Capítulo 21 – A Guerra dos Mortos

Depois de uma noite em claro a pensar no que ia fazer a seguir quanto aos ataques das Bruxas da Noite, acabei por decidir tentar avisar os espíritos dos mortos no Gerês. De facto, não sabia onde encontrar mais ninguém que estivesse na mira delas.

Eu sabia que os mortos só se juntavam na sua cidade depois da meia-noite, ainda assim, queria chegar lá cedo. Não queria que o meu aviso fosse novamente tardio. Como tal, embora tivesse muito trabalho, tirei a tarde de férias sem dizer à minha mulher e dirigi-me ao Gerês.

Deixei o carro num espaço de terra junto à estrada, acima da mesma aldeia em ruínas que na minha visita anterior. Desci até aldeia e, de lá, encaminhei-me para a única entrada que conhecia da cidade dos mortos. Apesar da promessa do fantasma a que os dois guardas que me deixaram entrar da última vez chamaram de presidente, ainda estava no mesmo sítio.

Antes de entrar, porém, telefonei à minha mulher para lhe dizer que ia trabalhar até tarde. Não queria ter outra discussão com ela.

Finalmente, desci pelo buraco no chão até ao túnel que levava à cidade propriamente dita. Ainda faltava muito para a meia noite, pelo que, como esperava, não havia nenhum guarda.

Com a ajuda da pequena lanterna que andava sempre comigo, naveguei pelas passagens até chegar ao largo e ao profundo poço onde a cidade se erguia. Que ainda não se encontrasse lá nenhum espírito, não me surpreendeu, mas confesso que foi com algum espanto que me apercebi que os etéreos edifícios que tinha visto na minha última visita também não se estavam lá.

Sentei-me num rochedo, encostado à parede, e esperei.

O meu relógio devia estar atrasado, pois, uns três minutos antes da meia noite, os edifícios começaram a surgir nas saliências ao longo da parede do túnel. De casas circulares castrejas a torres de apartamentos com vários andares, estavam ali casas de todos os tipos e épocas.

Então, levantei-me. Tomei aquilo como um sinal de que os espíritos dos mortos estavam a deixar as suas tumbas e a formar as procissões que todas as noites se dirigiam para ali.

Os primeiros fantasmas chegaram uns dez minutos depois. Como da outra vez, a minha presença não passou desapercebida. Todos que passavam olhavam fixamente para mim. Contudo, nenhum me dirigiu a palavra, apenas continuaram em frente, flutuando para as suas moradas etéreas.

Então, surgiu um que eu conhecia, aquele chamado de presidente. Assim que me viu, aproximou-se e disse:

– Eu não te disse para não voltares cá?

Expliquei-lhe, então, porque ali estava e contei-lhe sobre os anteriores ataques das Bruxas da Noite. Ele não pareceu muito surpreendido.

– O ataque delas já está aqui – respondeu. – Alguns dos nossos viram o seu exército ao vir para aqui. Só viemos buscar armas.

Olhei de novo para o poço e vi que vários fantasmas já regressavam das casas empunhando armas brancas etéreas. Como os edifícios, estas vinham de todas as eras históricas da humanidade. Vi espadas, martelos de guerra e maças; clavas de madeira e machados com cabeça de pedra; facas de mato e até soqueiras.

O presidente deixou-me e foi ele próprio buscar as suas armas, enquanto eu segui a coluna dos fantasmas já armados para o exterior. Tive alguma dificuldade a subir pela entrada, mas acabei por conseguir chegar ao vale acima.

A noite já havia caído, no entanto, o céu estava limpo, e a Lua e as estrelas irradiavam luz suficiente para eu poder ver o que me rodeava. Os fantasmas alinhavam não muito longe da entrada, formando blocos semelhantes aos usados pelos exércitos da Antiguidade e da Idade Média.

A princípio, não vi os seus oponentes, mas uma linha escura prontamente surgiu junto ao horizonte. Aos poucos, aproximou-se, até que consegui ver uns pontos escuros a voar sobre ela, provavelmente as Bruxas da Noite.

Ainda demorou uma meia hora até eu conseguir ver claramente os soldados que a constituíam. Para minha surpresa, eram todos da mesma raça de criaturas, uma que eu nunca tinha visto antes. Apoiavam-se em quatro patas, mas havia inteligência nos seus olhos. Pelo cobria-lhes o corpo, e uma longa e esguia cauda agitava-se atrás e acima deles. Porém, o seu focinho era a característica que mais se destacava. Comprido e afunilado, assemelhava-se ao de um papa-formigas, mas era mais longo e terminava numa boca muito maior.

