Capítulo 17 – Fogos-fátuos

Como a anterior, esta investigação começou num fórum online que falava do avistamento de estranhas luzes, desta vez na Citânia de Briteiros. Contudo, estava também associada às Bruxas da Noite e ao diário, pois uma das entradas deste reunia várias histórias captadas em segunda mão que contavam que bruxas poderosas habitavam entre as ruínas, escondidas. O meu antecessor, tímido como parecia ser, nunca tentou confirmar essas histórias, mas a existência destas e das luzes pareciam mais do que coincidência, e eu tinha de investigar.

Uma noite, após o trabalho, telefonei à minha mulher para lhe dizer que ia trabalhar até tarde e, depois, encaminhei-me para a citânia. Esta não ficava longe do meu emprego, porém, parte da estrada era muito exígua, com muitas curvas de pouca visibilidade, pelo que requeria uma condução cuidada. Como tal, demorei mais de meia hora a lá chegar.

Estacionei num pequeno espaço de terra batida ao lado da estrada, em frente da entrada da citânia. Embora ainda não fosse noite, já começara a anoitecer, e esta encontrava-se fechada. Decidi aproveitar o pouco de luz que ainda restava para procurar outra forma de entrar.

Percorri quase todo o perímetro das ruínas virado para a estrada. Finalmente, uma centena de metros abaixo de onde deixei o carro, encontrei um espaço entre a rede e o chão grande o suficiente para eu passar. Arrastando-me de costas e empurrando a rede para cima, consegui entrar.

Estava, agora, junto das ruínas de uns banhos situados num dos pontos mais baixos da citânia. Mesmo com a escuridão crescente e intento em descobrir as origens das luzes, não consegui deixar de admirar a chamada Pedra Formosa dos banhos, gravada com motivos celtas.

Comecei a subir uma ancestral rua, a mesma que os habitantes da idade do ferro usavam no seu dia-a-dia, ladeada por uma conduta que levava água aos banhos. A subida não foi fácil, pois a calçada era irregular e bastante íngreme, mas, por fim, cheguei à zona onde se concentravam a maior parte das ruínas de casas.

Depois de descansar um pouco, decidi continuar a subir até ao topo da acrópole. Sendo o ponto mais alto da citânia, era o local ideal para ficar de vigia e avistar as luzes que ali fui procurar.

Subi por outro dos caminhos originais. Este serpenteava por entre as ruínas dos vários complexos familiares, em que casas circulares construídas em volta de um terreiro central se encontravam envoltas por uma parede mais alta do que eu.

Passei, também, junto da muralha mais interior e do seu portão norte. Apesar de, na escuridão, não as conseguir ver, sabia que, graças a uma minha visita anterior, havia mais duas muralhas além desta.

Finalmente, cheguei ao topo da acrópole. Para além de duas casas reconstruídas, havia ali as ruínas de um enorme edifício redondo com bancos de pedra adossados à parede. Segundo as leituras que fiz antes da minha visita anterior à citânia, os arqueólogos pensavam tratar-se da casa onde os governantes ou os anciãos se juntavam para discutir e resolver os problemas da povoação.

Dali, conseguia ver toda a citânia, porém, não detetei nenhum sinal das luzes de que os rumores falavam. Todavia, ainda era cedo, pelo que me encostei a uma das casas reconstruídas e esperei. Só queria que aquela não fosse uma das poucas noites sem ocorrências daquele mês.

O primeiro sinal de que algo iria acontecer, porém, não foi o aparecimento de luzes, mas sim de vultos que se mexiam mais abaixo, na escuridão. Estes surgiram de um ponto quase oposto àquele por onde eu havia entrado, pelo que me perguntei como tinham atravessado a vedação.

Lentamente, aproximaram-se do pequeno terreiro entre os complexos familiares, mais abaixo, foi então que, graças à luz da Lua e das estrelas, me apercebi de que se tratavam de cinco mulheres vestidas de negro. A ideia de que podiam ser as Bruxas da Noite passou-me pela cabeça, mas logo a descartei. Estas mulheres não tinham as caras cobertas nem a envergadura das criaturas que eu procurava.

Foi então que as luzes que me levaram ali apareceram. Vi-as, primeiro, como três pequenas chamas esverdeadas num pequeno arvoredo junto ao exterior do perímetro da citânia. Porém, rapidamente se aproximaram, ao mesmo tempo que aumentavam de tamanho e intensidade.

Ao vê-las, as cinco mulheres procuraram imediatamente refúgio por entre as ruínas. Esperaram que os fogos-fátuos se aproximassem mais um pouco, e, então, começaram a recitar estranhos e elaborados cânticos. Para minha surpresa, instantes depois, uma torrente de granizo abateu-se sobre as chamas viventes, apesar de o céu estar limpo. Em meros segundos, estas e o terreno em redor estavam cobertos por um monte de gelo.

Até ao momento, não tinha visto uma tal demonstração de poder por parte de nenhuma bruxa, pelo que, por momentos, me perguntei se aquelas cinco mulheres não seriam mesmo as Bruxas da Noite.

As atacantes esperaram um pouco para se certificarem que tinham, realmente, neutralizado o seu alvo. O monte de gelo não se moveu, e elas, saíram, então, dos seus esconderijos.

