Capítulo 22 – O Grande Conventículo

Nos dias após a derrota dos fantasmas do Gerês pelas Bruxas da Noite, toda a gente me dizia que eu parecia distraído e cansado. Não podia discordar deles. Desde essa noite, mal conseguia dormir, e estava constantemente a pensar no que podia fazer quanto às Bruxas da Noite. Contactei toda a gente de que me lembrei na esperança que alguém me pudesse dar uma indicação do que fazer a seguir, mas não tive sorte.

A Bruxa do Mar que havia conhecido em Esposende telefonou-me, por fim, uns dias depois de eu a contactar, para me falar de um Grande Conventículo que ia haver na noite do Sábado seguinte e que fora convocado para discutir as Bruxas da Noite. Decidi imediatamente que ia estar presente, pois aquilo que eu sabia e vira podia revelar-se útil.

Como tal, disse à minha mulher que ia com o grupo de exploração urbana visitar uma fábrica em ruínas em Guimarães. Não era totalmente mentira, pois o Grande Conventículo ia ser, de facto, em Guimarães, mas no alto do Monte da Penha, perto do santuário católico lá construído.

Quando a altura chegou, meti-me no carro e conduzi até Guimarães. Pela autoestrada, demorei uns vinte minutos até à cidade. Subir até ao topo do monte, porém, demorou mais um pouco.

Finalmente, cheguei à área do santuário. Era Inverno, pelo que, àquela hora da noite, as lojas, os cafés e até o hotel se encontravam fechados. Estacionei no parque principal, que estava completamente vazio, e saí do carro para procurar o local do conventículo.

Foi, então, que me lembrei porque adorava aquele sítio desde a minha primeira visita. Era como um parque de diversão para adultos.

Uma falsa muralha separava o estacionamento da encosta do monte. À direita desta, uma pequena descida levava a umas tabernas típicas construídas mais abaixo, enquanto à esquerda se erguia um monte de rochedos sobre o qual havia sido construída uma pequena capela. Contudo, a verdadeira atração encontrava-se sob esta. Passagens criadas pela sobreposição dos penedos levavam a cavernas e nichos sob as rochas que haviam sido aproveitadas como capelas e tavernas. Era um local que parecia saído de uma história de fantasia.

O conventículo, no entanto, não ia ocorrer nessa direção, mas na oposta. Atravessei a estrada, passei pelo relativamente recente santuário e enveredei pela rede de passagens que se dirigiam para sul. Parte destas passava por túneis e pequenas grutas entre rochedos, até que, finalmente, emergiam numa espaçosa clareira.

No centro desta, ardia uma enorme fogueira, à volta da qual se reuniam vários grupos de pessoas, na sua maioria mulheres. Entre elas, consegui reconhecer algumas como as bruxas que encontrara em Montalegre e no Porto e, para minha surpresa, as que tinham atacado a Citânia de Briteiros e até o bruxo e curandeiro da minha terra natal. As líderes do Grande Conventículo, as bruxas que eu primeiro conheci como fogos-fátuos, estavam, como seria de esperar, no centro, junto da fogueira.

Procurei pela Bruxa do Mar, a minha aliada que me havia ali chamado, e encontrei-a sozinha, junto da orla da clareira.

– Sempre veio – disse ela, quando me aproximei.

– Claro. Os inimigos das Bruxas da Noite estão a cair como moscas. Tinha de vir descobrir se alguém lhes consegue fazer frente.

– As Bruxas de Briteiros parecem ter alguma ideia – disse ela, apontando para as líderes do conventículo. – Só temos de esperar até estarmos todas cá.

Sem mais nada a dizer, esperámos, em silêncio. Este, porém, não durou muito. Uma mão vinda de trás agarrou-me o ombro.

– Também estás aqui? – disse uma voz.

Virei-me e dei de caras com Susana, a demonóloga do norte de Portugal. A pequena rapariga segurava um dos seus tablets caseiras.

Apresentei-lhe a Bruxa do Mar e expliquei-lhe porque estava ali.

– E tu, o que estás aqui a fazer? – perguntei-lhe.

– Eu gosto de me manter informada sobre bruxas. Elas gostam de invocar demónios. Além disso, este Grande Conventículo é sobre as Bruxas da Noite e, pelo que tenho ouvido, preciso de começar a estar atenta a elas. Há suspeitas de que elas são demónios disfarçados.

Embora a hipótese não me convencesse, a verdade é que, na altura, podia ser tão válida como qualquer outra. A natureza das Bruxas da Noite continuava a ser um mistério.

Não tivemos tempo para dizer mais nada, pois as Bruxas de Briteiros chamaram a atenção dos presentes.

Assim que toda a assistência se juntou à volta delas, uma das Bruxas de Briteiros disse:

– Obrigado por terem vindo todas. É bom saber que as Bruxas da Noite não nos preocupam só a nós.

Outra das Bruxas de Briteiros, o homem, continuou:

– Não sei se estão todas ao corrente, mas as Bruxas da Noite têm atacado várias comunidades de criaturas mágicas nos últimos tempos. Não sabemos quem será a seguir. Pode ser qualquer uma de nós.

– Temos de nos juntar e fazer algo quanto às Bruxas da Noite – disse a Bruxa de Briteiros que ainda não tinha falado. – Elas são uma ameaça para todas.

Apesar de haver ali muitas bruxas com razão para não gostar e até odiar as Bruxas da Noite, fiquei com a sensação que aquele Grande Conventículo tinha sido convocado porque as Bruxas de Briteiros se estavam a sentir ameaçadas.

– Que sugerem que façamos? – perguntou uma bruxa na assistência que eu não conhecia.

– Primeiro, temos de juntar as nossas capacidades de adivinhação para as encontrar – disse a primeira Bruxa de Briteiros.

Eu sabia onde começar a procurar, mas hesitei em dizer-lhes. Tinha dificuldade em confiar naquelas bruxas. Talvez por ter crescido num país católico, tinha algum receio daqueles que lidavam com magia e demónios. Por outro lado, as Bruxas da Noite e os seus servos já haviam, confirmadamente, morto pessoas e não só. Tinham um exército ao seu serviço. E tinham-me tornado parcialmente responsável por algumas das mortes que causaram ao usar trasgos que eu havia libertado da quinta dos Cerqueira para fazer o seu trabalho sujo. Levando tudo em conta, não podia deixar de pensar que as bruxas daquele conventículo eram um mal menor.

Avancei e preparei-me para anunciar o que sabia.

De súbito, o chão começou a estremecer. Pouco depois, ouvi árvores a serem quebradas e o troar de pesados passos. As bruxas começaram a olhar em volta, mas eu não. Já tinha passado por aquilo antes, em Tibães. Sabia o que se aproximava.

Das árvores em volta da clareira, emergiu uma enorme variedade de criaturas: gigantes, ogres, trasgos, duendes, entre outras cujo nome desconhecia. No momento seguinte, figuras encapuçadas com longas vestes negras surgiram no céu, acima das nossas cabeças. As Bruxas da Noite tinham chegado.

Completamente cercadas, as bruxas do Grande Conventículo preparam-se para lutar. As Bruxas de Briteiros tomaram a sua forma de fogo-fátuo e levantaram voo, enquanto as restantes deram início aos diferentes métodos de lançar feitiços.

Eu, a demonóloga e a Bruxa do Mar estávamos bastante próximos da linha das árvores, pelo que os monstros estavam quase em cima de nós. Virámo-nos para os enfrentar. Susana ficou parada a olhar para eles, como se estivesse a pensar se teria alguma arma eficaz contra aquelas criaturas, enquanto a Bruxa do Mar imitou as suas colegas e começou a lançar um feitiço. Eu peguei num ramo caído e preparei-me para me defender. Desta vez, ia mesmo enfrentar os soldados das Bruxas da Noite.

Um ogre e vários duendes dirigiram-se para nós. Esperei até o primeiro ficar ao alcance da minha arma improvisada e desferi um golpe. Este, porém, agarrou a outra ponta do ramo e arrancou-mo da mão. Aterrorizado, preparei-me para ser esmagado pelo enorme malho que a criatura carregava. Esta, contudo, atirou-me ao chão com uma mão e continuou em frente. Depois, fez o mesmo à demonóloga.

