Capítulo 8 – A Organização

Após a minha descoberta do diário, tinha praticamente abandonado a exploração urbana. Contudo, uma notícia num jornal diário minhoto despertou, de novo, esse meu interesse.

Um navio destinado ao porto de Viana do Castelo havia afundado na foz do rio Lima. Curiosamente, este afundara de proa, ficando a popa e a metade de trás fora de água quase na vertical. A óbvia oportunidade para exploração não me passou despercebida. 

Logo no fim de semana seguinte, fui até Viana. Para meu alívio, desta vez não tive de mentir nem esconder a verdade da minha mulher. Ela estava bem ciente do meu interesse pela exploração urbana. Não gostava de a enganar, e de certeza que ela já começava a desconfiar de algo.

Encontrei-me com um velho amigo que me emprestou um barco (o mesmo que eu usara para explorar o Camalhão e encontrar o Rei das Ínsuas) e, quando anoiteceu, remei até ao navio naufragado.

Ocorreu-me, então, que podia ter convidado o resto do grupo de exploração urbana de Braga. Já estava tão habituado a fazer as expedições baseadas no diário sozinho que, desta vez, nem me lembrei deles. E ainda bem, como estava prestes a descobrir. 

Já perto do navio, com a ajuda da minha lanterna, procurei um sítio por onde entrar. Não demorei muito a encontrar uma vigia situada pouco acima da linha de água. Aproximei-me e, com o cabo da lanterna, parti o vidro. Tive alguma dificuldade em passar pela exígua vigia, mas acabei por conseguir.

Mal pousei os pés no chão metálico, apontei a lanterna à minha volta. Estava numa cabine. A primeira coisa que me saltou à vista foi que esta não possuía qualquer mobília. Contudo, esse não era o elemento mais estranho daquela divisão. Para minha surpresa, a porta encontrava-se na vertical. Como o navio tinha afundado de proa, eu devia estar sobre uma das paredes. Portanto, era como se aquela cabine estivesse preparada para se inclinar noventa graus.

Aproximei-me da porta e, cautelosamente, abri uma frincha. Do outro lado não encontrei nada senão escuridão, pelo que abri a porta um pouco mais e apontei a lanterna para o exterior. Vi, então, um corredor onde se alinhavam várias outras portas. Saí e comecei a abri-las. Atrás de cada uma delas apenas encontrei cabines vazias que pouco diferiam daquela por onde tinha entrado.

Finalmente, após uma curva no corredor, avistei um brilho à distância. Aproximei-me e encontrei uma porta estanque entreaberta. Era de trás dela que vinha a luz. Abri-a, esperando revelar outro corredor, mas o que encontrei foi algo que nunca tinha imaginado. 

À minha frente, estava, agora, um enorme espaço aberto, que devia ocupar grande parte da metade submersa do navio. Escadas metálicas desciam até uma rede de plataformas e passagens e, por fim, até ao chão. Este era formado por terra lamacenta que, àquela profundidade, só podia ser o leito do rio. Sobre ele, e nas plataformas, homens, gruas e retroescavadoras abriam um enorme buraco.

Após ver gigantescas dobradiças e pistões hidráulicos presos ao interior do casco, percebi que aquele navio estava não só preparado para se virar num ângulo de noventa graus, como também podia abrir a proa para explorar o fundo. Imediatamente, perguntei-me do que estariam à procura, mas um golpe na cabeça fez-me perder os sentidos e impediu-me de ir logo em busca da resposta. 

Quando voltei a mim, encontrava-me numa das cabines pequenas e vazias dos níveis superiores. Esta, porém, não tinha vigias, e a parca iluminação provinha apenas de uma luz que entrava por baixo da porta. Procurei nos bolsos, mas tudo o que tinha neles (telemóvel, lanterna, canivete, carteira, chaves) havia desaparecido.

Não sei quanto tempo mais estive ali até ouvir a porta a ser destrancada. Esta abriu-se logo em seguida, revelando quatro homens. Três deles envergavam uniformes cinzento escuros, incluindo botas e boinas, e empunhavam espingardas de assalto. Eram claramente militares, mas não tinham nenhuma insígnia que identificasse o seu país ou serviço.