– Conseguimos – disse uma delas. – Agora somos as bruxas mais poderosas do norte de Portugal.

– Parece que sim – concordou outra, com um sorriso nos lábios.

– Têm a certeza? – perguntou uma terceira, olhando, desconfiada e amedrontada, para a pilha de granizo. – Elas já sobreviveram a pior.

– De certeza – afirmou a primeira. – Foi desta que descobrimos a fraqueza delas.

Nesse instante, o monte de gelo começou a estremecer. Uns segundos depois, com uma explosão, os fogos-fátuos emergiram do granizo.

As invasoras correram de volta para os seus refúgios e começaram um novo cântico. Porém, desta vez, os seus oponentes entraram em ação.

Com uma rapidez incrível, um deles chocou contra uma das bruxas, projetando-a vários metros para trás. Outro disparou um estranho relâmpago esverdeado que contornou a cobertura e atingiu a atacante atrás dela. Depois, os três juntaram-se e começaram a mover-se rapidamente em círculo. Uma chuva de pequenas esferas de chamas verdes abateu-se, então, sobre as três invasoras ainda em combate. Mal tocaram as suas roupas, incendiaram-nas, embora, ao atingir o solo, se apagassem instantaneamente, sem sequer queimarem a vegetação.

As atacantes rebolaram pelo chão para extinguir as chamas. Quando se voltaram a levantar, decidiram admitir a derrota e, depois de pegarem nas suas duas amigas inconscientes (ou talvez mortas), fugiram até desaparecerem na escuridão de onde tinham surgido.

Os fogos-fátuos permaneceram imóveis durante mais alguns minutos. Eu fiquei onde estava, a observá-los, na esperança que, ao irem embora, me levassem a algo que indicasse a sua origem. Afinal, as mulheres que haviam enfrentado eram claramente bruxas. Será que eles não teriam alguma relação com as Bruxas da Noite?

A verdade prontamente se revelou e apanhou-me completamente de surpresa.

As chamas dos fogos-fátuos começaram a agitar-se e a crescer. De repente, desapareceram por completo, revelando três pessoas: duas mulheres e um homem.

– Espero que este seja o último destes ataques – disse o homem. – Correr com estas bruxas de segunda está a tornar-se aborrecido.

– É o preço da fama – respondeu uma das mulheres.

– Mas que pretendem elas com isto? – perguntou a outra mulher. – Ocupar o nosso lugar? Acham que derrotarmos lhes vai dar o nosso poder?

Claramente, aquelas pessoas eram bruxas poderosas. Porém, não tinham o tamanho nem as vestimentas das Bruxas da Noite, pelo que assumi não serem elas. Além disso, estas últimas dificilmente podiam ser chamadas de famosas. Contudo, talvez estas três soubessem de alguma coisa que me pudesse ajudar.

Respirei fundo para reunir coragem antes de, mais uma vez, abordar um grupo de bruxas.

Levantei-me e chamei por elas. Sem uma palavra, transformaram-se de novo em fogos-fátuos e voaram até à acrópole, onde me rodearam. Depois, voltaram à forma humana.

– Quem és tu? – perguntou o homem. – Não me digas que és algum bruxo que também nos quer enfrentar.

– Não, não – respondi prontamente.

Contei-lhes, então, sobre a minha busca pelas Bruxas da Noite e o que me tinha levado ali.

– Sabes, nós também estamos muito interessadas nas Bruxas da Noite. Ninguém sabe quem elas são, o que querem ou de onde vieram. Isso torna-as perigosas para nós.

– Sabem onde as posso encontrar?

– Infelizmente, não – respondeu a outra mulher. – Se soubéssemos, já tínhamos falado com elas. Gostamos sempre de tentar convencer todas as bruxas e utilizadores de magia do Norte a juntarem-se ao nosso Grande Conventículo.

– Vem connosco – disse a primeira mulher. – Vamos mostrar-te o que temos sobre as Bruxas da Noite. Talvez se combinarmos os nossos conhecimentos, possamos descobrir alguma coisa.

– Acham que devíamos mostrar-lhe o esconderijo? – perguntou o homem.

– Ele já lidou com bruxas antes. Sabe que se disser alguma coisa a alguém, podemos pôr uma maldição nele e em todos o que ama – respondeu a primeira mulher. – Além disso, toda a gente sabe que estamos aqui na citânia e que o nosso esconderijo não deve ficar longe.

Elas levaram-me, então, até uma das casas castrenses reconstruídas. O homem tirou uma chave do bolso, que usou para abrir a porta, e entrámos. Lá dentro estava escuro. A única luz era a pálida luminescência da Lua e das estrelas que entrava pela porta, contudo, era suficiente para eu perceber que o local se encontrava vazio.

Enquanto me perguntava porque me haviam levado ali, uma das mulheres apartou um pouco da palha que cobria o chão e levantou uma pequena laje de pedra. Para minha surpresa, debaixo dela, encontrava-se um pequeno teclado numérico retro iluminado. A bruxa introduziu um código numérico e o chão começou a estremecer.