Os duendes, que seguiam logo atrás, ignoraram-nos e, juntamente com o ogre, avançaram para a Bruxa do Mar. Porém, antes de a alcançarem, esta terminou o feitiço. Água cobriu o solo debaixo das criaturas e infiltrou-se rapidamente no solo, formando uma poça de lama que enterrou o ogre quase até aos joelhos e os duendes até ao peito, imobilizando-os.

Eu e Susana levantámo-nos e preparámo-nos para voltar para junto da Bruxa do Mar. Foi, então, que nos apercebemos que uma das Bruxas da Noite se dirigia para ela. Felizmente, a minha aliada ainda teve tempo de lançar um feitiço. De imediato, um jato de água saiu disparado das suas mãos contra a criatura atacante. No entanto, esta continuou em frente, cortando a água, quase sem desacelerar. Pouco antes de chegar à Bruxa do Mar, enormes garras, com mais de trinta centímetros, cresceram das suas mãos.

Eu e Susana ainda tentámos contornar a poça de lama e as criaturas presas nela, e ajudar a minha aliada, porém, não chegámos a tempo. Com um golpe brutal, a Bruxa da Noite atingiu a cabeça da Bruxa do Mar, as suas garras cortando carne e osso e, fatalmente, chegando ao cérebro debaixo.

Aterrorizados com aquela sanguinolenta visão, eu e Susana estacámos, convencidos de que seríamos as próximas vítimas. Contudo, a criatura afastou-se e voou em direção a outra bruxa sem nos prestar qualquer atenção.

Aproveitei aquela pausa para olhar em volta e ver como decorria o combate.

O bruxo da minha terra natal estava prostrado no chão, morto, assim como algumas das bruxas de Montalegre, do Porto e muitas outras que eu não conhecia. Entretanto, outras tinham conseguido invocar mafarricos e, juntamente com eles, lutavam, com algum sucesso, contra os soldados inimigos. Contudo, sempre que uma Bruxa da Noite atacava as inimigas no solo, nada a conseguia parar e impedir de causar mortes.

Felizmente, três das Bruxas da Noite estavam ocupadas no ar, a enfrentar os fogos-fátuos. Estes lançavam-lhes constantemente pequenas esferas de fogo que, embora não lhes parecessem causar ferimentos, claramente as incomodavam e impediam de lançar feitiços.

Aos poucos, a luta espalhou-se para além da clareira do Grande Conventículo. Passado algum tempo, mafarricos enfrentavam trasgos e duendes em passagens construídas sob penedos, e bruxas lançavam feitiços do cimo de pontes de cimento que imitavam formas naturais.

Todavia, embora fosse a batalha contra as Bruxas da Noite mais equilibrada que já vira, as forças destas estavam progressivamente a ganhar terreno.

Eu e Susana matámos as criaturas presas na lama da Bruxa do Mar com pequenas facas, mas não tínhamos ido ali preparados para o combate, e pouco mais nos atrevíamos a fazer do que atacar inimigos feridos e moribundos.

Por fim, as bruxas do Grande Conventículo sofreram um golpe fatal. Com a situação em terra controlada a seu favor, as Bruxas da Noite concentraram-se todas nas Bruxas de Briteiros. Em inferioridade numérica, estas não conseguiram manter as suas adversárias ocupadas. Feitiços começaram a atingi-las de todas as direções. Relâmpagos, esferas de energia, bolas de gelo e muitos outros projéteis mágicos acertavam-lhes. Um a um, os fogos-fátuos voltaram às suas formas humanas e caíram ao solo, mortos antes de o atingirem.

Sem a torrente constante de feitiços das Bruxas de Briteiros, as Bruxas da Noite puderam dedicar toda a sua atenção às bruxas que lutavam contra os seus soldados. Se estas últimas já estavam a perder a batalha, a sua derrota tornou-se, então, inevitável.

Eu e Susana continuámos a ajudar como podíamos, mas de pouco serviu. Em poucos minutos, as poucas bruxas sobreviventes fugiam o mais rápido que podiam por onde podiam, e os demónios invocados jaziam no chão, mortos.

Para nossa surpresa (e alívio), as Bruxas da Noite não nos prestaram nenhuma atenção, e os seus soldados só interagiam connosco se fossem obrigados e apenas para nos tirar do caminho. Contudo, a razão para isso era um mistério que teria de ficar para mais tarde. Não queríamos abusar da sorte e, juntos, voltámos para o estacionamento onde deixei o carro.

Assim que os sons de luta e perseguição ficaram para trás, comentei:

– Mais uma vitória para as Bruxas da Noite.

– Qual será o seu objetivo? – perguntou, retoricamente, a demonóloga.

Não sabia o que lhe dizer, pelo que não disse nada.

– Vou manter-me atenta às suas atividades. Algo se passa, e não é nada de bom – disse, encaminhando-se para a sua velha Ford Transit.

Eu meti-me no meu carro e parti em direção a Braga. Durante todo o caminho, repreendi-me pela minha incapacidade de ajudar a parar as Bruxas da Noite, ou até de apenas descobrir o que pretendiam. Contudo, uma coisa tornara-se clara naquela noite: elas estavam a tentar evitar envolver-me a mim e a Susana na sua luta. Por que razão, era outro mistério para resolver. Porém, não sabia como alguma vez o iria conseguir. Não tinha mais pistas para seguir, especialmente agora, que tinha perdido mais uma aliada.

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Capítulo 21 – A Guerra dos Mortos

Depois de uma noite em claro a pensar no que ia fazer a seguir quanto aos ataques das Bruxas da Noite, acabei por decidir tentar avisar os espíritos dos mortos no Gerês. De facto, não sabia onde encontrar mais ninguém que estivesse na mira delas.

Eu sabia que os mortos só se juntavam na sua cidade depois da meia-noite, ainda assim, queria chegar lá cedo. Não queria que o meu aviso fosse novamente tardio. Como tal, embora tivesse muito trabalho, tirei a tarde de férias sem dizer à minha mulher e dirigi-me ao Gerês.

Deixei o carro num espaço de terra junto à estrada, acima da mesma aldeia em ruínas que na minha visita anterior. Desci até aldeia e, de lá, encaminhei-me para a única entrada que conhecia da cidade dos mortos. Apesar da promessa do fantasma a que os dois guardas que me deixaram entrar da última vez chamaram de presidente, ainda estava no mesmo sítio.

Antes de entrar, porém, telefonei à minha mulher para lhe dizer que ia trabalhar até tarde. Não queria ter outra discussão com ela.

Finalmente, desci pelo buraco no chão até ao túnel que levava à cidade propriamente dita. Ainda faltava muito para a meia noite, pelo que, como esperava, não havia nenhum guarda.

Com a ajuda da pequena lanterna que andava sempre comigo, naveguei pelas passagens até chegar ao largo e ao profundo poço onde a cidade se erguia. Que ainda não se encontrasse lá nenhum espírito, não me surpreendeu, mas confesso que foi com algum espanto que me apercebi que os etéreos edifícios que tinha visto na minha última visita também não se estavam lá.

Sentei-me num rochedo, encostado à parede, e esperei.

O meu relógio devia estar atrasado, pois, uns três minutos antes da meia noite, os edifícios começaram a surgir nas saliências ao longo da parede do túnel. De casas circulares castrejas a torres de apartamentos com vários andares, estavam ali casas de todos os tipos e épocas.

Então, levantei-me. Tomei aquilo como um sinal de que os espíritos dos mortos estavam a deixar as suas tumbas e a formar as procissões que todas as noites se dirigiam para ali.

Os primeiros fantasmas chegaram uns dez minutos depois. Como da outra vez, a minha presença não passou desapercebida. Todos que passavam olhavam fixamente para mim. Contudo, nenhum me dirigiu a palavra, apenas continuaram em frente, flutuando para as suas moradas etéreas.

Então, surgiu um que eu conhecia, aquele chamado de presidente. Assim que me viu, aproximou-se e disse:

– Eu não te disse para não voltares cá?

