de gel, e não seria muito mais velho do que eu, provavelmente no início da casa dos quarenta. De facto, ele parecia um dos homens de negócios com que me cruzo diariamente na empresa.

Fazendo sinal aos soldados para ficarem no corredor, o homem de fato entrou na cabine e aproximou-se de mim.

– O meu nome é Almeida e sou o encarregado desta investigação – disse, estendendo-me a mão. 

Por mero hábito, cumprimentei-o. Ele meteu, então, as mãos nos bolsos das calças.

– Eu sou… – comecei a dizer. 

– Eu sei – interrompeu-me Almeida. – Sabe, o seu blogue não nos passou despercebido.

Aquela afirmação apanhou-me de surpresa. De facto, eu tinha um blogue pouco lido onde escrevia sobre as minhas explorações (podem encontrá-lo em http://www.terceirarealidade.wordpress.com mas, como perceberão de seguida, não é uma fonte muito fidedigna). No entanto, nunca ninguém me tinha identificado como o autor.

– Não precisa de ficar tão surpreendido. As suas atividades são de grande interesse para nós.

– Porquê? – foi a única coisa que me lembrei de dizer.

– Blogues podem ser uma boa ferramenta para descredibilizar os acontecimentos que são nossa responsabilidade esconder. Quantos mais aparentes maluquinhos escreverem sobre estes temas, menos o público acredita neles. 

Não precisei de ouvir mais nada para perceber quem eram aqueles homens. Pertenciam, certamente, à organização de que Alice me falara, encarregada de esconder o mundo que existe paralelo ao nosso. 

– Aliás, tenho uma proposta para si – continuou Almeida. – Se concordar em acrescentar artigos e alterar os escritos por si segundo as nossas instruções, estou disposto a mostrar-lhe o que encontrámos aqui. Se não, lembre-se de que podemos fazer o seu blogue desaparecer e dificultar muito a sua vida e a da sua família. 

Olhando para os soldados atrás dele e pensando em todos os recursos que vira a escavar o leito do rio, já para não falar do navio em si, não duvidava de que ele fosse capaz de cumprir a sua ameaça. Além disso, eu escrevia o blogue mais para passar o tempo do que para ser lido, pelo que a veracidade do que lá estava escrito não era de grande importância para mim. Acabei por aceitar a proposta de Almeida. 

– Ótimo! – respondeu ele. – Venha comigo. Estamos quase a encontrar o que viemos aqui procurar. 

Ele levou-me de volta aos corredores e, através deles, até à enorme câmara onde decorria a escavação. De uma plataforma, observámos os trabalhos. A nosso lado, um ecrã mostrava o que eu deduzi ser uma imagem do subsolo obtida por algum tipo de sensor. Nesta, via-se claramente uma enorme mancha branca que só podia ser o que aqueles homens procuravam. Almeida não me disse do que se tratava, e eu também não perguntei. Afinal, a julgar pela imagem, ia descobrir em breve. 

Minutos depois, algo surgiu. Por entre a lama escura, via-se, agora, um ponto branco. As máquinas afastaram-se e pararam, sendo a escavação retomada por homens com pás. 

Aos poucos, o objeto misterioso foi sendo revelado. A cada segundo que passava, parecia maior. À distância a que me encontrava era difícil ter a certeza, mas a matéria branca que o formava parecia ter uma textura estranha, semelhante a pele. De facto, sempre que um dos escavadores lhe tocava, esta mostrava alguma elasticidade.

Quando, ao fim de mais de uma hora, o objeto ficou completamente descoberto, não sabia bem para o que estava a olhar. Por um lado, parecia um animal do tamanho de um cachalote, com a pele coberta por uma substância viscosa de origem claramente orgânica. Por outro, tinha uma forma triangular com os cantos arredondados tão regular que não parecia de origem natural. 

Os homens de Almeida, pacientemente, escavaram por baixo do objeto e passaram cintas, do que imagino ser kevlar, de um lado ao outro. Depois, prenderam os dois extremos ao gancho de uma grua. Esta, lenta e cuidadosamente, começou a levantá-lo, tendo como objetivo uma plataforma não muito longe daquela onde nos encontrávamos. Quando passou junto a nós, porém, a “pele” do objeto começou a mexer-se, primeiro ligeiramente, e depois, violentamente. Parecia que algo estava a tentar sair do interior. Os soldados apontaram-lhe as armas.

– Não disparem – ordenou Almeida. 

A nossa suspeita confirmou-se segundos depois, quando uma mão terminada por garras rompeu a superfície. Antes de alguém conseguir reagir, de dentro do objeto saiu uma criatura negra vagamente humanoide. Era maior do que um homem, com uns dois metros de altura, e possuía braços tão longos que tocariam no chão caso se erguesse sobre ele. Fitou-nos com os seus olhos amarelos e depois saltou na nossa direção.

– Disparem! – gritou Almeida.

Balas zumbiram em direção à criatura, passando desconcertantemente perto de nós, mas nenhuma pareceu atingi-la. Impulsionada pelas suas poderosas pernas, esta alcançou a nossa plataforma, empurrando-me e atirando-me ao chão. Tenho de confessar que estar ali prostrado aos pés daquele ser foi um dos mais assustadores momentos da minha vida, pelo menos até então. Aquelas garras e presas podiam desfazer-me num instante. Felizmente, a criatura não se demorou e correu escadas acima.

– Atrás dele! – ordenou Almeida. – Não o deixem sair do navio.

Os soldados assim fizeram. Almeida seguiu logo atrás. Quando me consegui levantar e recuperar, já eles tinham desaparecido atrás da porta estanque que levava aos níveis superiores. Corri atrás deles. Seguindo os ruídos de botas nas passagens de ferro, percorri corredores e subi escadas até chegar ao exterior. Encontrei-os no que só posso chamar de convés situado sobre a parte de trás da ponte do navio. Estavam debruçados sobre a amurada, apontando as armas para água. Juntei-me a eles.

– Ele saltou para o rio – disse-me Almeida.

Juntamente com eles, comecei a procurar a criatura por entre as águas. Ela ressurgiu, momentos depois, nas escadas altas de cimento que sustentavam a margem do rio. Com a biblioteca de Viana logo acima, os homens da Organização não se atreveram a disparar, e a criatura desapareceu para o interior de uma das quelhas da cidade.

– Vamos ter de o perseguir pela cidade – disse Almeida, mais para si mesmo do que para os que o rodeavam. – Baixem o barco.

Depois, virou-se para mim:

– Conhece Viana?

– Cresci aqui – respondi.

– Então vai ter de vir connosco.