– Recua um pouco – disse o homem, puxando-me para trás pelo ombro.

Uma parte do chão baixou-se e deslizou para o lado, revelando umas escadas metálicas que desciam, na vertical, até um túnel em cimento. A mulher que abriu o alçapão desceu primeiro, seguida pelo homem. Eu fui o terceiro, enquanto a última bruxa ficou para trás, para fechar o alçapão.

O túnel estava bem iluminado e era curto, desembocando menos de dois metros depois numa sala bem mais espaçosa do que a casa reconstruída acima.

Era um lugar estranho. Como o túnel, tinha paredes de cimento, dando-lhe um aspeto de bunker. Secretárias com computadores e tablets misturavam-se com bancas onde repousavam almofarizes, facas, foices e frascos e vasilhas com múltiplos líquidos de diversas cores. Molhos de ervas diferentes pendiam, por fios, do teto, assim como patas de galinha e sacos de rede com ossos. Nas paredes, viam-se recortes de jornais e fotos de pessoas, algumas das quais reconheci como sendo intervenientes na política nacional e internacional.

Exatamente o que aquelas bruxas faziam ali, não sei dizer, mas era óbvio que eram mais poderosas e influentes que as de qualquer outro conventículo que eu havia encontrado antes.

Uma das mulheres ligou um dos computadores e começou a mostrar-me vídeos onde figuravam as Bruxas da Noite. Confesso que fiquei surpreso, assustado até, com todos os locais onde aquelas bruxas tinham olhos. Vi imagens das Bruxas da Noite nas montanhas do Gerês, nas ruas do Porto, sobrevoando o rio Lima, até nos túneis escondidos debaixo de Braga. Inclusive, mostraram-me um vídeo do meu encontro com uma das Bruxas da Noite, quando persegui um dos tragos sob seu comando. Eram imagens captadas do exterior da casa abandonada onde a encontrei, certamente por um drone. Infelizmente, a máquina não foi rápida o suficiente para seguir a criatura encapuçada até ao seu esconderijo.

Apesar dos vídeos revelarem vários sítios onde as Bruxas da Noite tinham estado, mesmo somados ao conhecimento que eu havia obtido durante a minha busca, não ajudavam a descortinar os motivos ou o paradeiro delas. De facto, trouxeram ainda mais perguntas.

Sem mais nada que fazer ali, despedi-me das bruxas. Após reiterarem as suas ameaças do que me aconteceria se revelasse a alguém o seu esconderijo, deixaram-me ir.

No regresso a casa, não consegui deixar de pensar que estava cada vez mais confuso. Quanto mais sabia sobre as Bruxas da Noite, menos compreendia. Alguma vez iria encontrá-las e fazê-las responder pelas mortes que haviam causado?

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Capítulo 13 – As Bruxas do Mar

Após tudo o que descobrira graças à minha visita à Taberna dos Encantados, a minha vontade de encontrar as Bruxas da Noite viu-se ainda mais reforçada. Como tal, logo no fim de semana seguinte, investiguei mais uma das entradas do diário que me parecia estar relacionada com bruxas.

Na tarde de sábado, em que a minha mulher e filha foram a uma livraria à apresentação de um livro, dirigi-me a Barcelos.

A entrada falava de vários desaparecimentos numa localidade dos arredores daquela cidade, envolvendo um olho marinho no Rio Neiva junto a um rochedo conhecido como o “Penedo da Moira”. Supostamente, em certas noites, mulheres saídas de baixo das águas arrastavam qualquer homem que encontrassem para o olho marinho, e ele nunca mais era visto. Depois de tudo o que vira, não tinha dificuldades em acreditar em moiras, contudo, como estas não eram referidas em mais nenhuma parte do diário, assumi que se tratavam de bruxas.

Cheguei ao local ao princípio da tarde. Havia ali várias pequenas lagoas, onde as pessoas costumavam nadar no Verão, porém, sendo um frio dia de Inverno, não se encontrava lá ninguém. Procurei imediatamente por aquela que seria o suposto olho marinho. Investiguei todos os rochedos na zona, procurando o “Penedo da Moira”, que indicaria qual era a lagoa certa. Levou-me algum tempo, mas acabei por encontrar um em cuja superfície superior havia uma cova cheia de água, a suposta “Pegada da Moira”. Este encontrava-se parcialmente dentro de uma das lagoas, indicando claramente que era aquela que eu procurava.

Anos antes, durante umas férias na Grécia, tirara um curso de mergulho para poder visitar umas ruínas subaquáticas. Comprara, até, o equipamento completo, esperando usá-lo depois para investigar outros locais semelhantes (o que, infelizmente, nunca aconteceu). Nesse dia levei-o comigo e, junto ao carro, vesti-o.

Cuidadosamente, entrei na lagoa e, assim que a água me chegou à cintura, mergulhei. A água era límpida, pelo que, mesmo nas partes mais profundas, conseguia ver o fundo claramente. Este era formado por seixos e alguma areia. Infelizmente, depois de uma busca demorada, não encontrei nenhum sinal do olho marinho. Toda a lagoa parecia ter um fundo bem definido. Contudo, uma pequena depressão no ponto mais profundo chamou-me à atenção. Parecia deslocada, pois não havia uma corrente clara que a pudesse provocar, e, a quase quatro metros debaixo da superfície, era duvidoso que pudesse ter sido criada por banhistas.