Expliquei-lhe, então, porque ali estava e contei-lhe sobre os anteriores ataques das Bruxas da Noite. Ele não pareceu muito surpreendido.

– O ataque delas já está aqui – respondeu. – Alguns dos nossos viram o seu exército ao vir para aqui. Só viemos buscar armas.

Olhei de novo para o poço e vi que vários fantasmas já regressavam das casas empunhando armas brancas etéreas. Como os edifícios, estas vinham de todas as eras históricas da humanidade. Vi espadas, martelos de guerra e maças; clavas de madeira e machados com cabeça de pedra; facas de mato e até soqueiras.

O presidente deixou-me e foi ele próprio buscar as suas armas, enquanto eu segui a coluna dos fantasmas já armados para o exterior. Tive alguma dificuldade a subir pela entrada, mas acabei por conseguir chegar ao vale acima.

A noite já havia caído, no entanto, o céu estava limpo, e a Lua e as estrelas irradiavam luz suficiente para eu poder ver o que me rodeava. Os fantasmas alinhavam não muito longe da entrada, formando blocos semelhantes aos usados pelos exércitos da Antiguidade e da Idade Média.

A princípio, não vi os seus oponentes, mas uma linha escura prontamente surgiu junto ao horizonte. Aos poucos, aproximou-se, até que consegui ver uns pontos escuros a voar sobre ela, provavelmente as Bruxas da Noite.

Ainda demorou uma meia hora até eu conseguir ver claramente os soldados que a constituíam. Para minha surpresa, eram todos da mesma raça de criaturas, uma que eu nunca tinha visto antes. Apoiavam-se em quatro patas, mas havia inteligência nos seus olhos. Pelo cobria-lhes o corpo, e uma longa e esguia cauda agitava-se atrás e acima deles. Porém, o seu focinho era a característica que mais se destacava. Comprido e afunilado, assemelhava-se ao de um papa-formigas, mas era mais longo e terminava numa boca muito maior.

O exército continuou a avançar, mas as Bruxas da Noite ficaram para trás. Perguntava-me o que aquelas criaturas poderiam fazer aos incorpóreos fantasmas a meu lado, especialmente sem a ajuda dos feitiços das suas mestras.

Eventualmente, os dois exércitos encontraram-se frente a frente. Os espíritos alinhavam-se em blocos bem formados. Os seus inimigos, por seu lado, assemelhavam-se menos a um exército e mais a uma matilha pronta a abater-se sobre as suas presas assim que as suas mestras dessem a ordem.

– Sai daqui – disse-me o presidente, aproximando-se. – Procura um abrigo.

– Eu quero ajudar – protestei.

– Olha em volta. Achas que mais um homem vai fazer alguma diferença? Esconde-te. Se formos derrotados, pelo menos alguém fica com a memória do que aconteceu.

Não discuti com ele. Realmente, entre aquelas centenas de fantasmas, a minha ajuda dificilmente se iria fazer sentir. Se me mantivesse afastado e sobrevivesse, pelo menos podia continuar a combater as Bruxas da Noite (se bem que na altura não sabia bem como).

Afastei-me algumas centenas de metros dos dois exércitos e escondi-me atrás de um dos muitos penedos da região.

Pouco depois, sem aviso, as criaturas carregaram contra os fantasmas. Estes, sem saber exatamente do que os seus inimigos eram capazes, decidiram esperar. Apenas alguns batedores voluntários, avançaram contra as criaturas.

Segundos depois, as duas forças encontraram-se. Foi então que os novos soldados das Bruxas da Noite revelaram a sua terrível habilidade. Cerca de um metro antes de os fantasmas os terem ao alcance das armas, eles abriram as bocas. De imediato, com uma força irresistível, os espíritos foram sugados para o estômago dos seus oponentes.

Estavam, assim, explicados os desaparecimentos de que os mortos me haviam falado durante a minha primeira visita.

A reação que aquela visão provocou no exército dos mortos tornou-se imediatamente visível. Os fantasmas, seres que pensavam nunca mais vir a precisar temer nada, entraram em pânico. Alguns tentaram fugir, enquanto outros baixaram os braços e simplesmente esperaram. Até mesmo o presidente parecia não saber o que fazer.

Passados meros segundos, os blocos organizados do exército dos mortos já não existiam. Quando as criaturas das Bruxas da Noite chegaram à principal concentração de fantasmas, já não pareciam estar a travar uma batalha, mas a caçar presas impotentes.

Vi espíritos serem sugados às dezenas. Os estômagos dos seus algozes eram, aparentemente, impossíveis de encher.

Os mortos tentavam fugir desesperadamente, alguns de volta às campas, outros de regresso à cidade subterrânea, mas nenhum chegou ao seu objetivo. As criaturas das Bruxas da Noite eram demasiado rápidas.

Aos poucos, os fantasmas foram desaparecendo do campo de batalha. Os poucos que restavam tentaram, em desespero, enfrentar o inimigo, mas foram sugados muito antes de conseguirem usar as suas armas.

Por fim, as Bruxas da Noite aproximaram-se, sobrevoando o seu vitorioso exército. Dos mortos já não havia nem rasto. Era como se nunca tivessem ali estado.

Eu permaneci no meu esconderijo. Não sabia o que as Bruxas da Noite me poderiam fazer se me encontrassem. Felizmente, não permaneceram no campo de batalha durante muito tempo. Com uma rapidez surpreendente, reorganizaram o seu exército e desapareceram pela mesma direção que tinham vindo.

O vale estava, agora, completamente vazio. Não havia corpos nem sangue. Até a erva parecia quase intocada. Fosse aquele o meu primeiro contacto com o mundo escondido paralelo ao nosso, poderia ter pensado que tudo se tinha tratado de um sonho ou de uma alucinação. Contudo, eu sabia bem que não era o caso. E as Bruxas da Noite tinham obtido mais uma vitória. Ainda não estava mais próximo de descobrir o seu objetivo do que quando comecei a investigá-las, mas, a julgar pelos métodos que usavam, só podia ser algo nefasto.

Já não havia nenhuma razão para ali estar, pelo que voltei ao carro e conduzi de regresso a casa. Cheguei quase às quatro da manhã. A minha mulher e a minha filha já estavam, obviamente, a dormir.

Eu deitei-me, mas não consegui adormecer. Aquela vitória tinha eliminado os últimos inimigos das Bruxas da Noite que conhecia, ou, pelo menos, que sabia onde encontrar. Que iria fazer agora na minha tentativa de as deter e fazer responder pelas mortes que já haviam causado?

Capítulo 20 – A Batalha das Ínsuas

Depois de passar uma noite em claro a pensar quem iria avisar em seguida sobre os ataques das Bruxas da Noite e do seu exército, decidi ir falar com o rei das Ínsuas. Na nossa última (e única) conversa, ele contou-me que os seus súbditos estavam a desaparecer, o que eu agora suspeito ter sido uma tentativa das Bruxas da Noite de os enfraquecer antes do ataque final. Além disso, podia sempre dizer à minha mulher que ia visitar os meus avós, em Viana do Castelo, sem aumentar ainda mais as suas suspeitas.

No dia seguinte à minha descoberta da macabra cena nos túneis debaixo de Braga avisei a minha mulher de que ia jantar a casa de meus avós e, depois do trabalho, dirigi-me a Viana.

Na realidade, não menti, pois, de facto, visitei os meus avós, e a minha avó obrigou-me a ficar para jantar. Logo depois, porém, deixei a sua casa e contactei um velho amigo para que, mais uma vez, me emprestasse o seu barco.

Encontrámo-nos junto ao rio, no sítio do costume, e, após uma curta conversa sobre o que havia de novo nas nossas vidas (e eu inventar uma resposta para a pergunta “Porque precisas tantas vezes do barco à noite?”), entrei no barco e comecei a remar em direção ao Camalhão, a maior das ínsuas do rio Lima e o local onde se situava o trono do Rei das Ínsuas.

Estava a meio caminho quando, na parcamente iluminada e desabitada margem norte do rio, vi um enorme vulto. Parei. Olhei com mais atenção e apercebi-me de que se tratava de uma criatura humanoide, provavelmente um dos gigantes ao serviço das Bruxas da Noite. Graças ao seu prodigioso tamanho, atravessou o rio a vau, a água dando-lhe pouco acima do joelho, e chegou ao Camalhão em meros segundos.