Os soldados voltaram para o interior pela mesma porta por onde saí. Pouco depois, vi a parede a mover-se. Uma secção inteira deslizou para o lado, revelando um porão contendo vários barcos semirrígidos. Os soldados pegaram num em peso e levaram-no até à amurada. Ao pressionar um botão, esta inclinou-se e rodou, formando uma rampa através da qual o barco foi levado até à água.

Depois de embarcarmos, foi uma questão de pouco mais de um minuto até chegarmos à margem. Desembarcámos aproximadamente no mesmo ponto onde a criatura subira a terra e seguimo-la para o interior da quelha.

Como esperava, ela já lá não se encontrava. Os soldados apontaram as lanternas para os outros três becos que desembocavam naquele, mas não viram nenhum sinal do nosso alvo. Estes pareciam bastante experientes em situações daquelas, pois, sem esperar por uma ordem de Almeida, começaram à procura de pistas que indicassem para onde a criatura podia ter ido. Não tardaram a encontrar umas marcas no estuque meio caído de uma casa próxima. Tratavam-se de buracos enormes a espaços mais ou menos regulares.

– Subiu para os telhados – disse Almeida, verbalizando o óbvio.

Olhámos todos para cima, mas é claro que a criatura já lá não estava. Contudo, sabíamos agora que sinais procurar. Numa quelha adjacente, encontrámos fragmentos de telhas que não pareciam estar lá há muito tempo. Noutra, paralela à segunda, encontrámos o mesmo. Numa transversal a esta última, uma parede mostrava marcas na parte superior. Seguindo estas pistas, acabámos por avistar um vulto que se movia por entre os telhados da cidade. Quando estávamos a passar diante da Igreja Matriz, ele até saltou por cima de nós, aterrando dentro da torre sineira. Contudo, não ficou lá muito tempo, pois prontamente saltou para o telhado da igreja e passou para o edifício atrás.

Almeida e os seus homens começaram a descer a rua, certamente indo em busca de uma passagem através da qual pudessem seguir na mesma direção da criatura, mas eu chamei-os:

– Por aqui.

Tomando uma quelha escondida ao lado da igreja, conseguimos seguir paralelos à criatura. Quando emergimos para uma rua maior, estávamos à frente dela.

Finalmente, chegámos ao largo situado ao lado do antigo mercado, no centro do qual se encontrava a Capela da Almas. Numa tentativa de nos prepararmos para todos os possíveis movimentos da criatura, avançámos até meio caminho entre o fim da rua e a capela. Dali, podíamos segui-la rapidamente fosse para onde fosse. Por sorte, o ser saltou diretamente para cima da capela. Com rapidez e precisão militar, os soldados da Organização cercaram o edifício antes de ele ter tempo de passar para o próximo.

– Abatam-no – ordenou Almeida, quando o ser começou a ganhar balanço para um novo salto.

As automáticas abriram fogo. Apesar de ter algum interesse em armas, não fazia ideia que modelo era aquele. Não faziam barulho quase nenhum ao disparar. Não que vivesse muita gente naquela parte da cidade para as ouvir.

Ao ser atingida pelas primeiras balas, a criatura interrompeu o salto e tentou encontrar refúgio, mas soldados cobriam todos os ângulos daquele telhado. Balas e mais balas alojaram-se no seu corpo, até que, finalmente, caiu do telhado. Ainda assim, aquilo não estava terminado. O ser levantou-se e, com um rosnar, avançou na direção de um dos soldados. Almeida tirou uma pistola de um bolso interior do casaco e juntou-se aos seus homens, cercando a criatura. Perante o fogo cruzado, esta não resistiu e, por fim, tombou, ficando imóvel no chão.

Num movimento quase mecânico, sem hesitar e nem sequer pensar, um dos soldados tirou um plástico negro da mochila, aproximou-se do corpo e cobriu-o.

– Pode ir – disse-me Almeida, guardando a pistola e enfiando as mãos nos bolsos das calças. – Nós agora vamos proceder à limpeza. Entraremos em contacto para lhe dizer o que queremos que altere no seu blogue.

Como é óbvio, estava cheio de perguntas. O que era aquela criatura? O que estava a fazer no fundo do rio? O que era aquela coisa dentro da qual se encontrava? E a Organização, fora criada por quem? A quem respondia? Quem a financiava? Contudo, não me parecia que Almeida fosse responder a nada, pelo que deixei o local e fui recuperar o barco do meu amigo.

Mais uma vez, no caminho de volta a casa, a minha mente estava perdida nas possíveis explicações para o que havia visto. Cheguei a casa quase sem notar e só quando o portão da garagem se começou a abrir é que percebi que tinha estado fora muito mais tempo do que esperara. Que desculpa ia dar à minha mulher?

Capítulo 7 – Os Cerqueira

Um dia, depois do trabalho, alguns meses após a minha primeira visita ao Bar das Fadas, decidi lá voltar. Devido ao trabalho e a compromissos familiares, já há algum tempo que não tinha a oportunidade de investigar uma das entradas do diário, mas a minha curiosidade começava a tornar-se insuportável. O Bar das Fadas ficava perto do escritório onde trabalhava, pelo que era o local ideal para uma visita rápida. Quem sabe, talvez encontrasse lá alguém que pudesse responder a algumas das minhas perguntas ou até surgisse a oportunidade de visitar os túneis escondidos debaixo de Braga.

Como antes, acedi ao bar através das escadas situadas atrás de uma porta nos fundos de uma pastelaria junto ao Arco da Porta Nova. Quando lá cheguei, deparei-me com uma cena semelhante à da minha primeira visita. Havia apenas uma diferença significativa. Sentado ao balcão, encontrava-se um homem. Alice dissera-me que era raro aparecer alguém da minha raça ali, pelo que me aproximei devagar, observando-o atentamente para me certificar que não era apenas uma outra criatura semelhante a um humano. Assim que tive a certeza de que não estava enganado, sentei-me a seu lado.

Ele pareceu tão surpreendido como eu por ver ali outro humano. Chamava-se Henrique Cerqueira e, embora tivesse conhecimento daquele outro mundo há mais tempo, não parecia saber muito mais do que eu. Ainda assim, trocámos impressões enquanto bebíamos um copo daquela água que era a única bebida servida no bar. Ele não costumava sair de Braga, pelo que desconhecia tudo aquilo que eu encontrara fora dela, mas falou-me de um outro sítio parecido com o Bar das Fadas no outro lado da cidade, embora me tivesse avisado que não era tão bem frequentado. Não havia menção a esse local no caderno que eu encontrara, pelo que tomei uma nota mental para o visitar depois.