Aproximei-me. Desviei alguns seixos e, agitando a mão sobre ela, afastei a areia. Assim que esta assentou, revelou-se uma das coisas mais estranhas que eu já vira. Debaixo da depressão, havia apenas trevas, uma escuridão que nem a luz da minha lanterna de mergulho conseguia penetrar. Só podia ser o olho marinho.

Lentamente, mergulhei a mão nessa escuridão. Para minha surpresa, deixei de a ver, mas conseguia movê-la lá em baixo. Passado alguns momentos, apercebi-me que se tratava de um túnel.

De repente, comecei a sentir a água à minha volta mover-se, a princípio, lentamente, mas acelerando rapidamente. Apercebi-me, então, que se tratava de um turbilhão centrado no ponto escuro que eu acabara de descobrir. Instintivamente, tentei lutar contra ele, porém, ao ver que este era mais forte do que eu, acabei por me deixar levar. Afinal, estava ali para descobrir o que havia do outro lado.

Confesso que não foi das minhas decisões mais inteligentes. Pouco depois de entrar no túnel, bati com a cabeça e perdi a consciência.

Quando voltei a mim, estava num local escuro, mas fora de água. Doía-me o corpo todo, e não precisava de ver para saber que tinha vários ferimentos. Felizmente, não me pareceu ter nada partido.

Varri o chão com as mãos em busca da minha lanterna de mergulho, no entanto, quando a encontrei, descobri que esta estava completamente destruída. Por sorte, a mais pequena, que anda sempre comigo e que tinha guardado no bolso dos calções, debaixo do fato de mergulho, ainda funcionava.

Assim que a acendi, confirmei as minhas suspeitas. O fato estava rasgado em diversos pontos, e eu sangrava de vários cortes. Depois, dirigi a luz para a escuridão à minha volta. A primeira coisa que descobri foi um pequeno charco circular a meu lado, certamente a saída do olho marinho. Logo em seguida avistei paredes. Feitas de enormes blocos de granito, erguiam-se atrás e à minha frente, até desaparecerem na escuridão. Eram tão altas, que a minha pequena lanterna não conseguia iluminar o teto.

Sem mais nada que pudesse fazer, levantei-me e comecei a explorar o local. Tinha avançado apenas alguns passos quando encontrei o que mais temia, mas já esperara: um esqueleto humano. Certamente pertencia a alguém como eu, que chegara ali através do olho marinho, mas não conseguira sair.

Respirei fundo para me tentar acalmar e forcei-me a continuar a avançar. Mais e mais esqueletos apareceram, alguns envoltos em roupas e envergando joalharia tão antigas que deviam estar ali desde a idade média e até da época castrense. Tentei animar-me com a ideia de que talvez conseguisse encontrar algo que os meus antecessores não conseguiram. Afinal, entre os montes de ossos e farrapos não havia uma única lanterna.

Ocasionalmente, deparei-me com estátuas e baixos relevos gravados nas paredes representando o que só podia descrever como demónios. Tinham chifres e focinhos afiados, dentes pontiagudos, barbatanas e alguns até asas. As suas representações variavam muito em tamanho, mas se esta era a sua escala real ou apenas liberdade artística, não tinha maneira de saber.

Por fim, avistei uma ténue luz ao longe. Aproximei-me com cuidado, pois não sabia o que esperar, mas alguns metros mais à frente, apercebi-me que se tratava do fim da longa estrutura onde me encontrava.

Por momentos, senti-me aliviado, pensando que tinha encontrado a saída. Todavia, logo descobri que assim não era. A estrutura encontrava-se, de facto, aberta naquela direção. Contudo, em vez de uma saída, ali erguia-se o próprio oceano.

Aproximei-me e descobri que uma barreira invisível, certamente de origem mágica, impedia as águas do Atlântico de entrarem. E a mim de sair. Não que fizesse diferença. Mesmo que eu conseguisse transpor a barreira, dificilmente chegaria à superfície vivo. Dali conseguia vê-la e encontrava-se uns cem metros mais acima. Além disso, a probabilidade de ser encontrado e salvo no oceano quando ninguém andava à minha procura era mínima.

Em desespero, bati com os punhos na barreira invisível e, depois, deixei-me deslizar para o chão. Durante longos minutos, ali fiquei, resignado a morrer ali. Depois, lembrei-me da minha família, e decidi ir ver o que havia no outro extremo do edifício. Não tinha muitas esperanças, mas podia existir lá uma saída.

Estava prestes a levantar-me, quando ouvi uma batida na barreira invisível. Levantei o olhar e, por entre um cardume passageiro, vi uma mulher jovem, na casa dos vinte. Esta não envergava qualquer equipamento de mergulho, apenas umas calças de ganga e uma blusa que pareciam não afetar a sua flutuabilidade.

Recuei dois passos, não sabendo o que esperar. Logo em seguida, a mulher atravessou a barreira mágica e desceu para o interior do edifício. Para minha surpresa, as suas roupas pareciam completamente secas.