O quarto homem, porém, vestia fato e gravata negros e uma camisa branca. Tinha cabelo curto bem penteado, com vestígios de gel, e não seria muito mais velho do que eu, provavelmente no início da casa dos quarenta. De facto, ele parecia um dos homens de negócios com que me cruzo diariamente na empresa.

Fazendo sinal aos soldados para ficarem no corredor, o homem de fato entrou na cabine e aproximou-se de mim.

– O meu nome é Almeida e sou o encarregado desta investigação – disse, estendendo-me a mão. 

Por mero hábito, cumprimentei-o. Ele meteu, então, as mãos nos bolsos das calças.

– Eu sou… – comecei a dizer. 

– Eu sei – interrompeu-me Almeida. – Sabe, o seu blogue não nos passou despercebido.

Aquela afirmação apanhou-me de surpresa. De facto, eu tinha um blogue pouco lido onde escrevia sobre as minhas explorações (podem encontrá-lo em http://www.terceirarealidade.wordpress.com mas, como perceberão de seguida, não é uma fonte muito fidedigna). No entanto, nunca ninguém me tinha identificado como o autor.

– Não precisa de ficar tão surpreendido. As suas atividades são de grande interesse para nós.

– Porquê? – foi a única coisa que me lembrei de dizer.

– Blogues podem ser uma boa ferramenta para descredibilizar os acontecimentos que são nossa responsabilidade esconder. Quantos mais aparentes maluquinhos escreverem sobre estes temas, menos o público acredita neles. 

Não precisei de ouvir mais nada para perceber quem eram aqueles homens. Pertenciam, certamente, à organização de que Alice me falara, encarregada de esconder o mundo que existe paralelo ao nosso. 

– Aliás, tenho uma proposta para si – continuou Almeida. – Se concordar em acrescentar artigos e alterar os escritos por si segundo as nossas instruções, estou disposto a mostrar-lhe o que encontrámos aqui. Se não, lembre-se de que podemos fazer o seu blogue desaparecer e dificultar muito a sua vida e a da sua família. 

Olhando para os soldados atrás dele e pensando em todos os recursos que vira a escavar o leito do rio, já para não falar do navio em si, não duvidava de que ele fosse capaz de cumprir a sua ameaça. Além disso, eu escrevia o blogue mais para passar o tempo do que para ser lido, pelo que a veracidade do que lá estava escrito não era de grande importância para mim. Acabei por aceitar a proposta de Almeida. 

– Ótimo! – respondeu ele. – Venha comigo. Estamos quase a encontrar o que viemos aqui procurar. 

Ele levou-me de volta aos corredores e, através deles, até à enorme câmara onde decorria a escavação. De uma plataforma, observámos os trabalhos. A nosso lado, um ecrã mostrava o que eu deduzi ser uma imagem do subsolo obtida por algum tipo de sensor. Nesta, via-se claramente uma enorme mancha branca que só podia ser o que aqueles homens procuravam. Almeida não me disse do que se tratava, e eu também não perguntei. Afinal, a julgar pela imagem, ia descobrir em breve. 

Minutos depois, algo surgiu. Por entre a lama escura, via-se, agora, um ponto branco. As máquinas afastaram-se e pararam, sendo a escavação retomada por homens com pás. 

Aos poucos, o objeto misterioso foi sendo revelado. A cada segundo que passava, parecia maior. À distância a que me encontrava era difícil ter a certeza, mas a matéria branca que o formava parecia ter uma textura estranha, semelhante a pele. De facto, sempre que um dos escavadores lhe tocava, esta mostrava alguma elasticidade.

Quando, ao fim de mais de uma hora, o objeto ficou completamente descoberto, não sabia bem para o que estava a olhar. Por um lado, parecia um animal do tamanho de um cachalote, com a pele coberta por uma substância viscosa de origem claramente orgânica. Por outro, tinha uma forma triangular com os cantos arredondados tão regular que não parecia de origem natural. 