A nossa conversa viu-se interrompida, ao fim de pouco mais de uma hora, por um telefonema da minha mulher. Tive, então, de ir para casa, mas não antes de Henrique me dar o seu número de telemóvel e me convidar a ir um dia almoçar a sua casa. Talvez por ter finalmente encontrado alguém com quem podia falar daquele mundo que a maioria das pessoas desconhecia e em que provavelmente se recusariam a acreditar, fiquei expectante quanto a essa minha visita. 

Infelizmente, só pude aceitar o convite quase três semanas depois, quando a minha mulher teve de ir para fora em trabalho e a minha filha foi passar uns dias a casa de uma amiga.

Conduzi até à antiga freguesia de Dadim, onde se situava a casa de Henrique. Esta não foi difícil de encontrar. Seguindo pelo caminho que me ele havia indicado, dei imediatamente de caras com uma casa isolada, um pouco acima da base de uma colina coberta por uma floresta. À frente dela, estendia-se um vale que eu nunca me apercebera que existia, pois encontrava-se numa depressão que não era visível da estrada. Uma parede de granito delimitava-o juntamente com a casa, indicando que tudo aquilo pertencia aos Cerqueira.

Conduzi até à entrada e toquei à campainha, uma voz perguntou através do intercomunicador quem era e, assim que respondi, o portão abriu-se.

Mesmo estando de carro, ainda me levou uns cinco minutos  a percorrer o caminho de terra batida, que serpenteava entre socalcos cobertos de vinhedos.

Depois de uma última curva, cheguei à casa. De tão perto, era verdadeiramente impressionante. Tinha apenas um piso, à exceção da torre no lado direito, que se erguia mais um andar, embora o sótão também aparentasse ser espaçoso. Toda a frente da casa era ocupada por um enorme alpendre, cujo teto se apoiava em várias colunas de ferro fundido. Atrás dele, janelas ocupavam quase toda a parede, também elas de ferro fundido e decoradas com diversas formas.

Parei o carro em frente à escadaria que subia até à porta principal, onde me esperava Henrique e o resto da família Cerqueira.

– Seja bem-vindo à Vila Marta – disse Henrique, com um sorriso, quando subi as escadas.

Depois, apresentou-me a sua família. Entre crianças e adultos, estavam ali umas vinte pessoas.

Da entrada passámos para o vestíbulo, onde deixei o casaco, e dali para a sala de jantar. Lá, encontrava-se uma enorme mesa, com dez cadeiras de cada lado. Como convidado, deram-me um lugar no início da mesa, em frente a Henrique. À nossa direita, na cabeça da mesa, sentou-se a mãe de Henrique, a matriarca da família, enquanto que o resto da família se sentou nos restantes lugares, à esquerda.

Passado pouco tempo, uma empregada idosa, mais velha do que qualquer um dos comensais, começou a trazer travessas da cozinha. A conversa iniciou-se com as habituais trivialidades sobre emprego, família e até o tempo. Depois, desviou-se finalmente para o mundo paralelo ao nosso, de que toda a família tinha conhecimento. 

– Como encontrou o Bar das Fadas e todos os outros sítios que o Henrique me disse que visitou? – acabou por perguntar a matriarca.

Contei-lhe a história sobre como encontrei o caderno que me tinha levado àquelas descobertas.

– No nosso caso, é uma herança de família – explicou Henrique. – Ninguém sabe ao certo há quantas gerações temos esse conhecimento. 

A conversa passou a ser, então ,sobre criaturas estranhas e lugares escondidos da vista da maioria dos homens. Todos contribuíram com algo e fiquei a conhecer até coisas que não constavam do caderno.

O almoço estendeu-se quase até às quatro da tarde, hora a que os comensais se começaram a levantar. Henrique levou-me até à sala de estar, onde nos sentámos a beber um whisky mais velho do que eu. Através das amplas janelas, viam-se os vinhedos em frente à casa.

Por entre bebidas, Henrique contou-me como aquelas vinhas eram a origem da riqueza da família desde tempos imemoriais.

Foi então que reparei em algo peculiar.

– Onde estão os trabalhadores? – perguntei, estranhando a falta de movimento nos campos. – De certeza que precisam de muita mão de obra para manter um vinhedo tão grande.

– Aqui, o trabalho é feito de noite – explicou ele. 

– De noite? – perguntei, confuso. 

– Venha – pediu ele, levantando-se da poltrona.

Henrique levou-me para o corredor e, através dele, até ao andar térreo da torre. Lá, desviou uma estante cheia de livros, revelando um estreito túnel contendo uma escadaria que descia, em curva, até desaparecer de vista. Conduzido pelo meu anfitrião, desci até ao fundo, onde nos deparámos com uma porta de madeira e ferro que já devia ter décadas, se não séculos. Apesar da sua idade, Henrique abriu-a sem qualquer dificuldade, dando acesso a uma enorme cave que devia ocupar toda a área da casa. 

Atravessámos os estreitos corredores criados entre sacos de fertilizante, túneis e pipas de vinho, garrafas vazias e cheias e utensílios agrícolas até chegarmos ao lado da cave oposto àquele por onde entrámos. Lá, encontrámos uma parede interrompida apenas por uma porta gradeada. Foi até ela que Henrique me levou.

Quando espreitei por entre as grades, fiquei sem saber o que dizer. Do outro lado, encontrava-se um pequeno quarto do qual emanava um cheiro pungente. No meio do chão, quase às escuras, amontoavam-se dezenas de pequenas criaturas, que não teriam mais de um metro de altura. A sua pele era cinzento azulada, e cabelo negro, longo e emaranhado descia-lhes pelas costas. Garras terminavam-lhes os pés e as mãos. 

– Não se encontra mão de obra mais barata em lado nenhum – disse Henrique, claramente orgulhoso. – Um balde de carne cozida todas as noites e estão prontos para trabalhar. 

Não sabia como responder. Aquelas criaturas não eram humanas, bem sei, nem conhecia o seu nível de inteligência, mas, de qualquer forma, tudo aquilo me parecia errado. 

Henrique notou o meu desconforto e levou-me de novo para a sala, para acabarmos as nossas bebidas. Ainda lá fiquei durante quase mais uma hora. Pouco falámos. Por fim, desculpei-me que se estava a fazer tarde e deixei a quinta. 

A caminho de casa, não conseguia esquecer o meu desapontamento. Tinha encontrado alguém com quem podia falar daquele mundo oculto, mas ele usava esse mundo em proveito próprio.

Durante essa noite, mal dormi, pois não conseguia expulsar a imagem daquelas criaturas presas na cave. Mesmo no dia seguinte, durante o trabalho, não conseguia esquecer. Como tal, e apesar de estar sobrecarregado com trabalho, depois da hora de expediente fui até ao Bar das Fadas. Tinha esperança de encontrar Alice para lhe contar o que vira.