– Não tenha medo – disse ela. – Vim tirá-lo daqui.

– Quem é você? É uma das Bruxas da Noite?

A sua face contorceu-se em sofrimento ao ouvir aquele nome.

– Não – respondeu, por fim.

– Mas conhece-as? Sabe onde as posso encontrar?

– Não sei onde as encontrar, mas conheço-as, sim. Infelizmente.

A tristeza na sua voz deixou-me curioso, mas não tive coragem de perguntar nada. Ela, porém, apercebeu-se disso e continuou:

– A minha mãe e as outras Bruxas do Mar morreram por causa delas. Vieram ter connosco para as ajudar-mos a destruir uma comunidade de criaturas marinhas, ao largo de Castelo do Neiva, prometendo-nos objetos mágicos e outras recompensas. Mas, assim que fizemos o que elas pediram, atacaram-nos. Eu só sobrevivi porque a minha mãe insistiu que eu ficasse para trás. As outras estão todas mortas.

Com a minha curiosidade satisfeita, os meus pensamentos voltaram para o local onde me encontrava, para como ia sair dali e, principalmente, para as ossadas que encontrara. Aquela mulher podia não ser uma Bruxa da Noite, mas tudo indicava que as suas intenções também não eram benévolas.

– Que sítio é este? – perguntei.

– Um velho templo construído pelas minhas antepassadas, não se sabe bem quando. Durante séculos, usou-se um olho marinho e ilusões para trazer sacrifícios humanos até aqui. Acreditava-se que estes ajudavam a chamar a atenção do Diabo e dos demónios e facilitava o lançamento de feitiços e maldições. A minha avó acabou com isso. Os desaparecimentos começaram a atrair demasiada atenção. Agora, diga-me, qual é o seu interesse nas Bruxas da Noite?

Contei-lhe tudo sobre a minha busca e os “acidentes” que lhe deram origem.

– Se as quer parar, pode contar com a minha ajuda. Venha, vou tirá-lo daqui.

Aproximei-me. Ela agarrou-me e puxou-me, através da barreira invisível, para o oceano. Após um momento de pânico, apercebi-me que conseguia respirar debaixo de água.

Através de um método de propulsão além do meu entendimento, provavelmente de origem mágica, rapidamente chegámos a uma praia. Assim que levantei o olhar, vi as torres de Ofir. Estávamos em Esposende.

– Continue a procurar as Bruxas da Noite. Se precisar de ajuda, telefone-me. – A bruxa disse-me o seu número de telemóvel, que repeti na minha mente até o memorizar.

Depois, voltou para o mar e logo desapareceu debaixo das ondas.

Tinha encontrado outra bruxa inimiga das Bruxas da Noite. Contudo, naquele momento, tinha coisas mais prementes em que pensar. Estava sozinho a mais de quinze quilómetros do meu carro. Como ia explicar a situação à minha mulher sem lhe revelar o perigoso e assustador mundo paralelo ao nosso que eu descobrira? E os meus ferimentos?

Foi a pensar nisto que deixei a praia e me adentrei pela cidade.

Capítulo 11 – Bruxas Urbanas

Quando procurei no diário entradas sobre bruxas, uma em particular chamou-me à atenção. Quando pensamos em bruxas, pelo menos em Portugal, vêm-nos à cabeça imagens de mulheres em volta de fogueiras num campo abandonado ou no meio da floresta, ou curandeiros e adivinhos populares que atendem clientes nas suas caves ou em pequenos anexos. Esta entrada, porém, falava de um grupo de bruxas do Porto que se encontrava num salão de chá no coração desta que é a segunda maior cidade do país.

Não é de admirar, portanto, que, depois da entrada mais óbvia, a de Montalegre, eu tenha decidido investigar esta.

Um dia em que estava sozinho naquela cidade em trabalho, aproveitei um intervalo grande entre as minhas reuniões da manhã e da tarde para visitar o referido salão de chá.

Com a ajuda do GPS do meu telemóvel, lá encontrei a morada. Deparei-me, então, com um problema. A entrada no diário tinha vários anos, e o salão de chá já não existia. No seu lugar, erguia-se, agora um pequeno centro comercial.

Estacionei num parque próximo e entrei. Talvez conseguisse encontrar alguma pista que me indicasse qual era o novo ponto de encontro das bruxas.

Mal passei a porta, apercebi-me que aquele não era um centro comercial comum. Em vez de lojas de roupa, bijuteria, tecnologia e artigos desportivos, como na maioria de estabelecimentos do género, este tinha lojas de esoterismo, maquilhagem natural, comida biológica e artigos culturais.

Percorri os corredores e subi as escadas até ao segundo andar. Foi então que me deparei com o que procurava: um salão de chá com o mesmo nome daquele onde as bruxas se reuniam. Deviam ter reaberto no centro comercial depois de este ter substituído o salão original.

Entrei e sentei-me numa mesa. A decoração era bastante moderna: cadeiras ovais brancas, sofás de pele, mesas de um só pé. Até os pedidos eram feitos através de tablet pcs embutidos em colunas ou através de um qualquer smartphone graças a QR codes impressos nas caixas de madeira dos guardanapos.