Recomecei a remar. Tinha de tentar avisar os habitantes das ínsuas. Então, vi ainda mais vultos na margem, estes de variados tamanhos. Os maiores entraram na água, puxando cordas amarradas, no outro extremo, ao que pareciam ser jangadas, onde seguiam os mais pequenas.

Ao mesmo tempo, comecei a ouvir ruídos no Camalhão. Os habitantes estavam atentos e tinham detetado o inimigo assim que este surgira. O primeiro gigante parecia estar a ser alvo de uma verdadeira chuva de diminutos projéteis, ao mesmo tempo que os juncos em volta dos seus pés se moviam, provavelmente agitados por pequenas criaturas das ínsuas a atacar corpo-a-corpo. Contudo, o atacante não caía, e os seus companheiros prontamente chegaram ao Camalhão.

A batalha tinha começado. Já não havia ninguém a quem avisar. Ainda pensei em juntar-me aos habitantes das ínsuas e lutar, mas que podia eu fazer? Não tinha armas e, mesmo que tivesse, não saberia lutar contra aqueles inimigos. Acabei por simplesmente lançar âncora e ficar a ver.

Apesar de não conseguir ver as diminutas criaturas das ínsuas, via os seus projéteis, os movimentos dos juncos e a reação do inimigo. Pareciam estar a lutar bem. Vi vários dos monstros mais pequenos ao serviço das Bruxas da Noite cair, e o primeiro gigante a chegar ao Camalhão obrigado a ajoelhar-se, embora continuasse a lutar.

Contudo, apesar de todo este esforço, os invasores continuavam a avançar. Não conseguia ver as baixas que provocavam, mas tinha de assumir que eram significativas.

Embora lenta, a sua vitória parecia certa, até que os juncos à sua volta se começaram a mexer. Em questão de segundos, cresceram e enrolaram-se, formando cordas e redes que prenderam os invasores.

Logo em seguida, uma forma com uns quatro metros de altura surgiu mais acima no Camalhão, provavelmente saída de uma das muitas regueiras que atravessavam a ínsua. Armado com uma enorme clava, atacou o gigante ajoelhado, esmagando-lhe a cabeça. Só podia tratar-se do Rei das Ínsuas.

Com o inimigo paralisado e o seu monarca a seu lado, os habitantes das ínsuas redobraram os seus esforços, e muitos dos invasores caíram. Mais continuavam a chegar da margem, mas, mal punham os pés no Camalhão, eram imediatamente presos pelos juncos. A vitória dos habitantes das ínsuas começava a parecer não só uma possibilidade como quase uma certeza.

Então, algo passou a voar sobre mim. Olhei para o céu e vi cinco figuras encapuçadas abaterem-se sobre o Camalhão. O vento trazia as suas vozes até mim, entoando os cânticos que invocavam os seus feitiços. O primeiro fez com que os juncos na área do combate e à sua volta apodrecessem e se desfizessem, libertando os soldados das Bruxas da Noite, enquanto os seguintes fizeram cair uma verdadeira torrente de bolas de chamas sobre o Rei das Ínsuas.

Este usou os seus próprios feitiços para se defender, erguendo barreiras invisíveis para bloquear os ataques inimigos. No entanto, atacado de várias direções, não conseguiu aguentar durante muito tempo. Ao fim de poucos minutos, vi-o cair. Depois disso, as criaturas atacantes rapidamente se espalharam por todo o Camalhão.

Pequenos barcos, carregando grupos das diminutas criaturas que ali habitavam, começaram a deixar a ínsua, tentando fugir para uma das outras. Porém, não eram muitos, e dificilmente poderiam montar uma resistência caso as Bruxas da Noite decidissem conquistar o resto do seu reino. Para todos os efeitos, a batalha estava terminada.

Remei de volta à margem. Em alguns pontos desta, assim como na ponte que atravessava o rio e passava sobre o Camalhão, vi algumas pessoas a tentar perceber o que estava a acontecer na ilha. Duvido que tivessem percebido exatamente o que estavam a ver e, mesmo que percebessem, não eram suficientes para revelar aquele mundo escondido do nosso. Ainda assim, certamente que Almeida e o resto da Organização não iam ficar felizes.

Na viagem de regresso a casa, não conseguia deixar de pensar que as Bruxas da Noite tinham obtido outra vitória. Qualquer que fosse o seu objetivo, estavam mais perto de alcançá-lo.

E eu, mais uma vez, tinha chegado tarde para avisar as suas vítimas.

Capítulo 19 – O Primeiro Ataque

Como devem imaginar, após o meu encontro com as Bruxas da Noite nos jardins do Mosteiro de Tibães e de ver o exército que estavam a reunir, fiquei ansioso por discuti-lo com alguém. Como não queria que a minha família e amigos fossem expostos à existência daquele mundo paralelo ao nosso e aos perigos que daí pudessem advir, a primeira pessoa que me veio à cabeça foi Alice. Afinal, os da sua raça pareciam ser uns dos alvos das Bruxas da Noite.

Apesar de ser uma época de muito trabalho, no dia seguinte saí mal chegou o final do expediente e dirigi-me ao Bar das Fadas. O que tinha descoberto parecia-me demasiado importante para esperar.

Para minha surpresa, quando cheguei à pastelaria que servia de ligação entre o mundo à superfície e o bar subterrâneo, descobri que estava fechada. Espreitei para o interior e não havia sinais de que tivesse aberto nesse dia, até porque o correio estava amontoado atrás da porta. Ainda tentei bater à porta, mas ninguém respondeu.

A principal entrada para o mundo que existia debaixo de Braga estava fechada. Depois do que vira na noite anterior, comecei a ficar preocupado. Tentei acalmar-me dizendo a mim mesmo que a pastelaria podia estar fechada por diversas razões mais mundanas.

Felizmente, eu conhecia uma outra entrada. Não precisava de ficar a imaginar o que teria acontecido.

Fui para o carro, estacionado junto do meu escritório, e dirigi-me para o monte do Bom Jesus. Ao aproximar-me do meu destino, comecei a sentir alguma trepidação. A outra entrada ficava junto da Vila Marta, a casa dos Cerqueira. Não sabia até que ponto Henrique Cerqueira sabia do meu envolvimento na fuga dos trasgos que usava como escravos no vinhedo da família, mas não queria ser visto.

Felizmente, cheguei à moita que ocultava a segunda entrada sem encontrar ninguém.

Embrenhando-me na vegetação, cheguei à exígua caverna que dava acesso ao mundo oculto debaixo de Braga. Após alguns metros, onde a passagem começava a alargar, esperava encontrar um guarda, como na minha última visita, porém, não estava lá ninguém.

Confesso que achei aquilo estranho, até alarmante, mas continuei em frente , se bem que com mais cuidado. Teriam as Bruxas da Noite e as suas forças chegado ali?

Encaminhei-me para a estação mais próxima do “metro” que ligava as diferentes partes daquela cidade subterrânea. Quando lá cheguei, mais uma vez, não vi ninguém. Esperei.

Durante mais de meia hora, ali fiquei, na plataforma, mas não vi nem sinal de outros passageiros ou da criatura que fazia o papel de transporte. Comecei a pensar em ir a pé até ao Bar das Fadas, porém, não conhecia o caminho através dos túneis pedonais, pelo que continuei a esperar.

Passados mais vinte minutos em que não vi sinais de movimento, decidi arriscar e tomar o único caminho que conhecia: o túnel do comboio vivo.

Com a ajuda da pequena lanterna que andava sempre comigo, pois a enorme passagem não tinha qualquer fonte de luz, encaminhei-me para noroeste. Conforme avançava, mantive-me atento a qualquer ruído, não fosse o “comboio” passar e atropelar-me.

Durante mais de uma hora, ao longo da qual passei por várias outras estações, não vi nem ouvi nada de nota. O meu receio de que as Bruxas da Noite e o seu exército já ali tinham chegado aumentava, mas não havia qualquer sinal disso. Parecia que as criaturas que habitavam aqueles túneis tinham simplesmente desaparecido.