Os homens de Almeida, pacientemente, escavaram por baixo do objeto e passaram cintas, do que imagino ser kevlar, de um lado ao outro. Depois, prenderam os dois extremos ao gancho de uma grua. Esta, lenta e cuidadosamente, começou a levantá-lo, tendo como objetivo uma plataforma não muito longe daquela onde nos encontrávamos. Quando passou junto a nós, porém, a “pele” do objeto começou a mexer-se, primeiro ligeiramente, e depois, violentamente. Parecia que algo estava a tentar sair do interior. Os soldados apontaram-lhe as armas.

– Não disparem – ordenou Almeida. 

A nossa suspeita confirmou-se segundos depois, quando uma mão terminada por garras rompeu a superfície. Antes de alguém conseguir reagir, de dentro do objeto saiu uma criatura negra vagamente humanoide. Era maior do que um homem, com uns dois metros de altura, e possuía braços tão longos que tocariam no chão caso se erguesse sobre ele. Fitou-nos com os seus olhos amarelos e depois saltou na nossa direção.

– Disparem! – gritou Almeida.

Balas zumbiram em direção à criatura, passando desconcertantemente perto de nós, mas nenhuma pareceu atingi-la. Impulsionada pelas suas poderosas pernas, esta alcançou a nossa plataforma, empurrando-me e atirando-me ao chão. Tenho de confessar que estar ali prostrado aos pés daquele ser foi um dos mais assustadores momentos da minha vida, pelo menos até então. Aquelas garras e presas podiam desfazer-me num instante. Felizmente, a criatura não se demorou e correu escadas acima.

– Atrás dele! – ordenou Almeida. – Não o deixem sair do navio.

Os soldados assim fizeram. Almeida seguiu logo atrás. Quando me consegui levantar e recuperar, já eles tinham desaparecido atrás da porta estanque que levava aos níveis superiores. Corri atrás deles. Seguindo os ruídos de botas nas passagens de ferro, percorri corredores e subi escadas até chegar ao exterior. Encontrei-os no que só posso chamar de convés situado sobre a parte de trás da ponte do navio. Estavam debruçados sobre a amurada, apontando as armas para água. Juntei-me a eles.

– Ele saltou para o rio – disse-me Almeida.

Juntamente com eles, comecei a procurar a criatura por entre as águas. Ela ressurgiu, momentos depois, nas escadas altas de cimento que sustentavam a margem do rio. Com a biblioteca de Viana logo acima, os homens da Organização não se atreveram a disparar, e a criatura desapareceu para o interior de uma das quelhas da cidade.

– Vamos ter de o perseguir pela cidade – disse Almeida, mais para si mesmo do que para os que o rodeavam. – Baixem o barco.

Depois, virou-se para mim:

– Conhece Viana?

– Cresci aqui – respondi.

– Então vai ter de vir connosco.

Os soldados voltaram para o interior pela mesma porta por onde saí. Pouco depois, vi a parede a mover-se. Uma secção inteira deslizou para o lado, revelando um porão contendo vários barcos semirrígidos. Os soldados pegaram num em peso e levaram-no até à amurada. Ao pressionar um botão, esta inclinou-se e rodou, formando uma rampa através da qual o barco foi levado até à água.

Depois de embarcarmos, foi uma questão de pouco mais de um minuto até chegarmos à margem. Desembarcámos aproximadamente no mesmo ponto onde a criatura subira a terra e seguimo-la para o interior da quelha.

Como esperava, ela já lá não se encontrava. Os soldados apontaram as lanternas para os outros três becos que desembocavam naquele, mas não viram nenhum sinal do nosso alvo. Estes pareciam bastante experientes em situações daquelas, pois, sem esperar por uma ordem de Almeida, começaram à procura de pistas que indicassem para onde a criatura podia ter ido. Não tardaram a encontrar umas marcas no estuque meio caído de uma casa próxima. Tratavam-se de buracos enormes a espaços mais ou menos regulares.

– Subiu para os telhados – disse Almeida, verbalizando o óbvio.

Olhámos todos para cima, mas é claro que a criatura já lá não estava. Contudo, sabíamos agora que sinais procurar. Numa quelha adjacente, encontrámos fragmentos de telhas que não pareciam estar lá há muito tempo. Noutra, paralela à segunda, encontrámos o mesmo. Numa transversal a esta última, uma parede mostrava marcas na parte superior. Seguindo estas pistas, acabámos por avistar um vulto que se movia por entre os telhados da cidade. Quando estávamos a passar diante da Igreja Matriz, ele até saltou por cima de nós, aterrando dentro da torre sineira. Contudo, não ficou lá muito tempo, pois prontamente saltou para o telhado da igreja e passou para o edifício atrás.