Pedi um chá e uma tosta, que consumi relaxadamente, enquanto observava os clientes que entravam e saíam. As idades pareciam variar entre os vinte e os cinquenta e, a julgar pelas roupas, eram todas pessoas de algumas posses. Na sua maioria, eram mulheres, embora não por muito.

Durante a cerca de meia hora em que estive ali sentado, notei algo que, se não soubesse o que estava a procurar, me teria passado desapercebido. Sozinhas ou aos pares, sete mulheres na casa dos trinta, todas elas de saltos altos, bem vestidas e maquilhadas e com cabelos meticulosamente cuidados, entraram e, sem hesitar, dirigiram-se imediatamente para o andar de cima.

Felizmente, o sinal para o WC apontava para lá, pelo que tinha a desculpa perfeita para subir e confirmar as minhas suspeitas.

Subi as escadas de ferro e madeira. No topo, deparei-me com uma sala em tudo semelhante à de baixo. Das sete mulheres, contudo, não havia nem sinal.

Cuidadosamente, tentando não chamar demasiado à atenção, pois não sabia se estava a ser filmado, tentei perceber para onde podiam ter ido. No corredor que levava às casas de banho, encontrei uma terceira porta com o comum sinal dizendo “Proibida a entrada a pessoas estranhas ao serviço”. Era o único local onde, aparentemente, as possíveis bruxas se podiam ter escondido.

Encostei silenciosamente o ouvido à porta, mas não ouvi nada. Lentamente, abri uma pequena frincha e espreitei. Assim que um pouco de luz dissipou a escuridão do outro lado, vi umas escadas que levavam até uma outra porta, mais acima. Fechei a primeira atrás de mim e acendi a lanterna. Tendo cuidado para não fazer barulho, comecei a subir.

Apenas alguns degraus depois, ouvi um cântico. Quanto mais subia, mais este se intensificava. Assim que encostei o ouvido à segunda porta, apercebi-me que vinha de trás dela. Era ali que as bruxas se reuniam, não havia dúvida.

O cântico durou mais uns quinze minutos. Após uns momentos de silêncio, uma voz distante e aguda perguntou:

– Que querem de mim?

Devia tratar-se de algum espírito ou criatura que o ritual invocara.

– Tu vês mais do que qualquer uma de nós. Chamámos-te aqui para responderes às nossas perguntas – disse uma voz feminina, certamente pertencente a uma das bruxas.

Uma a uma, as mulheres puseram as suas questões. Confesso que fiquei desiludido. Com todos os mistérios sobre a história e o universo que podiam tentar deslindar, as suas perguntas foram do mais básico possível. Com quem é que fulana andava a trair o marido? Onde sicrano foi buscar dinheiro para comprar um Mercedes novo? Como fulano conseguiu conquistar a atual mulher quando era tão feio?

Fofoquices! Pessoas como aquelas não podiam ser as Bruxas da Noite. Preparava-me para ir embora, quando ouvi a voz aguda e distante dizer:

– Gostavam de saber quem está atrás da porta?

Virei-me para fugir, mas tinha apenas descido três degraus quando a porta se abriu atrás de mim e algo me empurrou. Caí pelas escadas, embatendo contra a porta inferior.

Atordoado e dorido, senti várias mãos pegarem em mim e arrastarem-me pelos degraus acima.

Após alguns minutos de recuperação, as tonturas e a névoa diante dos meus olhos dissiparam-se. Estava, agora, num pequeno quarto sem janelas, iluminado por mais de uma dezena de velas. Havia ali uma estranha mistura entre o moderno e o antigo. Tablets, no ecrã das quais se podiam ver páginas com textos escritos em estranhos caracteres, repousavam sobre um tapete gasto e cheio de marcas de queimado. No seu centro, ardia um pequeno braseiro, cujas chamas se agitavam com o sopro do ar condicionado. Cadeiras modernas, iguais às usadas no salão de chá, misturavam-se com armários que pareciam saídos de antiquários e continham uma infinidade de instrumentos ancestrais.

Sentadas no tapete, as sete mulheres rodeavam-me. Todas elas agora levavam ao pescoço amuletos enormes com um ar antigo e gasto, contrastando marcadamente com os seus vestidos modernos e saltos altos.

– Quem és tu? – perguntou-me uma das bruxas. – E porque nos estavas a escutar?

– Ando à procura das Bruxas da Noite. Conhecem-nas?

– E quem são essas? – perguntou outra bruxa. – Algumas parolas que andam por aí de noite montadas em vassouras?

As suas companheiras riram-se.

– Não nos damos com gentinha dessa – acrescentou uma terceira bruxa. – Só se for mesmo preciso.

– Agora, temos de decidir o que fazer contigo.

– Deixamo-lo ir – disse a primeira bruxa que falou.

– E se ele conta a alguém? – perguntou a mulher que levantara a questão.

– Olha para a roupa dele – respondeu-lhe a companheira. – Achas que alguém vai pôr a palavra de um Zé Ninguém como ele acima da nossa? Ia dar-nos mais problemas desfazermo-nos dele.

– Tens razão – disse outra bruxa. – Vai-te lá embora. Mas não voltes!