Finalmente, a lanterna iluminou algo que bloqueava o túnel. Aproximei-me com cuidado. Pouco depois, vi a sua cor castanha avermelhada e logo percebi que não se tratava de uma derrocada. Só quando cheguei junto do bloqueio é que descobri do que se tratava: a criatura que servia de “comboio”, morta. As suas centenas de delgadas pernas encontravam-se dobradas junto ao corpo, e a sua enorme e quase humana face ficara congelada numa expressão de terror e dor. À sua volta, jaziam pedaços de madeira e vidro partidos, destroços das cabines que levava às costas em lugar de carruagens.

Tinha agora a certeza de que algo acontecera, certamente o ataque das Bruxas da Noite que eu temia. Tinha chegado demasiado tarde para avisar os habitantes daqueles túneis. Mas talvez pudesse ainda prestar alguma ajuda. De qualquer maneira, não iria voltar para trás.

A criatura ocupava toda largura do túnel e mais de metade da altura, pelo que tive de trepar pelo seu corpo para chegar ao outro lado.

Assim que os meus pés voltaram a tocar o chão, iluminei a nova secção de túnel. O cenário era completamente diferente daquele que tinha visto até então. Corpos de criaturas de vários tamanhos e formas pejavam o chão, a maioria pertencente a raças que eu já tinha visto no Bar das Fadas. Alguns tinham marcas de queimaduras, mostrando que haviam sido mortos por chamas ou feitiços, mas a maioria parecia ter sido abatida por armas contundentes.

Perante aquela visão, considerei deixar os túneis, porém, achei que talvez ainda pudesse ajudar alguém e continuei em frente.

A cena repetiu-se ao longo do túnel, até que cheguei à estação seguinte. Aí, apareceram os primeiros corpos de ogres, duendes, ogrons e outras criaturas que eu sabia estarem ao serviço das Bruxas da Noite, embora em muito menor número do que os dos habitantes. Parecia que estes últimos tinham ficado encurralados no túnel devido ao corpo do “comboio” e sido massacrados.

Aquela era a estação que eu conhecia mais próxima do Bar das Fadas, pelo que deixei a vala onde o “comboio” em tempos circulara, subi para a plataforma e entrei nos túneis pedonais.

Nas passagens, não havia muitos corpos, mas todas as casas, salas e túneis sem saída tinham o chão coberto de habitantes locais mortos.

Finalmente, cheguei ao Bar das Fadas. A porta estava caída no chão, pelo que o que encontrei no interior não foi surpresa. Havia corpos por todo o lado, misturados com mesas, cadeiras e copos partidos. O balcão havia sido destruído e, com ele, a conduta que canalizava a água que os clientes costumavam beber. Como tal, esta agora escorria do teto diretamente para o chão, encharcando-o. O bar só não se encontrava inundado porque a água escoava por um buraco na base de uma das paredes.

Admiravelmente, a porta que dava acesso à pastelaria acima e, através desta, ao mundo da superfície, estava fechada. Apesar de estarem encurralados e perante uma morte certa, os clientes do bar não revelaram a sua existência ao mundo exterior.

Procurei entre os corpos por alguém que conhecesse. Duas das pessoas que me ajudaram a libertar os trasgos da quinta dos Cerqueira estavam entre as vítimas, mas Alice, o meu principal contacto e a pessoa daquele mundo que eu conhecia melhor, não. Tinha esperança de que se tivesse salvo, embora o mais provável fosse estar morta noutro canto qualquer daquele subterrâneo.

Ainda pensei em explorar mais um pouco, procurar sobreviventes ou até as Bruxas da Noite e os seus soldados, mas prontamente desisti dessa ideia. Nada do que vi indicava que houvesse sobreviventes naqueles túneis e, se os houvesse, estariam escondidos onde um simples visitante como eu nunca os encontraria. Por outro lado, as mortes pareciam já ter ocorrido há algum tempo e não vi nem ouvi nenhum sinal de que os assassinos ainda ali estivessem.

Fiz o caminho de volta para o exterior e para o carro. Só esperava que houvessem sobreviventes para sepultar os mortos.

Quando cheguei a casa, tive uma enorme discussão com a minha mulher. Tinha-me esquecido de avisar que ia chegar tarde para jantar e, como nos túneis não tinha rede, ela não me conseguiu contactar. Tive de inventar uma desculpa, pois não a queria expor ao estranho mundo que andava a explorar. Não ficou muito convencida, mas, pelo menos, acalmou-se.

Depois de jantar o meu já frio jantar e de ajudar a minha filha com os trabalhos de casa, fui para a cama. Essa noite pouco dormi. Não conseguia deixar de pensar que outros sítios as Bruxas da Noite iriam atacar e o que poderia fazer sem aumentar as suspeitas da minha mulher.

Capítulo 18 – A Cabra de Tibães

Há quem diga que as coisas só aparecem quando não estamos à procura delas. Embora eu nunca tenha acreditado muito nisso, não quer dizer que, por vezes, não seja verdade.

Tudo começou quando, numa tarde de Inverno, li num jornal local que uma cabra andava a aterrorizar os moradores de Mire de Tibães. O caso era notavelmente semelhante às histórias contadas sobre a cabra de Cabanelas, passada nos anos trinta, referida frequentemente em livros sobre lendas do norte de Portugal.

Contava a notícia que uma cabra negra andava a aparecer, ao anoitecer, sobre o cemitério de Mire de Tibães e que, miando como um gato, fazia voos rasantes sobre todos os visitantes até expulsá-los de lá.

Curioso com o reaparecimento da lenda, decidi fazer outra pausa na minha busca pelas Bruxas da Noite e, um dia, depois do trabalho, dirigi-me ao referido cemitério.

Embora os dias já estivessem a ficar maiores, ainda anoitecia cedo, pelo que, quando lá cheguei, o Sol estava prestes a desaparecer atrás do horizonte.

Mal entrei no cemitério, apercebi-me que não era o único ali à espera de ver a cabra. Excetuando duas pessoas, que tentavam apressar-se a colocar flores novas numa campa, ninguém prestava qualquer atenção aos defuntos. Aliás, quase todos os olhares estavam fixos no céu, assim como telemóveis, máquinas fotográficas e de filmar. Encostei-me a uma das paredes e esperei.

Aos poucos, começou a escurecer. As duas pessoas que tratavam da campa deixaram o local quase a correr. Para trás, fiquei apenas eu e mais cerca de uma vintena de espectadores.

Os minutos passaram, e continuou a ficar mais escuro, até que, sobre as nossas cabeças, ouvimos um estranho miar. No cimo do muro oposto àquele onde estava encostado, empoleirava-se uma cabra. Para minha surpresa, tinha um aspeto bastante comum: pelagem castanha e negra de variados tons, dois pequenos chifres no topo da cabeça e barbicha no queixo.

Então, voltou a miar e, com um salto, deixou a parede. Porém, em vez de aterrar no chão, começou a correr em pleno ar.

Flashes dispararam por todo o lado, com os curiosos a tentarem documentar aquele estranho fenómeno. Foi nesse momento que a cabra realizou o seu primeiro voo rasante. Homens e mulheres atiraram-se ao chão, procurando evitar a criatura, que voava pouco acima das cruzes e lápides a uma velocidade incrível.

Apesar de, a princípio, a assistência ter continuado a observar a cabra, esta efetuou voo rasante atrás de voo rasante, até que todos começaram a arrastar-se para a saída. Eu, porém, escondi-me debaixo de um banco de pedra adossado à parede da capela mortuária e esperei.

Poucos minutos depois, só eu ainda me encontrava no cemitério. Os outros curiosos tinham, entretanto, entrado nos seus carros e fugiam para longe. Então, a cabra retirou-se, desaparecendo por detrás da parede norte. Nesse momento, saí do meu esconderijo e segui-a.

Subir a parede não foi fácil, mas apoiando-me na laje de uma campa próxima (na altura não pensei nisso, entusiasmado como estava em seguir a cabra voadora, mas confesso que agora me parece algo desrespeitoso), lá consegui passar para o outro lado.