Abri a porta que dava acesso ao bar com cuidado. Não me queria deparar com Henrique Cerqueira. Felizmente, não havia nem sinal dele. Por outro lado, Alice estava sentada ao balcão quase no mesmo sítio onde a vi pela primeira vez. Aproximei-me e sentei-me no banco mesmo ao lado dela. 

– Olá – disse eu.

– Olá – respondeu ela sarcasticamente.

Claramente não havia esquecido a minha saída repentina da última vez.

Comecei a contar-lhe o que tinha visto na casa dos Cerqueira. Embora, a princípio, não se tivesse mostrado muito interessada, acabei por lhe captar a atenção. 

– Pelo que dizes, eles usam trasgos para trabalhar os campos. Não são das criaturas mais inteligentes, nem das mais agradáveis, mas não merecem ser tratados assim. Volta aqui logo à noite. Vou ver se encontro alguém para nos ajudar. 

Eu concordei. Depois de jantar, disse à minha mulher e filha que tinha de ir ao escritório trabalhar para poder sair sem levantar muitas suspeitas. De facto, não era propriamente mentira. Eu devia ter ido trabalhar essa noite, mas não podia deixar que os Cerqueira continuassem a abusar daquelas pobres criaturas.

Quando voltei ao Bar das Fadas, este estava quase vazio. Para além de um ou outro cliente solitário, encontrava-se lá um grupo de cinco criaturas, do qual Alice fazia parte. Ela chamou-me e pediu-me que contasse aos outros o que tinha visto. 

Enquanto contava, mais uma vez, o que vira na casa dos Cerqueira, observei os meus novos companheiros. Um deles, um homem, devia ser da mesma raça de Alice, pois tinha o mesmo cabelo branco, pescoço comprido e olhos felinos que ela. Outro, era pequeno, mal me chegava à cintura, e possuía uma pele amarela e laranja. Em contraste, a seu lado, encontrava-se uma mulher muito alta e esguia, de pele azul e olhos grandes, com vários desenhos negros na cara que não consegui perceber se eram naturais ou tatuagens. Por fim, numa mesa próxima, sentava-se uma diminuta criatura que se assemelhava muito à ideia popular da fada. Nas costas, cresciam-lhe asas semelhantes às de uma libélula, e pequenas escamas multicoloridas cobriam-lhe a parte de trás do pescoço e dos braços.

Quando acabei a minha história, todos prontamente concordaram em ajudar a libertar os trasgos. Em seguida, Alice liderou-nos até uma das portas que levavam aos túneis onde os das suas raças habitavam. Desde que descobrira o bar, que os queria visitar. Só gostava que as circunstâncias tivessem sido outras. 

A porta, após uma curta passagem, desembocava num túnel largo e alto com chão calcetado, paredes de granito e teto arqueado. Chamas azuis, que pareciam não emitir qualquer calor, ardiam em nichos nas paredes e iluminavam tanto ou mais do que luzes elétricas. Uma miríade de portas despontava em ambas as paredes. 

Durante o nosso percurso, passámos por várias curvas e bifurcações. Quanto mais avançávamos, maiores ficavam os túneis e maior era multidão que os percorria. Na superfície, só durante o Verão se via tanta gente. E nunca com aquela diversidade. Perdi a conta ao número de raças diferentes com que me cruzei.

Finalmente, descemos uma escadaria até uma enorme câmara retangular. Esta era atravessada, no seu centro, por uma vala que se ligava, em ambos os estremos, a túneis maiores do que qualquer um pelo que tínhamos passado.

Juntamente com outras criaturas, esperámos naquela plataforma. Uns dez minutos depois, uma luz surgiu no fundo de um dos túneis. Pouco depois, deste saiu uma gigantesca criatura, da altura da vala, e comprida o suficiente para ocupar todo o comprimento da câmara. Assemelhava-se vagamente a uma centopeia, com um corpo vermelho acastanhado e uma miríade de patas delgadas. Contudo, não possuía antenas, e a sua face tinha traços humanos. Sobre as costas da criatura, alinhavam-se seis carruagens de madeira. 

Através de uma tábua, subimos para uma destas carruagens e instalamo-nos nos bancos de madeira e ferro. Pouco depois, partimos, entrando no outro túnel alto que desembocava na câmara. Afinal, Braga tinha metro. Os habitantes da superfície é que não o conheciam.

Desembarcámos uns quinze minutos depois, numa câmara muito semelhante àquela onde entrámos. Subimos escadas e voltámos para um sistema de túneis. Este era muito mais pequeno do que aquele junto ao Bar das Fadas, com muitas menos portas e bifurcações. Por fim, chegámos a uma porta de metal guardada por uma criatura alta e musculada, que nos deixou sair. Estávamos, agora, numa exígua caverna natural, a qual só consegui percorrer caminhando de lado. Instantes depois, mais à frente, surgiu uma luz prateada. Após passar uma moita, que disfarçava a entrada, chegámos ao exterior.

Foi com alguma surpresa que, sob o luar, me apercebi que estávamos no vale dos Cerqueira, junto à fronteira entre este e o monte, não muito longe de uma das paredes da quinta. Seria por ali que Henrique acedia ao mundo escondido debaixo de Braga? 

Sem perder tempo, a pequena fada voou sobre o muro. Regressou uns cinco minutos depois.

– Os trasgos já estão a trabalhar – disse–nos. – E não estão sozinhos. Os Cerqueira têm Ogrons como capatazes.

– Quantos são? – perguntou Alice. 

– Não sei ao certo, mas não são muitos. 

– Então, vamos.

– Espera – disse eu. – Qual é o plano?

– Entrar ali e empatar os capatazes enquanto os trasgos fogem – respondeu Alice, sem parar. – Anda.

O muro que circundava a Vila Marta e os seus campos era de granito e tinha mais de dois metros de altura. Fossemos todos humanos, teríamos tido alguma dificuldade em subir. Felizmente, um dos meus companheiros tinha garras retrácteis, pelo que chegou ao topo com relativa facilidade. Depois, ajudou-nos a passar para o outro lado.

Não havia iluminação naqueles socalcos, e era uma das últimas noites de quarto minguante, pelo que estava escuro. Não conseguia ver nada para além das silhuetas difusas dos vinhedos e dos postes que a suportavam.

– Não vejo nada – disse aos meus companheiros. 

– Nós vemos – disseram a fada e a criatura que nos ajudara a entrar quase em uníssono. 

– Vamos – disse Alice.

Comigo a seguir os outros cegamente, subimos até ao primeiro socalco. Escondemo-nos atrás de um muro circular, que devia pertencer a um poço, e olhámos atentamente para cima. No socalco seguinte, conseguíamos ver várias silhuetas por entre as vinhas, a maioria pequenas, mas uma delas excecionalmente grande, provavelmente o capataz. 