Assim fiz. Aquelas não eram claramente as Bruxas da Noite, pelo que não tinham qualquer interesse para mim.

Fui à casa de banho de um café próximo do centro comercial para limpar o fato e as minhas feridas da queda e encaminhei-me para a minha reunião da tarde. Ao contrário do que ocorrera nas minhas explorações anteriores, esta não suscitou nenhum pensamento ou pergunta. Aquelas bruxas eram inúteis para deslindar o mistério que perseguia.

Capítulo 10 – As Bruxas de Montalegre

Como seria de esperar, uma das primeiras referências a bruxas no diário que encontrei estava associada à localidade portuguesa mais conhecida por estas: Montalegre. De facto, a vila organiza todas as sextas-feiras treze um evento chamado Noite das Bruxas para celebrar essa mesma tradição.

Numa tarde chuvosa de sábado, em que nem a minha mulher, nem a minha filha quiseram sair de casa, dirigi-me para lá. Não havia autoestradas que levassem até Montalegre, pelo que tive de usar a nacional. Durante grande parte do caminho, a estrada era larga e bem mantida, mas algumas dezenas de quilómetros antes de chegar à vila, tornou-se estreita e cheia de curvas. Foi devagar e com muita atenção que a percorri, subindo e descendo montes cobertos de pinheiros e eucaliptos.

Finalmente, após uma última subida, deparei-me com Montalegre. Construída numa colina que se erguia sobre um vastíssimo planalto vazio e parcamente arborizado, era uma visão impressionante, especialmente num dia pardacento como aquele. No seu ponto mais alto, entre uma mistura de edifícios novos e antigos, erguia-se o castelo medieval, a sua massiva torre de menagem parecendo capaz de resistir ao próprio Apocalipse.

Segundo o diário, as bruxas da região apenas se encontravam depois de anoitecer. Estávamos quase no Inverno, pelo que não tinha de esperar muito, e decidi fazer tempo num café local.

Aproveitei a oportunidade para pedir mais informações sobre o local onde o diário dizia que as bruxas se reuniam e direções mais precisas. O empregado explicou-me como lá chegar e como seria o terreno até lá sem fazer perguntas ou colocar qualquer dificuldade. Contudo, um cliente sentado numa mesa próxima, um homem de já alguma idade com um chapéu e uma bengala pousados na cadeira a seu lado, ouviu a conversa e disse:

– Não vá lá! É onde as bruxas se juntam de noite. Se sabem que alguém andou pelo sítio delas, lançam-lhe um feitiço. Se estiverem de bom humor, só lhe dão uma caganeira, se não, dão-lhe uma doença que o enfraquece e mata. Foi assim que um vizinho meu morreu. Deu-lhe a curiosidade e…

A advertência daquele senhor não me dissuadiu de ir procurar as bruxas. Pelo contrário, apenas confirmou que estava no caminho certo.

Paguei e voltei ao carro. Conduzi, então, para este da vila, entrando na estrada que atravessava esse lado do planalto. Ali, naquele dia cinzento, não era difícil ver porque a região ganhara a sua reputação sobrenatural. Uma charneca flanqueava a estrada. Aqui e ali, crescia uma árvore e, ocasionalmente, via-se uma lagoa, mas continha sobretudo pedras e vegetação rasteira, por entre as quais se erguiam pequenas elevações. Segundo o diário, o ponto de encontro das bruxas escondia-se atrás de uma destas.

Estacionei o carro junto ao início de um trilho que, segundo o empregado do café, me levaria até lá, e comecei a segui-lo. Quase de imediato, fiquei contente por ter levado as minhas melhores botas de montanha. O caminho era irregular, cheio de pedras e enlameado. Com qualquer outro calçado teria ficado com os pés encharcados e doridos.

Demorei pouco mais de uma hora a chegar à pequena elevação que procurava. Atrás dela, encontrei um pequeno arvoredo com meia dúzia de árvores e algumas moitas. No espaço vagamente circular entre elas, encontrei as cinzas recentes de uma fogueira. Não havia dúvida de que estava no sítio certo.

O Sol já desaparecia detrás do horizonte, pelo que não devia faltar muito para as bruxas chegarem para o encontro dessa noite. Escondi-me atrás de uma moita espessa, situada do lado da clareira oposto ao do trilho, e esperei.

Passou outra hora, antes de eu começar a ouvir alguém a chegar. A noite já tinha caído em pleno, e o céu estava encoberto, pelo que ali, longe de qualquer iluminação pública, pouco mais via do que negro. Ouvi a pessoa entrar na clareira vinda do trilho, e, pouco depois, o som de toros de madeira a serem atirados ao chão. De repente, uma pequena chama acendeu-se e, instantes depois, a fogueira ardia vivamente. Junto desta, conseguia agora ver uma mulher com já alguma idade. Estava toda vestida de negro, incluindo um lenço que lhe cobria a cabeça.

Durante alguns minutos, ela ficou ali de pé, à espera. Então, uma segunda mulher, mais jovem, mas envergando roupas semelhantes, surgiu vinda do trilho. Mal tiveram tempo de trocar cumprimentos quando uma terceira e, depois, uma quarta se juntaram a elas. Os dois últimos elementos do grupo tardaram um pouco mais, mas, assim que chegaram, as seis formaram um círculo em volta da fogueira. Então, tiraram as roupas, e eu pude vê-las bem pela primeira vez.