O cemitério de Tibães fora construído adjacente ao medieval Mosteiro de Tibães, um dos monumentos mais conhecidos do concelho de Braga, pelo que agora me encontrava nos seus extensos jardins.

Avistei a cabra esvoaçando por cima das colheitas, assim que toquei o chão, pelo que comecei imediatamente a segui-la. O percurso não foi fácil, pois o caminho era de terra batida e entretanto a noite tinha chegado em pleno e eu não me atrevia a acender a lanterna que andava sempre comigo para não revelar a minha presença.

Pouco depois, a cabra levou-me até à floresta que limitava os terrenos do mosteiro a sul. Graças a uma das minhas visitas anteriores, sabia exatamente para onde ia: em direção ao lago artificial criado numa clareira próxima.

Embora eu conhecesse o exíguo trilho que lá ia ter, algo me disse para não o usar, e decidi aproximar-me a coberto da vegetação. Assim que avistei o lago, a minha precaução mostrou-se justificada.

Para minha surpresa, junto à parede decorada da qual emergia a água que enchia o lago, ardia uma enorme fogueira, provavelmente maior do que eu. Em volta desta, encontravam-se cinco figuras encapuçadas, todas elas exatamente iguais à bruxa da noite que havia visto naquela casa abandonada. Tinha finalmente encontrado as Bruxas da Noite! E enquanto investigava algo aparentemente sem qualquer relação com elas.

Era óbvio que a cabra era uma criação sua, provavelmente para afastar as pessoas da zona, mas faltava-me perceber porquê.

Respirei fundo repetidamente. Mais uma vez, preparava-me para confrontar um grupo de bruxas. Porém, estas não eram bruxas comuns nem meras candidatas a serem as Bruxas da Noite. Eram mesmo elas. Já tinham morto pessoas antes, se bem que indiretamente. Por outro lado, a ideia de que me haviam deixado ir incólume após o nosso último encontro trazia-me algum conforto.

Ia sair do meu esconderijo e descer até ao lago, quando ouvi um ruído atrás de mim. Refugiei-me de imediato no meio de uma pequena moita, que me ocultava em todas as direções. Segundos depois, passou por mim uma enorme criatura, com mais de três metros de altura. No geral, parecia humana, embora, na escuridão, não lhe conseguisse ver a cara. As suas pernas pareciam troncos de árvores e o corpo era extremamente largo, mas caminhava com as costas dobradas.

Depois daquele avistamento, comecei a ouvir ruídos a toda a volta. Vultos de todas as formas e tamanhos começaram a surgir entre a vegetação, alguns bem maiores do que aquele ogre inicial. De onde haviam saído, não sei dizer, mas todos se dirigiam para o lago artificial.

Quando a primeira das criaturas chegou à margem, as bruxas começaram a entoar um cântico e a agitar ritmadamente os braços acima da cabeça.

Durante cerca de um minuto, nada aconteceu. Então, a água do lago começou a agitar-se. Pouco depois, subiu acima da margem, porém não começou a escorrer para fora. Era como se estivesse a ser contida por uma barreira invisível.

A cada instante que passava a água erguia-se mais e mais, até que, para meu espanto, formou uma enorme bolha uma dezena de metros acima do lago. Este encontrava-se, agora, vazio, com o seu leito exposto. As criaturas, começaram, então, a descer a superfície enlameada, até desaparecerem debaixo da berma.

Durante a meia hora seguinte, mais e mais criaturas emergiram de entre as árvores e entraram no agora vazio lago. Entretanto, as Bruxas da Noite continuaram o seu cântico, provavelmente para manter a água a pairar no ar.

Finalmente, quando a última das criaturas desapareceu, as bruxas pararam. Com um estrondo, a água caiu, voltando a encher o lago artificial. Nesse momento, a fogueira junto das Bruxas da Noite apagou-se e, quando os meus olhos se habituaram de novo à escuridão, elas tinham desaparecido.

Depois disso, ainda fiquei vários minutos no meu esconderijo, atónito, tentando perceber o que estava a acontecer. As Bruxas da Noite estavam a juntar um exército. Se todas as noites em que a cabra apareceu acontecera o mesmo que nessa noite, já teriam um grande número de soldados. Mas qual seria o seu propósito?

Teriam sido os ataques às casas das fadas com falsos acidentes de automóvel, e que me levaram a investigar as Bruxas da Noite, apenas uma tentativa de enfraquecer o inimigo antes da investida final? Teria tudo isto alguma relação com os misteriosos desaparecimentos de fantasmas na Cidade dos Mortos e dos súbditos do Rei das Ínsuas?

Finalmente, o frio levou-me a deixar o meu esconderijo, e, transpondo novamente a parede do cemitério, voltei para o exterior e para o carro. Não se encontrava mais ninguém por perto. A cabra havia cumprido o seu propósito e afastado toda a gente do mosteiro e área circundante.

Depois do que tinha acabado de ver, regressei a casa preocupado, amedrontado, até. As Bruxas da Noite tinham um exército. Embora, até àquele momento, todas as mortes humanas que tinham provocado parecessem ter sido danos colaterais, isso agora podia mudar. E mesmo que não atacassem humanos, o seu alvo principal seria certamente algumas das criaturas que viviam naquele mundo escondido do nosso, e eu já havia caminhado entre elas e conhecido as bastantes para que isso me afetasse emocionalmente.

Nessa noite não preguei olho, pensando no que ia fazer quanto a tudo aquilo. Se é que podia fazer alguma coisa.

Capítulo 12 – A Taverna dos Encantados

As minhas primeiras buscas pelas Bruxas da Noite tinham sido infrutíferas. Embora ainda tivesse outras entradas sobre bruxas no diário para explorar, um dia, durante o intervalo para o almoço, lembrei-me de um outro sítio onde podia encontrar mais informação.

No meu primeiro encontro com Henrique Cerqueira, ele falara-me de um outro local de convívio para as estranhas criaturas que habitavam debaixo dos nossos pés em Braga. A sua localização foi provavelmente a única coisa boa que veio de eu ter conhecido o homem.

Como tal, uns dias depois, após o trabalho, dirigi-me para a loja dos chineses, uma das maiores da cidade, sob a qual o local se encontrava. Estacionei o carro no parque subterrâneo e, de imediato, comecei a procurar a grelha de escoamento que me levaria aos túneis abaixo.

Encontrei-a escondida atrás de uma coluna, como Henrique me indicara. De facto, não havia como enganar. Era a única por onde um homem adulto podia passar, pelo menos se não fosse muito gordo.

Eu tinha ido preparado com um pé de cabra e, usando-o, consegui retirar a pesada grade de ferro com relativa facilidade. Depois, baixei-me para o interior do túnel de escoamento.

Arrastando-me, comecei a descer a estreita e íngreme passagem. A princípio, esta estava revestida com cimento, mas este prontamente deu lugar a terra e lama. Felizmente, tinha mudado para roupa informal antes de sair do trabalho.

O túnel manteve a direção durante toda a sua extensão e não tinha nenhuma bifurcação, pelo que, com a ajuda da minha lanterna, não foi difícil chegar ao outro extremo.

Assim que saí da passagem, encontrei-me num novo túnel, este muito maior. Devia ter uns dois metros e meio de altura e outros tantos de largura, pelo que podia caminhar confortável através dele. Ao contrário das passagens em volta do Bar das Fadas, o chão, o teto e as paredes eram de terra, lama e pedra, com vigas de madeira aqui e ali para reforçar pontos mais críticos.

Apontei a lanterna em ambas as direções que o túnel seguia, mas não consegui ver nenhum dos extremos. Seguindo as indicações de Henrique Cerqueira, encaminhei-me para este.

Durante quase dez minutos, não vi mais do que as paredes e a escuridão além da luz da minha lanterna, até que, por fim, avistei a porta que procurava. Esta era tosca, feita de troncos de árvores unidos com pregos, e cordas prendiam-na a uma viga fazendo o papel de dobradiças.

A medo, empurrei-a até abrir uma frincha grande o suficiente para eu passar. O que encontrei do outro lado não podia ser mais diferente do Bar das Fadas.