Alice pousou-me uma mão no braço. 

– Tu não vês bem no escuro, por isso vais ajudar-me com aquele capataz. Os outros tratam dos socalcos mais acima.

Prontamente concordei. Agachados, subimos a rampa de terra que levava ao socalco seguinte. Então, eu e Alice separámo-nos dos outros. Tentámos aproximarmo-nos sem ser vistos, usando os postes como esconderijos, porém, a visão noturna do capataz também devia ser melhor do que a minha, pois prontamente emitiu um temível urro e avançou para nós.

Alice puxou-me e, juntos, lançámo-nos contra ele. A princípio, o ser resistiu à nossa investida, mas acabámos por  atirá-lo ao chão. Enquanto mantínhamos o capataz preso contra o chão, Alice gritou, na direção dos trasgos:

– Fujam! Saiam daqui!

As criaturas hesitaram um momento, mas logo se puseram em fuga, descendo a parede que suportava o socalco como se fossem gatos.

O ogron continuava a debater-se e a gritar. Alice deu-lhe um murro e, quando este não resultou, outro e mais outro e ainda outro. A criatura continuava a mexer-se, pelo que não tinha perdido a consciência, mas já não se debatia.

– Acho que já podemos ir – disse Alice. 

Quando chegámos à rampa por onde havíamos subido, vimos as silhuetas dos nossos companheiros a correr vindos dos socalcos mais altos, acompanhados por pequenas formas que só podiam ser trasgos. Atrás deles, ouvi a voz de Henrique e de passos pesados. Tínhamos sido descobertos e estavam a chegar reforços.

Corremos de volta para o muro, os trasgos, na sua ânsia por liberdade, ultrapassando-nos e chegando ao exterior antes de nós começarmos sequer a trepar.

Depois de deixarmos o terreno dos Cerqueira, não vimos nem ouvimos mais nenhum sinal de perseguição. Ainda assim, só parámos de correr quando entrámos nos túneis que levavam ao comboio vivo. Para onde tinham fugido os trasgos, não sabíamos, nem se tínhamos conseguido libertar todos. Também não valia a pena pensar nisso. Depois daquela noite, os Cerqueira iam ficar de sobreaviso. Nunca mais íamos conseguir salvar mais ninguém da sua quinta

Capítulo 6 – O Gato de Campanhã

Como adepto da exploração urbana, sou, também, um apreciador de arte de rua. Ao longo dos anos, tive a oportunidade de conhecer vários artistas, com os quais me mantive em contacto. Um dia, durante uma conversa por chat com um deles, descobri algo estranho.

Quem conhece a Estação de Campanhã, no Porto, sabe que esta está rodeada por uma enorme infraestrutura de cimento. O que a maioria das pessoas desconhece é que esta oculta uma enorme rede de túneis de serviço, parte da qual já tinha tido a oportunidade de explorar. 

Como seria de esperar, artistas de rua conseguiram entrar em alguns destes túneis e aproveitaram as paredes para praticar a sua arte.

Foi durante uma destas visitas que o meu amigo e mais alguns colegas se depararam com algo de muito estranho. Num dos túneis, encontraram um gato. Isto nada teria de excecional, não fosse o facto de o animal não sair do mesmo sítio há meses e repetir constantemente os mesmos movimentos.

Depois de tudo o que tinha visto desde que encontrara o diário, não podia deixar de ir investigar. Combinei uma hora com o meu amigo e apanhei o comboio de Braga até Campanhã.

Quando lá cheguei, ele levou-me diretamente para o túnel. A porta metálica encontrava-se junto à berma da linha, a uns trezentos metros da estação, e estava escancarada, dando acesso fácil ao interior. Lá dentro, as paredes e até o teto estavam cobertos de grafitos de estilo variado. De simples “tags” a elaborados murais, via-se ali de tudo.

Adentrámo-nos no túnel durante várias dezenas de metros, até que chegámos a uma parte onde este se abria à direita. Nessa direção, havia um largo poço, cujo propósito ninguém parecia perceber.

– É aí que está o gato – disse-me o meu amigo.

Apontei a lanterna para o fundo, uns oito metros mais abaixo, e logo avistei o animal. Realmente, parecia um gato comum, cinzento e branco. Fiquei a observá-lo durante uns minutos. Durante esse tempo, permaneceu quase imóvel, sentado no chão, movendo-se apenas ocasionalmente em intervalos que me pareceram regulares para lamber uma das patas da frente, sempre a mesma.

Atrás do animal, encontrei uma porta de ferro, mas esta encontrava-se enferrujada e não parecia ser usada há anos. De facto, duvidava que fosse possível sequer abri-la, pelo menos não sem a destruir.

– Desde que o descobrimos, há quatro meses, que está ali sempre a fazer o mesmo – contou o meu amigo. – Um gato normal já tinha morrido à fome.

Tive de concordar com ele. Aquele gato podia não constar do diário que eu encontrara, mas merecia constar.

– Eu trouxe uma corda – disse eu, apontando para a mochila nas minhas costas. – Podemos descer para ver melhor.

– Parece-me bem. 

Nesse momento, dois outros artistas que pintavam junto a nós aproximaram-se e um deles disse:

– Podemos ir convosco? Também estamos curiosos com o gato.

– À vontade – respondeu o meu amigo.

Tirei, então, a corda da mochila e prendi-a a uma viga de cimento situada quase diretamente por cima do poço. Deixei que cada um dos meus companheiros testasse o nó e, assim que ficaram satisfeitos, começamos a descer. O artista que me chamara ali foi o primeiro a descer, seguido por mim e só então pelos dois que nos abordaram.

Durante tudo isto, o gato manteve-se imperturbado, lambendo apenas a pata algumas vezes. Não se mostrava só indiferente à nossa presença, era como se não estivéssemos ali.

Andamos à volta dele, observando-o atentamente, mas, fisicamente, nada o distinguia de um gato comum. Não fosse o seu estranho comportamento e o facto de estar naquele poço há tanto tempo, ninguém lhe teria prestado nenhuma atenção. 

Inspecionei, também, a porta enferrujada e confirmei que esta estava tão perra que era impossível movê-la. 

Finalmente, a curiosidade levou a melhor de um dos artistas que se juntara a nós e ele tentou tocar no animal. Para nossa surpresa, a sua mão atravessou o gato como se não estivesse nada ali, enquanto este permaneceu imóvel, como se nada fosse.

Recuamos. Não sabíamos o que era aquela criatura ou o que podia fazer. Depois de tudo o que vira antes, eu era o menos alarmado dos quatro. Os meus acompanhantes pareciam aterrados.