O exército continuou a avançar, mas as Bruxas da Noite ficaram para trás. Perguntava-me o que aquelas criaturas poderiam fazer aos incorpóreos fantasmas a meu lado, especialmente sem a ajuda dos feitiços das suas mestras.

Eventualmente, os dois exércitos encontraram-se frente a frente. Os espíritos alinhavam-se em blocos bem formados. Os seus inimigos, por seu lado, assemelhavam-se menos a um exército e mais a uma matilha pronta a abater-se sobre as suas presas assim que as suas mestras dessem a ordem.

– Sai daqui – disse-me o presidente, aproximando-se. – Procura um abrigo.

– Eu quero ajudar – protestei.

– Olha em volta. Achas que mais um homem vai fazer alguma diferença? Esconde-te. Se formos derrotados, pelo menos alguém fica com a memória do que aconteceu.

Não discuti com ele. Realmente, entre aquelas centenas de fantasmas, a minha ajuda dificilmente se iria fazer sentir. Se me mantivesse afastado e sobrevivesse, pelo menos podia continuar a combater as Bruxas da Noite (se bem que na altura não sabia bem como).

Afastei-me algumas centenas de metros dos dois exércitos e escondi-me atrás de um dos muitos penedos da região.

Pouco depois, sem aviso, as criaturas carregaram contra os fantasmas. Estes, sem saber exatamente do que os seus inimigos eram capazes, decidiram esperar. Apenas alguns batedores voluntários, avançaram contra as criaturas.

Segundos depois, as duas forças encontraram-se. Foi então que os novos soldados das Bruxas da Noite revelaram a sua terrível habilidade. Cerca de um metro antes de os fantasmas os terem ao alcance das armas, eles abriram as bocas. De imediato, com uma força irresistível, os espíritos foram sugados para o estômago dos seus oponentes.

Estavam, assim, explicados os desaparecimentos de que os mortos me haviam falado durante a minha primeira visita.

A reação que aquela visão provocou no exército dos mortos tornou-se imediatamente visível. Os fantasmas, seres que pensavam nunca mais vir a precisar temer nada, entraram em pânico. Alguns tentaram fugir, enquanto outros baixaram os braços e simplesmente esperaram. Até mesmo o presidente parecia não saber o que fazer.

Passados meros segundos, os blocos organizados do exército dos mortos já não existiam. Quando as criaturas das Bruxas da Noite chegaram à principal concentração de fantasmas, já não pareciam estar a travar uma batalha, mas a caçar presas impotentes.

Vi espíritos serem sugados às dezenas. Os estômagos dos seus algozes eram, aparentemente, impossíveis de encher.

Os mortos tentavam fugir desesperadamente, alguns de volta às campas, outros de regresso à cidade subterrânea, mas nenhum chegou ao seu objetivo. As criaturas das Bruxas da Noite eram demasiado rápidas.

Aos poucos, os fantasmas foram desaparecendo do campo de batalha. Os poucos que restavam tentaram, em desespero, enfrentar o inimigo, mas foram sugados muito antes de conseguirem usar as suas armas.

Por fim, as Bruxas da Noite aproximaram-se, sobrevoando o seu vitorioso exército. Dos mortos já não havia nem rasto. Era como se nunca tivessem ali estado.

Eu permaneci no meu esconderijo. Não sabia o que as Bruxas da Noite me poderiam fazer se me encontrassem. Felizmente, não permaneceram no campo de batalha durante muito tempo. Com uma rapidez surpreendente, reorganizaram o seu exército e desapareceram pela mesma direção que tinham vindo.

O vale estava, agora, completamente vazio. Não havia corpos nem sangue. Até a erva parecia quase intocada. Fosse aquele o meu primeiro contacto com o mundo escondido paralelo ao nosso, poderia ter pensado que tudo se tinha tratado de um sonho ou de uma alucinação. Contudo, eu sabia bem que não era o caso. E as Bruxas da Noite tinham obtido mais uma vitória. Ainda não estava mais próximo de descobrir o seu objetivo do que quando comecei a investigá-las, mas, a julgar pelos métodos que usavam, só podia ser algo nefasto.

Já não havia nenhuma razão para ali estar, pelo que voltei ao carro e conduzi de regresso a casa. Cheguei quase às quatro da manhã. A minha mulher e a minha filha já estavam, obviamente, a dormir.

Eu deitei-me, mas não consegui adormecer. Aquela vitória tinha eliminado os últimos inimigos das Bruxas da Noite que conhecia, ou, pelo menos, que sabia onde encontrar. Que iria fazer agora na minha tentativa de as deter e fazer responder pelas mortes que já haviam causado?

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