A mais jovem teria pouco mais de vinte anos, enquanto que a mais velha já há muito teria passado dos oitenta. Ao contrário do que contam algumas lendas, não vi nenhuma marca fora do normal nos seus corpos.

Nuas, começaram a dançar em volta da fogueira, cantando algo numa língua que eu não reconheci.

A dança durou uma meia hora, os seus corpos contorcendo-se de forma caótica, mas, ao mesmo tempo, bela e quase hipnotizante. Até as bruxas mais idosas mostravam uma agilidade e flexibilidade extraordinárias, sobrenaturais, até.

Quando terminaram, prostraram-se, viradas para a fogueira. De súbito, de entre as chamas, saltou uma pequena criatura de pele vermelha viva. Tinha orelhas pontiagudas, entre as quais cresciam dois diminutos chifres, e um focinho afiado cheio de dentes como agulhas. Pequenas asas, claramente incapazes de suportar o seu corpo num voo constante, saíam-lhe das costas.

A ela, seguiram-se em rápida sucessão outras cinco. Prontamente, todas elas se juntaram às bruxas e retomaram a dança. Qual o propósito daquele ritual, não conseguia imaginar.

Havia uma semelhança óbvia entre aqueles seres e os invocados pelo culto que encontrara no convento de São Francisco, em Viana do Castelo. Contudo, na altura não me apercebi disso. Estava demasiado preocupado em descobrir se aquelas eram ou não as Bruxas da Noite. Se me tivesse apercebido, talvez algumas mortes que ocorreram mais tarde pudessem ter sido evitadas.

De súbito, uma das criaturas saiu do círculo de dança e começou a farejar o ar. Passado uns segundos, virou-se para os seus companheiros e disse:

– Não estamos sozinhos.

Um arrepio subiu-me a espinha. Estava claramente a falar de mim.

As bruxas e os restantes mafarricos interromperam a dança e os cânticos. Eu preparei-me para fugir, mas era demasiado tarde.

– Sai daí! – disse o primeiro mafarrico, com uma voz estridente, na direção da moita atrás da qual eu me escondera. – E nem penses em fugir. Eu e os meus irmãos vemos bem no escuro e somos mais rápidos do que parecemos. Apanhamos-te de certeza. E não vais gostar do que vamos fazer depois disso.

A criatura emitiu uma risada cruel.

Com um misto de medo e curiosidade, saí de trás da moita e aproximei-me da fogueira.

– É perigoso andar por estas bandas depois de anoitecer – disse uma das bruxas, uma das mais jovens, com um sorriso malicioso. – E mais ainda ficar a espreitar os nossos rituais.

– Vocês são as Bruxas da Noite? – perguntei, indo direto ao assunto.

Afinal, que mais podia eu dizer.

Ao ouvir o nome, os mafarricos rosnaram e as bruxas cuspiram para a fogueira.

– Não nos confundas com essas cabras – disse uma das bruxas mais velhas.

– Nós somos devotas do Cornudo, do Diabo, de Belzebu. É ele que nos dá os nossos poderes – explicou uma bruxa de meia-idade. – As Bruxas da Noite saíram de repente do nada e ninguém sabe de onde vem o seu poder ou quem servem. Mas não são como nós.

– Cabras! – gritou a bruxa mais idosa. – Aparecem do nada e acham-se melhores que a gente. Não vão aos Grandes Conventículos, não respeitam o nosso mestre, nem sequer nos reconhecem como irmãs.

– Qual é o teu interesse nelas? – perguntou um dos mafarricos.

Apesar de já estar habituado a falar com criaturas estranhas, hesitei durante um segundo. Havia algo de perturbador naquelas criaturas. Contudo, lá acabei por contar a história das mortes e dos trasgos e do vulto negro na casa abandonada.

Durante alguns momentos, ninguém disse nada. Acho que não sabiam bem como reagir.

Por fim, o mafarrico que me interrogou disse:

– Vai-te embora. E só te deixamos ir porque queres interferir nos planos das Bruxas da Noite. Mas não voltes.

Sem dizer mais nada, assim fiz. Já no trilho, de volta ao carro, ouvi as bruxas e os mafarricos a retomarem o seu cântico.

Durante grande parte do caminho, ao contrário do que era habitual, não consegui pensar no que acabara de descobrir. As estradas estreitas e cheias de curvas requeriam toda a minha atenção durante a noite. Porém, assim que cheguei a estradas melhores, a minha mente começou a divergir.

Aquelas não eram as Bruxas da Noite, isso ficou claro, mas o desprezo que mostraram por elas e o facto de as considerarem como uma ceita à parte foi uma descoberta importante. Infelizmente, isso não respondia ao mistério de quem eram as Bruxas da Noite, o que pretendiam e onde encontrá-las. Apenas o adensava.

Quando cheguei a Braga já era quase hora de jantar. Telefonei à minha mulher e à minha filha a perguntar se queriam refeições do Burger King. Queria compensá-las pela minha ausência.