– É um fantasma! – disse um dos homens que se haviam juntado a nós. 

Como eu podia atestar, era uma boa possibilidade. Contudo, não disse nada. Eles já tinham sofrido um grande choque, não havia necessidade de o agravar.

– Que fazemos agora? – perguntou o meu amigo. – Avisamos alguém? 

Antes de alguém conseguir responder, o homem que tentara tocar no gato começou a gritar desesperadamente.

– Que se passa? – perguntou o companheiro dele, mas ele apenas continuou a gritar.

Os seus gritos eram tão intensos que me faziam doer os ouvidos. Começou, então, a correr em círculos à volta do poço, como se estivesse a tentar fugir de algo, mas não soubesse para onde ir. Finalmente, tentou subir a corda, mas caiu ao fim de pouco mais de um metro, ficando sentado no chão e encostado à parede. 

Juntamo-nos em volta dele para o tentar acalmar e perceber o que se passava, mas ele não parava de gritar.

– Olhem?! – disse o meu amigo de repente, apontando para a mão do caído. 

Parte desta já não tinha pele, mostrando os músculos debaixo. Diante dos nossos olhos, estes desapareceram, deixando apenas ossos. Por fim, até estes se desvaneceram.

O homem, finalmente, parou de gritar.

– Estás bem? – perguntou-lhe o amigo.

Ao não obter resposta, tentou tocar-lhe, mas retraiu a mão quando o corpo do caído se esvaziou como um balão. Finalmente, desapareceu por completo. O que quer que o tivesse consumido, fê-lo tanto de fora para dentro como de dentro para fora. 

Em pânico, os meus dois acompanhantes que restavam treparam a corda de volta ao túnel e correram para o exterior. Com mais calma, segui-os, deitando um último olhar para o gato, que continuava como se nada se passasse.

Só voltei a falar com o meu amigo dias depois, pelo chat. Ainda estava algo abalado com o que víramos, pelo que apenas lhe dei algum conforto e não lhe contei sobre as coisas igualmente estranhas que havia visto antes e a miríade descrita no diário que eu encontrara.

Contudo, ele contou-me algo de muito interessante. Depois da nossa visita, tentara visitar novamente o túnel, mas descobrira que a entrada deste havia sido selada com cimento.

Quem o fizera? Teria sido a organização de que Alice me falara durante a minha primeira visita ao Bar das Fadas? E como haviam descoberto a existência do gato? 

Como sempre, uma das minhas explorações tinha trazido mais perguntas para me atormentar. Infelizmente, estas só aumentavam ainda mais a minha insaciável curiosidade, puxando-me cada vez mais na direção de conhecimento que nenhum ser humano devia possuir.

Capítulo 5 – O Culto

Aproveitando que estava a passar as férias de Natal com a minha mulher e filha em casa dos meus avós, em Viana do Castelo, decidi explorar outra das entradas do diário que encontrara.

Desta vez, a minha curiosidade incidiu sobre um local importante da minha infância. Desde pequeno, ouvi o meu pai e o meu avô contarem histórias sobre as ruínas do convento de São Francisco. Entre elas, destacava-se um já antigo rumor de que o local era usado para estranhos rituais popularmente conhecidos como macumba. Nunca tinha encontrado nenhumas provas de tal, nem sequer alguém que dissesse ter assistido, até que, ao ler o diário, encontrei uma entrada que referia um culto que se reunia no convento.

Como habitual, a timidez do meu antecessor não lhe permitira assistir a todo o ritual, e ele apenas vira uma pequena parte através das grades do portão. 

Usando de novo a desculpa de que ia visitar um velho amigo, na noite da primeira segunda-feira após o Natal, dia da semana em que o diário dizia que o culto se reunia, encaminhei-me para o convento. Quando era miúdo, este ficava no meio do monte e era preciso uma longa caminhada para lá chegar, pelo que fiquei surpreendido ao ver que agora havia urbanizações quase até ao primeiro portão.

Estacionei nas traseiras de uma destas novas casas, liguei a lanterna e encaminhei-me para o monte. Após passar uma área de terra revirada, certamente um resquício da construção da urbanização, cheguei ao portão que, em tempos, protegia o caminho que subia até ao convento. Deste apenas restava parte do portal, já que uma das colunas havia caído ou sido derrubada. 

Mal o atravessei, vi-me rodeado por eucaliptos, austrálias e o ocasional pinheiro. A floresta, agora, tinha ali o seu início.

Comecei, então, a subir o caminho. A tosca calçada, formada por pedras grandes e irregulares, não era fácil de subir, mesmo com a ajuda da lanterna. Tropecei várias vezes. Felizmente, já não chovia há algum tempo, ou as lisas pedras estariam impossivelmente escorregadias.

A meio da subida, pouco antes de uma curva apertada, encontrei um velho cruzeiro. Este mostrava sinais de cinzas e fumo. Se estes se deviam ao culto que eu estava ali para investigar ou a uma causa mais mundana, não sei dizer. 

Finalmente, depois da curva, cheguei ao troço final da subida. Pouco depois, a minha lanterna iluminou o alto portão do convento propriamente dito. Um arco suportando as estátuas de três santos albergavam-no, e uma parede com mais de dois metros partia dele. A um visitante casual, pareceria não haver forma de entrar, pois um cadeado fechava o portão, mas eu não era um visitante casual.

Ao lado do portão, havia uma subida muito íngreme, quase vertical, onde alguém havia amontoado pedras e escavado degraus. Subi-a sem grande dificuldade e entrei num estreito carreiro que penetrava a vegetação cerrada. Avancei durante algumas dezenas de metros, a parede do convento à minha direita. Aqui e ali, havia pequenas falhas, mas nenhuma grande o suficiente para eu passar.

Finalmente, cheguei ao local que procurava: uma segunda entrada que dava acesso a uma escadaria que descia até ao terreiro do convento. Em tempos, devia ali ter existido um portão, mas este seria anterior às minhas primeiras visitas.

Entrei e, por fim, desci até ao convento propriamente dito. Com a lanterna, varri os edifícios em volta. Embutidas na parede que separava o terreiro do terreno elevado e do carreiro, encontravam–se duas pequenas capelas. Não tinham porta e estavam vazias, a não ser por trepadeiras e mato, e os seus telhados de pedra estavam partidos e esburacados. No lado oposto, erguiam-se as ruínas dos edifícios principais do convento: a igreja e as áreas de habitação e trabalho. 

Contudo, não entrei de imediato. Primeiro, dirigi-me à base do cruzeiro no centro do terreiro. A cruz em si já lá não se encontrava, mas a base vagamente piramidal formada por quatro camadas de pedra sim. Segundo o meu antecessor, era nela que o culto realizava os seus rituais. De facto, as marcas estavam lá. Havia manchas vermelhas escuras por todo o lado. Aqui e ali, viam-se penas, certamente pertencentes a galinhas usadas em sacrifícios. 