Almeida e os seus homens começaram a descer a rua, certamente indo em busca de uma passagem através da qual pudessem seguir na mesma direção da criatura, mas eu chamei-os:

– Por aqui.

Tomando uma quelha escondida ao lado da igreja, conseguimos seguir paralelos à criatura. Quando emergimos para uma rua maior, estávamos à frente dela.

Finalmente, chegámos ao largo situado ao lado do antigo mercado, no centro do qual se encontrava a Capela da Almas. Numa tentativa de nos prepararmos para todos os possíveis movimentos da criatura, avançámos até meio caminho entre o fim da rua e a capela. Dali, podíamos segui-la rapidamente fosse para onde fosse. Por sorte, o ser saltou diretamente para cima da capela. Com rapidez e precisão militar, os soldados da Organização cercaram o edifício antes de ele ter tempo de passar para o próximo.

– Abatam-no – ordenou Almeida, quando o ser começou a ganhar balanço para um novo salto.

As automáticas abriram fogo. Apesar de ter algum interesse em armas, não fazia ideia que modelo era aquele. Não faziam barulho quase nenhum ao disparar. Não que vivesse muita gente naquela parte da cidade para as ouvir.

Ao ser atingida pelas primeiras balas, a criatura interrompeu o salto e tentou encontrar refúgio, mas soldados cobriam todos os ângulos daquele telhado. Balas e mais balas alojaram-se no seu corpo, até que, finalmente, caiu do telhado. Ainda assim, aquilo não estava terminado. O ser levantou-se e, com um rosnar, avançou na direção de um dos soldados. Almeida tirou uma pistola de um bolso interior do casaco e juntou-se aos seus homens, cercando a criatura. Perante o fogo cruzado, esta não resistiu e, por fim, tombou, ficando imóvel no chão.

Num movimento quase mecânico, sem hesitar e nem sequer pensar, um dos soldados tirou um plástico negro da mochila, aproximou-se do corpo e cobriu-o.

– Pode ir – disse-me Almeida, guardando a pistola e enfiando as mãos nos bolsos das calças. – Nós agora vamos proceder à limpeza. Entraremos em contacto para lhe dizer o que queremos que altere no seu blogue.

Como é óbvio, estava cheio de perguntas. O que era aquela criatura? O que estava a fazer no fundo do rio? O que era aquela coisa dentro da qual se encontrava? E a Organização, fora criada por quem? A quem respondia? Quem a financiava? Contudo, não me parecia que Almeida fosse responder a nada, pelo que deixei o local e fui recuperar o barco do meu amigo.

Mais uma vez, no caminho de volta a casa, a minha mente estava perdida nas possíveis explicações para o que havia visto. Cheguei a casa quase sem notar e só quando o portão da garagem se começou a abrir é que percebi que tinha estado fora muito mais tempo do que esperara. Que desculpa ia dar à minha mulher?

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Capítulo 5 – O Culto

Aproveitando que estava a passar as férias de Natal com a minha mulher e filha em casa dos meus avós, em Viana do Castelo, decidi explorar outra das entradas do diário que encontrara.

Desta vez, a minha curiosidade incidiu sobre um local importante da minha infância. Desde pequeno, ouvi o meu pai e o meu avô contarem histórias sobre as ruínas do convento de São Francisco. Entre elas, destacava-se um já antigo rumor de que o local era usado para estranhos rituais popularmente conhecidos como macumba. Nunca tinha encontrado nenhumas provas de tal, nem sequer alguém que dissesse ter assistido, até que, ao ler o diário, encontrei uma entrada que referia um culto que se reunia no convento.

Como habitual, a timidez do meu antecessor não lhe permitira assistir a todo o ritual, e ele apenas vira uma pequena parte através das grades do portão. 