Como o túnel atrás de mim, tratava-se de um espaço aberto no subsolo com reforços aqui e ali. A mobília era tão tosca como a porta, e o mesmo podia ser dito da clientela. Criaturas disformes, sujas e com expressões de pouca inteligência bebiam de canecas de barro mal limpas. A maior parte era maior e mais musculada do que eu, se bem que uns seres com pele verde mal me chegavam à cintura. Nunca tinha visto nenhuma daquelas raças no Bar das Fadas. Henrique chamara ao local a Taverna dos Encantados, mas era agora óbvio que se tratava de uma alcunha jocosa, pois não havia ali qualquer encanto.

Ao contrário do que acontecera nas minhas visitas ao Bar das Fadas, a minha entrada não passou desapercebida. Todos os olhos se pousaram em mim. Não estariam habituados a humanos ou estranhos em geral?

Tentando mostrar confiança, avancei até ao balcão.

– Que queres? – perguntou o taberneiro, uma enorme criatura de pele castanha com a cara deformada.

– O que tem?

Ele apontou para as prateleiras bichadas fixas à parede atrás dele, onde se encontravam várias garrafas sujas com conteúdos de cor estranha. Escolhi o que me pareceu menos intragável, e a criatura serviu-mo numa caneca.

Depois de, a custo, beber um trago da repelente mistela, passei ao assunto que me levara ali:

– Alguém aqui já ouviu falar nas Bruxas da Noite? Ou sabe algo sobre os trasgos que andam a provocar acidentes de carro?

Nunca aprendi a ser subtil.

Mal acabei de falar, uma das pequenas criaturas verdes deixou a taverna por outra porta que não aquela por onde entrei.

– Pá – disse um cliente sentado numa mesa atrás de mim – se fosse a ti, ia-me embora.

Virei-me. Todos os olhos continuavam pousados em mim, mas agora havia neles ódio.

– Não ouviste? – insistiu a criatura, levantando-se.

Era enorme, com bem mais de dois metros de altura e o dobro da minha largura, e possuía quatro musculados braços. Pegou em mim como se nada fosse e atirou-me de volta ao túnel por onde eu havia entrado.

– Sai daqui! – gritou ele.

Não tive coragem de fazer outra coisa. Comecei a afastar-me a passo. Pouco depois, ouvi a outra porta da taberna abrir-se. Olhei sobre o ombro e vi a criatura verde a voltar acompanhada por várias outras muito maiores e musculadas. Comecei a correr, não fossem perseguir-me.

Só relaxei quando voltei ao parque de estacionamento. Duvidava que eles me seguissem até à superfície. Ainda assim, entrei logo no carro e arranquei em direção a casa.

Já tinha avançado algumas centenas de metros, e deixado o meu temor para trás, quando uma figura enorme surgiu à minha frente no meio da estrada. Tratava-se da criatura que me expulsara da taberna. Tinha uma mão estendida à sua frente, pedindo-me que parasse.

Confesso que o meu primeiro instinto foi atropelá-lo, mas não fui capaz de o fazer. Travei e parei um meio metro à frente dele. Ele aproximou-se e bateu-me ao de leve no vidro. Cautelosamente, abri-o.

– É pá – disse a criatura, – desculpa lá aquilo de há bocado, mas se não te tivesse corrido dali não ias durar muito.

A minha surpresa foi tal que fiquei boquiaberto.

– Arruma aí o carro e vamos falar. Acho que te posso ajudar com as tuas perguntas.

Curioso, mas cuidadoso, assim fiz. Fomos para o jardim de um prédio próximo e sentámo-nos num banco onde ele podia ficar sentado escondido na metade escura e eu na iluminada, onde me sentia mais seguro.

– Ora muito bem, por onde começo?

Depois de uns instantes de silêncio, continuou:

– É assim, os trasgos não andam a matar os teus de propósito. As Bruxas da Noite, que são quem manda neles, não querem saber dos humanos para nada. Os acidentes são só uma maneira de destruir os seus alvos sem levantar grandes suspeitas.

Após as minhas conversas com Alice, eu já havia chegado a essa conclusão.

– Quem são essas Bruxas da Noite? O que querem?

– É pá, isso já não sei. E olha que eu e o resto da malta na taberna trabalhamos para elas. Só as vi uma vez, mas com os capuchos, e acho que são cinco. Elas andam a atacar fadas e outros dessas raças, e estão a recrutar para um exército. Eu faço parte dele. O que vão fazer com ele e porquê, não faço a mínima.

Fiquei imediatamente alarmado ao ouvir que as Bruxas da Noite estavam a reunir um exército. Como pretenderiam usá-lo?

– Sabe onde as posso encontrar? – perguntei, sem grande esperança na resposta.

– Pá, não sei. Só as vi uma vez e foi na Praça.

Não lhe perguntei onde se situava essa Praça, pois era óbvio que fazia parte dos túneis próximos da Taberna dos Encantados.

– Agora tenho de ir – disse ele, levantando-se. – Já te contei tudo o que sei.

– Espere! – pedi. – Porque me está a ajudar?

– Ó pá, não acho justo que os teus sofram sem razão. Achei que, pelo menos, merecias uma explicação.

Dito isto, a criatura adentrou-se na escuridão do fim de tarde invernal e, pouco depois, desapareceu atrás de um prédio.

Voltei para o carro e regressei a casa. Durante o percurso, a conversa não me saiu da cabeça. As Bruxas da Noite estavam a tentar enfraquecer os seus inimigos e a preparar-se para uma guerra. Perguntei-me se os desaparecimentos dos súbditos do Rei das Ínsuas e na cidade dos mortos no Gerês não teriam alguma relação. Contudo, o que mais me aterrorizava era não conseguir descobrir o seu objetivo final. Seria algo grande, isso agora era claro, mas o quê era um mistério até para os soldados delas.

As possibilidades não me deixaram dormir nem nessa nem nas noites seguintes. Mas o que descobriria por fim superou tudo o que eu imaginara.

Capítulo 9 – Trasgos Citadinos

Mais uma vez, uma notícia num jornal local despertou a minha curiosidade. Esta reportava uma série de estranhos acidentes de automóvel que andavam a ocorrer na cidade de Braga. Todos eles aconteciam próximo do local onde os carros ficavam estacionados durante a noite e mostravam sinais de sabotagem, geralmente travões cortados. As mortes já superavam uma dezena. Segundo a notícia, a polícia acreditava que se tratava de um ou vários vândalos em série, mas ainda não tinha encontrado qualquer pista, indício ou testemunha que ajudasse a identificá-los.

Noutros tempos, teria prontamente concordado com as autoridades, mas, depois de tudo o que vira nos meses anteriores, perguntei-me se a causa não seria outra, algo associado ao outro mundo que eu havia descoberto. Como tal, uma noite em que saí tarde do trabalho, decidi fazer uma ronda pela cidade.

A pé, percorri todas a ruas em que carros costumavam ficar estacionados durante a noite, atento a qualquer movimento debaixo deles. Durante a primeira hora, não vi mais do que um ou outro animal vadio. Contudo, perto da meia noite, avistei um estranho vulto negro debaixo de um Ford Fiesta. Se eu não tivesse visto criaturas bizarras antes, podia ter pensado que se tratava de mais um gato, mas havia algo na forma daquela sombra que não parecia animal.

Aproximei-me. Lentamente, baixei-me, e, ligando rapidamente a lanterna, espreitei para baixo do carro. O que encontrei, realmente, não foi um gato, mas sim um trasgo, como os que eu ajudara a libertar da casa dos Cerqueira. Estava, claramente, a tentar romper parte das tubagens e cablagens na parte de baixo do carro.

Alarmado, o ser tentou fugir. Agarrei-o por um braço. Se o capturasse, talvez pudesse encontrar alguém que conseguisse comunicar com ele e perceber porque estava a fazer aquilo. Contudo, o trasgo prontamente me mordeu a mão, obrigando-me a largá-lo. Ainda corri atrás dele, mas, usando os seus quatro membros, era muito mais rápido do que eu. Perdi-o, por fim, quando ele subiu a parede do terreno adjacente a uma das torres medievais da cidade. Para além de ser demasiado alta para eu escalar, tratava-se de propriedade privada habitada, que eu não me atrevia a invadir.