Com provas tão claras de que realmente se passava algo ali, entrei nas ruínas dos edifícios em busca de um local para me esconder e esperar pelo aparecimento dos cultistas. Segundo o diário, eles só apareciam depois da uma da manhã, pelo que ainda tinha bastante tempo. Aproveitei para visitar o local e ver o que tinha mudado desde a minha anterior visita, mais de vinte anos antes. 

A primeira coisa que me saltou à vista foi que os resquícios do soalho do andar superior, que eu ainda vira em criança, tinham apodrecido completamente. De facto, o único sinal de que alguma vez houvera um andar superior eram as escadarias que não levavam a lugar nenhum e as paredes parcialmente ruídas, mas anormalmente altas para um edifício térreo.

Após visitar a antiga cozinha, com a sua enorme lareira e pia decorada de calcário, encaminhei-me para a igreja. Esta já há muito perdera o telhado, embora o enferrujado candelabro, preso às paredes por cabos metálicos igualmente corroídos, ainda se mantivesse no seu sítio. Do altar nada restava, assim como de qualquer outro elemento decorativo. Tive alguma dificuldade em atravessá-la até à entrada principal. As lajes tumulares que, quando eu era miúdo, cobriam o chão tinham sido arrancadas, deixando enormes buracos difíceis de transpor.

Quando cheguei ao pequeno adro de terra batida, encontrei as lajes amontoados num canto, algumas inteiras, outras partidas, nas quais ainda se conseguiam ver gravados os nomes e as datas de morte e nascimento dos sepultados.

Passei, então, para o claustro. Como os soalhos de madeira já haviam desaparecido, este encontrava-se totalmente a descoberto. No seu centro, o pequeno espaço reservado para o jardim dos monges estava, agora, cheio de silvedos. Algumas das colunas que o delimitavam e que outrora seguravam o teto tinham tombado, se por ação dos elementos ou vandalismo, não tenho como dizer.

Foi, então, que avistei o sítio perfeito para me esconder: a velha torre sineira. Do interior, não havia maneira de lhe aceder, pois a porta ficava no segundo andar junto a um chão que já lá não se encontrava. Saí para as traseiras do convento, onde se encontravam os acessos ao monte e aos campos, alguns pequenos edifícios de apoio e, claro, a base da torre. Depois de a circundar, encontrei uma pequena entrada secundária com menos de um metro de altura. Tive quase de me arrastar, mas acabei por conseguir entrar. 

Como acontecera aos soalhos, as escadas haviam–se desintegrado. Felizmente, a torre era estreita, pelo que, pressionando as costas, os pés e os braços contra as paredes, consegui, com muito esforço, chegar ao topo. Tinha, agora, uma visão privilegiada de todo o convento, principalmente do terreiro onde o culto supostamente se reunia, e duvidava que alguém me avistasse ali.

Desliguei a lanterna. Ainda não era sequer meia-noite, mas temia que os cultistas aparecessem mais cedo ou que vissem a luz à distância.

Já estava à espera há quase duas horas, quando comecei a ouvir um cântico vindo do fundo do caminho que me levara ali. Pouco depois, detrás da curva, surgiu uma luz alaranjada. Fixei lá o meu olhar, pois sabia que estava prestes a ver o que tinha ido ali procurar. 

De trás da curva, surgiu uma fila de pessoas, todas elas segurando candeias. Algumas também traziam sacos de pano, no interior dos quais algo se movia.

Confesso que fiquei surpreendido e até algo desiludido. Talvez por influência do cinema e da televisão, esperava figuras encapuçadas com longas vestes negras. Contudo, tratavam-se de pessoas normais envergando roupas do dia a dia.

Os cultistas subiram até ao portão e, então, tomaram o mesmo carreiro que eu usara para entrar. Passado pouco tempo, estavam todos no terreiro, em volta da base do cruzeiro. Não se ouvia nada, a não ser os cânticos e o cacarejar das galinhas nos sacos.

De repente, as vozes silenciaram-se. Um dos cultistas, um homem de cabelo longo e desgrenhado, subiu ao altar improvisado e começou a entoar um novo cântico, desta vez a plenos pulmões. Ao fim de alguns minutos, um dos outros cultistas abriu o saco e passou uma galinha ao sacerdote. Este, com uma pequena faca que tirou do cinto, cortou a garganta ao animal e deixou o sangue escorrer sobre as pedras. 

Isto repetiu-se durante uma meia hora, até que todos os sacos se encontraram vazios. Depois, os cultistas emitiram um grito em uníssono. O chão começou a estremecer. Aos poucos, uma falha abriu-se no chão em frente do altar improvisado. Um brilho vermelho alaranjado projetava-se dela. Era como se se tratasse de uma passagem para o próprio Inferno.

Os cultistas olharam para ele, como se hipnotizados, durante alguns momentos, até que um gigantesco punho vermelho, maior do que uma pessoa, saiu dele. Perante o olhar expectante do culto, a mão abriu-se, libertando cerca de uma dezena de estranhos seres humanoides. Estes eram pequenos, com cerca de meio metro de altura, e estavam cobertos por uma curta pelagem negra. Dois diminutos chifres coroavam-lhes a cabeça, que também apresentava focinhos afiados e dentes pontiagudos. 

Com grande entusiasmo, os cultistas correram atrás destes mafarricos, apanhando-os e enfiando-os nos sacos onde tinham trazido as galinhas. Ao mesmo tempo, a mão desapareceu, voltando ao abismo, e, assim que o último mafarrico foi apanhado, a falha fechou-se.

Satisfeitos, os cultistas voltaram pelo mesmo caminho por onde tinham vindo, desta vez em total silêncio. Nem os mafarricos, enfiados nos sacos, faziam qualquer ruído.

Deixei a luz das candeias desaparecerem atrás da curva no caminho e ainda esperei uma meia hora depois disso antes de descer do meu esconderijo e voltar para o carro. 

Apesar de ser a primeira entrada do diário que eu investigava que envolvia humanos, foi provavelmente uma das que me deixou com mais perguntas. Quem eram aqueles cultistas? Que iam fazer com os mafarricos? A quem pertencia a mão que os trouxera?

Fui a pensar nisso até casa e até perdi o sono nessa noite. As possibilidades causavam-me arrepios. Só obteria as respostas muito depois, mas estas superariam tudo o que conseguia imaginar.