Usando de novo a desculpa de que ia visitar um velho amigo, na noite da primeira segunda-feira após o Natal, dia da semana em que o diário dizia que o culto se reunia, encaminhei-me para o convento. Quando era miúdo, este ficava no meio do monte e era preciso uma longa caminhada para lá chegar, pelo que fiquei surpreendido ao ver que agora havia urbanizações quase até ao primeiro portão.

Estacionei nas traseiras de uma destas novas casas, liguei a lanterna e encaminhei-me para o monte. Após passar uma área de terra revirada, certamente um resquício da construção da urbanização, cheguei ao portão que, em tempos, protegia o caminho que subia até ao convento. Deste apenas restava parte do portal, já que uma das colunas havia caído ou sido derrubada. 

Mal o atravessei, vi-me rodeado por eucaliptos, austrálias e o ocasional pinheiro. A floresta, agora, tinha ali o seu início.

Comecei, então, a subir o caminho. A tosca calçada, formada por pedras grandes e irregulares, não era fácil de subir, mesmo com a ajuda da lanterna. Tropecei várias vezes. Felizmente, já não chovia há algum tempo, ou as lisas pedras estariam impossivelmente escorregadias.

A meio da subida, pouco antes de uma curva apertada, encontrei um velho cruzeiro. Este mostrava sinais de cinzas e fumo. Se estes se deviam ao culto que eu estava ali para investigar ou a uma causa mais mundana, não sei dizer. 

Finalmente, depois da curva, cheguei ao troço final da subida. Pouco depois, a minha lanterna iluminou o alto portão do convento propriamente dito. Um arco suportando as estátuas de três santos albergavam-no, e uma parede com mais de dois metros partia dele. A um visitante casual, pareceria não haver forma de entrar, pois um cadeado fechava o portão, mas eu não era um visitante casual.

Ao lado do portão, havia uma subida muito íngreme, quase vertical, onde alguém havia amontoado pedras e escavado degraus. Subi-a sem grande dificuldade e entrei num estreito carreiro que penetrava a vegetação cerrada. Avancei durante algumas dezenas de metros, a parede do convento à minha direita. Aqui e ali, havia pequenas falhas, mas nenhuma grande o suficiente para eu passar.

Finalmente, cheguei ao local que procurava: uma segunda entrada que dava acesso a uma escadaria que descia até ao terreiro do convento. Em tempos, devia ali ter existido um portão, mas este seria anterior às minhas primeiras visitas.

Entrei e, por fim, desci até ao convento propriamente dito. Com a lanterna, varri os edifícios em volta. Embutidas na parede que separava o terreiro do terreno elevado e do carreiro, encontravam–se duas pequenas capelas. Não tinham porta e estavam vazias, a não ser por trepadeiras e mato, e os seus telhados de pedra estavam partidos e esburacados. No lado oposto, erguiam-se as ruínas dos edifícios principais do convento: a igreja e as áreas de habitação e trabalho. 

Contudo, não entrei de imediato. Primeiro, dirigi-me à base do cruzeiro no centro do terreiro. A cruz em si já lá não se encontrava, mas a base vagamente piramidal formada por quatro camadas de pedra sim. Segundo o meu antecessor, era nela que o culto realizava os seus rituais. De facto, as marcas estavam lá. Havia manchas vermelhas escuras por todo o lado. Aqui e ali, viam-se penas, certamente pertencentes a galinhas usadas em sacrifícios. 

Com provas tão claras de que realmente se passava algo ali, entrei nas ruínas dos edifícios em busca de um local para me esconder e esperar pelo aparecimento dos cultistas. Segundo o diário, eles só apareciam depois da uma da manhã, pelo que ainda tinha bastante tempo. Aproveitei para visitar o local e ver o que tinha mudado desde a minha anterior visita, mais de vinte anos antes. 

A primeira coisa que me saltou à vista foi que os resquícios do soalho do andar superior, que eu ainda vira em criança, tinham apodrecido completamente. De facto, o único sinal de que alguma vez houvera um andar superior eram as escadarias que não levavam a lugar nenhum e as paredes parcialmente ruídas, mas anormalmente altas para um edifício térreo.