O encontro, contudo, não foi infrutífero. Quando agarrei o braço da criatura, apercebi-me que este tinha uma marca constituída por um círculo com um C invertido gravado na pele. Decidi, então, ir até ao Bar das Fadas procurar Alice na esperança que ela soubesse do que se tratava e isso me desse alguma pista sobre a origem e objetivos daquele trasgo.

Como esperava, e como em quase todas as minhas visitas ao Bar das Fadas, encontrei Alice sentada ao balcão. Sentei-me ao lado dela. Depois da nossa aventura na casa dos Cerqueira, ela já não parecia tão ressentida com o nosso primeiro encontro, pelo que não tive dificuldade em iniciar a conversa. Depois dos cumprimentos iniciais, falei-lhe dos acidentes, das mortes, da minha vigília e do meu encontro incriminatório com o trasgo.

– Já ouvi falar desses acidentes – disse ela. – Quase todos os carros bateram em sítios habitados por algumas das nossas raças mais pequenas. Aquele que derrubou a parede do Palácio dos Biscainhos destruiu uma comunidade inteira de fadas que fizeram casa no interior oco. A Marta, a fada que foi connosco à quinta dos Cerqueira, perdeu a família toda. Que tenha sido um trasgo a causar os acidentes pode ser uma revelação importante.

Fiquei em silêncio durante um instante, tentando digerir o que acabara de ouvir. As mortes podiam ter sido apenas danos colaterais de alguém a tentar disfarçar atentados contra as fadas como acidentes. Contudo, isso não reduzia a minha vontade de encontrar o responsável. Antes pelo contrário.

Contei, então, a Alice sobre marca que vi no braço do trasgo. Ela olhou para mim com uma expressão grave.

– Eu já vi essa marca antes – disse ela. – Nos trasgos que libertámos da quinta dos Cerqueira.

Nesse momento, fiquei sem pinga de sangue. Uma, talvez mais, das criaturas cuja libertação eu promovera e ajudara, podia ser responsável por mais de uma dezena de mortes. Era difícil não sentir que o sangue deles estava nas minhas mãos.

– Tens a certeza? – perguntei, procurando uma brecha por onde escapar à minha culpa.

Ela apenas acenou com a cabeça, em silêncio.

Levantei-me imediatamente e voltei para as ruas de Braga, mais decidido do que nunca a descobrir a razão para todas aquelas mortes.

Dirigi-me à rua onde encontrara o trasgo. Com sorte, tinha-o interrompido antes de ele acabar a sua sabotagem e voltaria para terminar o trabalho.

Esperei, imóvel, sob a sombra de uma árvore, na esperança que a escuridão me escondesse. Estive ali quase uma hora, antes de o trasgo voltar, saído de uma quelha próxima. Assumi que era o mesmo, pois dirigiu-se para o mesmo carro. Desta vez, não interrompi o seu trabalho. Queria que terminasse para segui-lo e ver para onde iria depois. Havia ali algo mais, tinha de haver, e ia descobrir o que era, ou a culpa seria minha… Mais tarde deixaria no para-brisas uma mensagem a avisar o condutor do carro.

A criatura nem cinco minutos esteve debaixo do veículo. Correu para a quelha de onde emergira e, desta vez, consegui ir atrás dele. Estava preocupado em não perdê-lo, como da última vez, felizmente, a perseguição não foi longa. Vi-o a subir a parede traseira de uma casa abandonada nas Carvalheiras – um largo situado no outro extremo da quelha – e a desaparecer na escuridão atrás das grades que delimitavam o jardim, construído sobre a garagem. Conhecia bem aquela casa, já a tinha visitado com o grupo de exploração urbana, pelo que sabia como entrar. Não tinha a agilidade nem as garras do trasgo, porém, subindo para cima de uma caixa de eletricidade, consegui alcançar um espaço entre as grades largo o suficiente para eu passar.

Como era habitual em casas abandonadas há muito tempo, esta havia sido vandalizada. A porta traseira tinha sido arrombada. Entrei. Peguei na minha lanterna, mas não me atrevi a acendê-la. Não queria assustar quem ou o que lá estivesse, pelo menos não antes de eu descobrir o que se passava. Ainda assim, a luz da lua, das estrelas e até da iluminação pública que entrava pelas janelas partidas iluminava o interior o suficiente para eu ver o que me circundava.

O chão do vestíbulo estava pejado de folhas, provavelmente trazidas pelo vento através da porta. Felizmente, também estava coberto de pó, no qual se viam, distintamente, várias pequenas pegadas, que assumi serem de trasgo. Segui-as até à escadaria que levava ao piso superior, ignorando duas portas abertas para salas que, pelo pouco e empoeirado mobiliário que ainda continham, eram de estar e de jantar.

As escadas de madeira rangentes levaram-me até ao corredor do andar superior, onde se alinhavam várias portas abertas ou arrombadas. A luz que saía destas era suficiente para eu ver o que me rodeava. Como no andar de baixo, o corredor estava coberto de pó, e neste continuavam a ver-se as pegadas de trasgo. Segui-as até um dos quartos.

Mal cheguei à porta, vi pequenos vultos, certamente trasgos, a correr e desaparecer pela porta que levava à varanda. Esta, porém, enquadrava uma forma maior, talvez até mais alta do que eu. Não parecia particularmente incomodada com a minha presença, pois não moveu um só músculo quando entrei no quarto.

Um capuz e uma capa cobriam-lhe todo o corpo e, com a escassa iluminação, era impossível eu conseguir ver o que se encontrava debaixo.

– Quem é você? – perguntei. – O que pretende?

Só podia ser este vulto quem controlava os trasgos, pelo que era altura de eu obter algumas respostas sobre os acidentes e as mortes.

– Vai-te embora – respondeu a criatura com uma voz feminina e rouca. – Isto não tem nada a ver contigo nem com os da tua raça. Esquece tudo o que viste.

– Mas… – comecei eu, mas ela virou-me costas e avançou para a varanda.

Corri atrás dela, disposto a lutar se fosse preciso, para obter respostas. Contudo, mal chegou ao exterior, ela começou a pairar. A surpresa fez-me hesitar momentaneamente, tempo suficiente para a criatura se elevar no céu noturno, bem acima da casa. Vi-a, então, voar em direção a oeste, desaparecendo pouco depois detrás dos prédios que ocultavam o horizonte.

Frustrado, deixei a casa e encaminhei-me de novo para o Bar das Fadas. Talvez Alice soubesse quem ou o que era aquele ser encapuçado.

Ela ainda lá se encontrava, sentada ao balcão, no mesmo sítio. Sentei-me a seu lado e, antes de ela ter tempo de dizer alguma coisa, contei-lhe o que tinha acabado de descobrir. Quando lhe falei da figura encapuçada e de como esta levantara voo, uma expressão aterrorizada apareceu na sua face.

– Bruxas da Noite – sussurrou ela, como se tivesse medo de dizer o nome em voz alta.

– Quem são as Bruxas da Noite? – perguntei, alarmado com a sua reação.

– A lenda das Bruxas da Noite é muito antiga. Diz-se que são criaturas misteriosas que atacam algumas das nossas raças. Como é normal nestas coisas, há várias histórias de avistamentos, se bem que ultimamente tem-se ouvido mais. Nunca lhes dei muita importância. Mas, agora, com o que me contaste…

Continuámos a conversar sobre as Bruxas da Noite durante mais algum tempo. Infelizmente, as histórias que ela conhecia não eram muito úteis. Frequentemente, contrariavam-se umas às outras. Mas é essa a natureza das lendas.

Deixei o Bar das Fadas decidido a encontrar e fazer o que pudesse para parar as Bruxas da Noite. Quando cheguei a casa, a minha mulher já tinha adormecido. Eu ligara-lhe a dizer que ia trabalhar até tarde. Não me juntei a ela de imediato. Sentei-me à secretária com o diário que havia encontrado, procurando por todas as entradas sobre bruxas. As minhas próximas expedições iam centrar-se nelas.