Capítulo 4 – O Rei das Ínsuas

Como era tradição, na altura do Natal, eu, a minha mulher e a minha filha passámos uma semana de férias em casa dos meus avós, em Viana do Castelo. Algumas das entradas no diário que encontrara passavam-se em ou perto dessa cidade, pelo que aproveitei a oportunidade para as investigar. 

Uma noite, depois do jantar, desculpando-me dizendo que ia falar com alguns velhos amigos, saí e dirigi-me até à margem do rio Lima. A desculpa até nem era uma absoluta mentira. Durante a tarde, havia telefonado a um amigo de infância para ele me emprestar um barco, e ainda conversámos durante uma meia hora antes de eu entrar a bordo e começar a remar.

Estava ali para investigar umas sombras e silhuetas peculiares, e estranhos movimentos nos juncos que o autor do diário havia visto nas ínsuas próximas da foz do rio. Como habitual, o meu antecessor não havia investigado a questão a fundo, nem sequer saíra da margem, mas eu estava determinado a descobrir o que havia ali.

Como tal, remei até à maior das ínsuas, popularmente conhecida como Camalhão, que se situava a pouco mais de uma centena de metros do ancoradouro onde o meu amigo tinha o barco. 

Mal cheguei à ínsua, desembarquei, prendi a âncora a um dos enormes torrões e adentrei-me por uma regueira próxima. Como a maré estava em baixo, as margens desta, mais os longos juncos, erguiam-se acima da minha cabeça, pelo que não conseguia ver nada em volta. Porém, tendo passado uma parte da minha infância naquelas ínsuas, sabia que aquela regueira me levaria ao coração do Camalhão de forma mais rápida do que atravessando os juncos.

Logo após a primeira curva, deparei-me com um mau presságio. De uma poça na quase seca regueira, a cabeça decepada de um homem olhava para mim. Estava inchada e mostrava sinais de putrefação e de ataques de animais. De facto, a parte ainda submersa estava, naquele momento, a servir de alimento a vários camarões do rio.

Após o susto e choque iniciais, cheguei à conclusão que não devia ter razão para me preocupar. Não era invulgar encontrar corpos e partes de corpos no rio, vítimas de naufrágios trazidas e depositadas pela maré alta. Aquela cabeça não devia ter nenhuma relação com as silhuetas que eu tinha ido ali investigar.

Continuei a avançar, tomando uma nota mental para mais tarde avisar as autoridades quanto à cabeça.

Tinha percorrido poucas dezenas de metros, quando um diminuto vulto negro saltou sobre a regueira mesmo à minha frente. De imediato, subi a margem. Quando cheguei ao topo, não o vi, mas os movimentos dos juncos denunciavam-no, e consegui segui-lo.

Corri atrás dele durante várias centenas de metros, as pontas dos juncos atravessando-me as calças e ferindo-me as pernas.

Finalmente, chegámos a uma área mais limpa, coberta apenas por erva baixa, situada debaixo da chamada Ponte Nova. Foi só então que vi o que estava a perseguir: um pequeno ser humanoide, com pouco mais de dez centímetros de altura. Este desapareceu atrás de um enorme monte de ramos de árvore e embalagens de plástico, lixo certamente trazido pela corrente e pelas marés.

Continuei a segui-lo, contudo, assim que cheguei aos detritos, ouvi uma voz grave e pausada vinda de uma regueira próxima. 

– Quem és tu? O que fazes no meu reino e porque persegues um dos meus súbditos? 

Eu ia responder, mas a criatura que falara levantou-se e deixou-me sem palavras. Tratava-se de um enorme ser com quase o dobro do meu tamanho.  Não podia ser apelidado de gordo, embora não fosse propriamente magro, e, sob o luar, parecia ter uma pele pálida como marfim. Sobre a cabeça levava uma coroa feita de juncos entrelaçados, o que, juntamente com o facto de se ter referido, pouco antes, aos seus súbditos, levou-me a concluir que ele era o rei das criaturas cujas silhuetas o meu antecessor vira.

O enorme ser saiu da regueira e aproximou-se do monte de detritos. Afastei-me para lhe dar passagem, mas não me atrevi a tentar fugir. Para minha surpresa, ele sentou-se sobre o lixo, e só então percebi que se tratava de um tosco trono.

– Diz-me lá o que estás aqui a fazer – insistiu a criatura.

Contei-lhe sobre as silhuetas e como fui até ali para descobrir o que eram.

– Parece que alguns dos meus súbditos precisam de começar a ter mais cuidado – respondeu ele, no fim. – Especialmente agora. 

– Especialmente agora porquê? 

– Os meus súbditos andam a desaparecer. Não sabemos como nem porquê. O que me leva a desconfiar de ti. Como é que eu sei que não és tu o raptor. Eu vi-te a perseguir um dos nossos.

Tentei justificar a minha curiosidade. Até lhe contei sobre as minhas idas à cidade dos mortos e ao bar das fadas.

Enquanto eu falava, uma bizarra criatura emergiu dos juncos. Andava em quatro patas, embora o seu corpo fosse esguio e se contorcionasse como o de uma serpente, mas tinha uma face vagamente humana. Ele aproximou-se do rei, ergueu-se nas pernas de trás e sussurrou-lhe algo ao ouvido. Depois, desapareceu outra vez nos juncos.

O rei deixou-me terminar a minha explicação. 

– Acho que acredito em ti – disse, por fim. – Se fosses o responsável pelos desaparecimentos, não tinhas deixado as minhas sentinelas ver-te.

Apontou com a cabeça para o ponto por onde a criatura serpentiforme desaparecera.

Mais calmo, ocorreu-me que os desaparecimentos nas ínsuas talvez estivessem relacionados com os dos mortos e contei ao rei o que descobrira no Gerês. 

– Curioso – respondeu ele. – Agora preciso que vás embora. Estou a juntar o meu povo aqui e vou precisar de falar com ele. 

Não esperei que me dissesse uma segunda vez. Entrei nos juncos e dirigi-me ao barco. Conforme atravessava o Camalhão, avistei várias pequenas sombras no meio do rio, no espaço entre as ínsuas. Após olhar mais atentamente, percebi que se tratavam de troncos e até de pequenas folhas de árvore carregando várias das criaturas que eu agora sabia viverem ali.

Ainda vi as primeiras desembarcar no Camalhão, mas logo retomei a caminhada até ao barco, temendo que o Rei das Ínsuas me expulsasse. Ou pior. 

Remei de volta à margem e, depois de devolver o barco, regressei a casa dos meus avós. Enquanto conduzia, não conseguia deixar de pensar nos desaparecimentos. Haveria realmente uma relação entre os das ínsuas e os dos mortos? Ainda não sabia o suficiente sobre aquele mundo paralelo para responder a essas perguntas, mas ia continuar a investigar. A minha curiosidade nunca me deixaria parar.