Após visitar a antiga cozinha, com a sua enorme lareira e pia decorada de calcário, encaminhei-me para a igreja. Esta já há muito perdera o telhado, embora o enferrujado candelabro, preso às paredes por cabos metálicos igualmente corroídos, ainda se mantivesse no seu sítio. Do altar nada restava, assim como de qualquer outro elemento decorativo. Tive alguma dificuldade em atravessá-la até à entrada principal. As lajes tumulares que, quando eu era miúdo, cobriam o chão tinham sido arrancadas, deixando enormes buracos difíceis de transpor.

Quando cheguei ao pequeno adro de terra batida, encontrei as lajes amontoados num canto, algumas inteiras, outras partidas, nas quais ainda se conseguiam ver gravados os nomes e as datas de morte e nascimento dos sepultados.

Passei, então, para o claustro. Como os soalhos de madeira já haviam desaparecido, este encontrava-se totalmente a descoberto. No seu centro, o pequeno espaço reservado para o jardim dos monges estava, agora, cheio de silvedos. Algumas das colunas que o delimitavam e que outrora seguravam o teto tinham tombado, se por ação dos elementos ou vandalismo, não tenho como dizer.

Foi, então, que avistei o sítio perfeito para me esconder: a velha torre sineira. Do interior, não havia maneira de lhe aceder, pois a porta ficava no segundo andar junto a um chão que já lá não se encontrava. Saí para as traseiras do convento, onde se encontravam os acessos ao monte e aos campos, alguns pequenos edifícios de apoio e, claro, a base da torre. Depois de a circundar, encontrei uma pequena entrada secundária com menos de um metro de altura. Tive quase de me arrastar, mas acabei por conseguir entrar. 

Como acontecera aos soalhos, as escadas haviam–se desintegrado. Felizmente, a torre era estreita, pelo que, pressionando as costas, os pés e os braços contra as paredes, consegui, com muito esforço, chegar ao topo. Tinha, agora, uma visão privilegiada de todo o convento, principalmente do terreiro onde o culto supostamente se reunia, e duvidava que alguém me avistasse ali.

Desliguei a lanterna. Ainda não era sequer meia-noite, mas temia que os cultistas aparecessem mais cedo ou que vissem a luz à distância.

Já estava à espera há quase duas horas, quando comecei a ouvir um cântico vindo do fundo do caminho que me levara ali. Pouco depois, detrás da curva, surgiu uma luz alaranjada. Fixei lá o meu olhar, pois sabia que estava prestes a ver o que tinha ido ali procurar. 

De trás da curva, surgiu uma fila de pessoas, todas elas segurando candeias. Algumas também traziam sacos de pano, no interior dos quais algo se movia.

Confesso que fiquei surpreendido e até algo desiludido. Talvez por influência do cinema e da televisão, esperava figuras encapuçadas com longas vestes negras. Contudo, tratavam-se de pessoas normais envergando roupas do dia a dia.

Os cultistas subiram até ao portão e, então, tomaram o mesmo carreiro que eu usara para entrar. Passado pouco tempo, estavam todos no terreiro, em volta da base do cruzeiro. Não se ouvia nada, a não ser os cânticos e o cacarejar das galinhas nos sacos.

De repente, as vozes silenciaram-se. Um dos cultistas, um homem de cabelo longo e desgrenhado, subiu ao altar improvisado e começou a entoar um novo cântico, desta vez a plenos pulmões. Ao fim de alguns minutos, um dos outros cultistas abriu o saco e passou uma galinha ao sacerdote. Este, com uma pequena faca que tirou do cinto, cortou a garganta ao animal e deixou o sangue escorrer sobre as pedras. 

Isto repetiu-se durante uma meia hora, até que todos os sacos se encontraram vazios. Depois, os cultistas emitiram um grito em uníssono. O chão começou a estremecer. Aos poucos, uma falha abriu-se no chão em frente do altar improvisado. Um brilho vermelho alaranjado projetava-se dela. Era como se se tratasse de uma passagem para o próprio Inferno.

Os cultistas olharam para ele, como se hipnotizados, durante alguns momentos, até que um gigantesco punho vermelho, maior do que uma pessoa, saiu dele. Perante o olhar expectante do culto, a mão abriu-se, libertando cerca de uma dezena de estranhos seres humanoides. Estes eram pequenos, com cerca de meio metro de altura, e estavam cobertos por uma curta pelagem negra. Dois diminutos chifres coroavam-lhes a cabeça, que também apresentava focinhos afiados e dentes pontiagudos. 

Com grande entusiasmo, os cultistas correram atrás destes mafarricos, apanhando-os e enfiando-os nos sacos onde tinham trazido as galinhas. Ao mesmo tempo, a mão desapareceu, voltando ao abismo, e, assim que o último mafarrico foi apanhado, a falha fechou-se.

Satisfeitos, os cultistas voltaram pelo mesmo caminho por onde tinham vindo, desta vez em total silêncio. Nem os mafarricos, enfiados nos sacos, faziam qualquer ruído.

Deixei a luz das candeias desaparecerem atrás da curva no caminho e ainda esperei uma meia hora depois disso antes de descer do meu esconderijo e voltar para o carro. 

Apesar de ser a primeira entrada do diário que eu investigava que envolvia humanos, foi provavelmente uma das que me deixou com mais perguntas. Quem eram aqueles cultistas? Que iam fazer com os mafarricos? A quem pertencia a mão que os trouxera?

Fui a pensar nisso até casa e até perdi o sono nessa noite. As possibilidades causavam-me arrepios. Só obteria as respostas muito depois, mas estas superariam tudo o que conseguia imaginar.

Capítulo 4 – O Rei das Ínsuas

Como era tradição, na altura do Natal, eu, a minha mulher e a minha filha passámos uma semana de férias em casa dos meus avós, em Viana do Castelo. Algumas das entradas no diário que encontrara passavam-se em ou perto dessa cidade, pelo que aproveitei a oportunidade para as investigar. 

Uma noite, depois do jantar, desculpando-me dizendo que ia falar com alguns velhos amigos, saí e dirigi-me até à margem do rio Lima. A desculpa até nem era uma absoluta mentira. Durante a tarde, havia telefonado a um amigo de infância para ele me emprestar um barco, e ainda conversámos durante uma meia hora antes de eu entrar a bordo e começar a remar.

Estava ali para investigar umas sombras e silhuetas peculiares, e estranhos movimentos nos juncos que o autor do diário havia visto nas ínsuas próximas da foz do rio. Como habitual, o meu antecessor não havia investigado a questão a fundo, nem sequer saíra da margem, mas eu estava determinado a descobrir o que havia ali.

Como tal, remei até à maior das ínsuas, popularmente conhecida como Camalhão, que se situava a pouco mais de uma centena de metros do ancoradouro onde o meu amigo tinha o barco. 

Mal cheguei à ínsua, desembarquei, prendi a âncora a um dos enormes torrões e adentrei-me por uma regueira próxima. Como a maré estava em baixo, as margens desta, mais os longos juncos, erguiam-se acima da minha cabeça, pelo que não conseguia ver nada em volta. Porém, tendo passado uma parte da minha infância naquelas ínsuas, sabia que aquela regueira me levaria ao coração do Camalhão de forma mais rápida do que atravessando os juncos.

Logo após a primeira curva, deparei-me com um mau presságio. De uma poça na quase seca regueira, a cabeça decepada de um homem olhava para mim. Estava inchada e mostrava sinais de putrefação e de ataques de animais. De facto, a parte ainda submersa estava, naquele momento, a servir de alimento a vários camarões do rio.

Após o susto e choque iniciais, cheguei à conclusão que não devia ter razão para me preocupar. Não era invulgar encontrar corpos e partes de corpos no rio, vítimas de naufrágios trazidas e depositadas pela maré alta. Aquela cabeça não devia ter nenhuma relação com as silhuetas que eu tinha ido ali investigar.

Continuei a avançar, tomando uma nota mental para mais tarde avisar as autoridades quanto à cabeça.

Tinha percorrido poucas dezenas de metros, quando um diminuto vulto negro saltou sobre a regueira mesmo à minha frente. De imediato, subi a margem. Quando cheguei ao topo, não o vi, mas os movimentos dos juncos denunciavam-no, e consegui segui-lo.

Corri atrás dele durante várias centenas de metros, as pontas dos juncos atravessando-me as calças e ferindo-me as pernas.

Finalmente, chegámos a uma área mais limpa, coberta apenas por erva baixa, situada debaixo da chamada Ponte Nova. Foi só então que vi o que estava a perseguir: um pequeno ser humanoide, com pouco mais de dez centímetros de altura. Este desapareceu atrás de um enorme monte de ramos de árvore e embalagens de plástico, lixo certamente trazido pela corrente e pelas marés.

Continuei a segui-lo, contudo, assim que cheguei aos detritos, ouvi uma voz grave e pausada vinda de uma regueira próxima. 

– Quem és tu? O que fazes no meu reino e porque persegues um dos meus súbditos? 

Eu ia responder, mas a criatura que falara levantou-se e deixou-me sem palavras. Tratava-se de um enorme ser com quase o dobro do meu tamanho.  Não podia ser apelidado de gordo, embora não fosse propriamente magro, e, sob o luar, parecia ter uma pele pálida como marfim. Sobre a cabeça levava uma coroa feita de juncos entrelaçados, o que, juntamente com o facto de se ter referido, pouco antes, aos seus súbditos, levou-me a concluir que ele era o rei das criaturas cujas silhuetas o meu antecessor vira.

O enorme ser saiu da regueira e aproximou-se do monte de detritos. Afastei-me para lhe dar passagem, mas não me atrevi a tentar fugir. Para minha surpresa, ele sentou-se sobre o lixo, e só então percebi que se tratava de um tosco trono.

– Diz-me lá o que estás aqui a fazer – insistiu a criatura.

Contei-lhe sobre as silhuetas e como fui até ali para descobrir o que eram.

– Parece que alguns dos meus súbditos precisam de começar a ter mais cuidado – respondeu ele, no fim. – Especialmente agora. 

– Especialmente agora porquê? 

– Os meus súbditos andam a desaparecer. Não sabemos como nem porquê. O que me leva a desconfiar de ti. Como é que eu sei que não és tu o raptor. Eu vi-te a perseguir um dos nossos.

Tentei justificar a minha curiosidade. Até lhe contei sobre as minhas idas à cidade dos mortos e ao bar das fadas.

Enquanto eu falava, uma bizarra criatura emergiu dos juncos. Andava em quatro patas, embora o seu corpo fosse esguio e se contorcionasse como o de uma serpente, mas tinha uma face vagamente humana. Ele aproximou-se do rei, ergueu-se nas pernas de trás e sussurrou-lhe algo ao ouvido. Depois, desapareceu outra vez nos juncos.

O rei deixou-me terminar a minha explicação. 

– Acho que acredito em ti – disse, por fim. – Se fosses o responsável pelos desaparecimentos, não tinhas deixado as minhas sentinelas ver-te.

Apontou com a cabeça para o ponto por onde a criatura serpentiforme desaparecera.

Mais calmo, ocorreu-me que os desaparecimentos nas ínsuas talvez estivessem relacionados com os dos mortos e contei ao rei o que descobrira no Gerês. 

– Curioso – respondeu ele. – Agora preciso que vás embora. Estou a juntar o meu povo aqui e vou precisar de falar com ele. 

Não esperei que me dissesse uma segunda vez. Entrei nos juncos e dirigi-me ao barco. Conforme atravessava o Camalhão, avistei várias pequenas sombras no meio do rio, no espaço entre as ínsuas. Após olhar mais atentamente, percebi que se tratavam de troncos e até de pequenas folhas de árvore carregando várias das criaturas que eu agora sabia viverem ali.

Ainda vi as primeiras desembarcar no Camalhão, mas logo retomei a caminhada até ao barco, temendo que o Rei das Ínsuas me expulsasse. Ou pior. 

Remei de volta à margem e, depois de devolver o barco, regressei a casa dos meus avós. Enquanto conduzia, não conseguia deixar de pensar nos desaparecimentos. Haveria realmente uma relação entre os das ínsuas e os dos mortos? Ainda não sabia o suficiente sobre aquele mundo paralelo para responder a essas perguntas, mas ia continuar a investigar. A minha curiosidade nunca me deixaria parar.